Setembro de 2004
Vovô
Maluquinho
O criador do Menino Maluquinho, do Pererê
e de outros sucessos
infantis fala sobre sua passagem pela revista O Cruzeiro
Cascavel
(Paraná) - Ziraldo Alves Pinto. Esse menino
de Caratinga, Minas Gerais, está completando 72 aninhos
neste 24 de outubro. Maluquinho como só ele, já
é uma dessas pessoas acima do bem e do mal. Fala o que
quer, quando quer, sobre quem quer que seja. Por exemplo, pelo
recém-finado OPasquim21, percebe-se que não
anda contente com o amigo de longa data que hoje governa o país.
Bateu no neo-liberal e hoje bate no “exquerdista”.
Em Cascavel,
Paraná, participando da abertura do I Seminário
de Educação e Comunicação promovido
pela FAG – Faculdade Assiz Gurgacz, Ziraldo cumpriu a
rotina de suas aparições públicas: entrevista
após entrevista, filas intermináveis para autógrafos
e fotos, mais entrevista e uma palestra que, necessariamente
não precisa ter nada a ver com o tema proposto. Afinal,
Ziraldo é Ziraldo.
Entrevista
a Sandro Fortunato
Como
começou sua carreira?
Quando eu saí de casa, queria ser desenhista de história
em quadrinhos. Meu desenho sempre foi narrativo. Nunca fiz pintura.
Todos os meus desenhos eram resultantes de uma narração,
da palavra. E eu fiz história em quadrinhos. Fiz a revista
A Turma do Pererê, que durou cinco anos. Isso
foi em 1960. Agora vai ser reeditada. Com o golpe de 64, a revista
acabou, porque era muito nacionalista, tinha um coelhinho vermelho
que não gostava de general... Aí fui cuidar da
minha vida. Fundamos O Pasquim e passei a fazer charge
política. Quando os milicos foram embora para o quartel
e veio a redemocratização, o meu jornal ficou
meio sem sentido. Não sabia o que ia fazer da vida. Como
eu já tinha feito o Flicts, em 1969, fiz O
Menino Maluquinho, em 1980. O livro arrebentou a boca do
balão! A editora me encomendou outro e outro, outro,
outro... e eu já fiz mais de 100 livros desses.
De
onde veio a inspiração para o Menino Maluquinho?
Eu fui fazer uma palestra para pais e mestres e comecei a falar
como a criança tem que ser feliz, que ninguém
tem que atazanar a vida da criança, que o menino tem
que ser amado, que se o menino é amado e bem criado,
vai ser um cara legal... ou pelo menos vai gastar menos dinheiro
com analista. Não vai ser um f...da p... O sujeito que
é bem amado, que é querido, pode não virar
um gênio, mas canalha não vai ser. Não conheço
um só canalha no mundo que tenha sido um menino feliz.
Eu estava falando isso para as pessoas e me disseram: “Por
que você não escreve um livro sobre isso?”
E eu escrevi O Menino Maluquinho.
Como
você começou a trabalhar na revista O Cruzeiro?
O Cruzeiro era o meu universo, era minha vida. No interior,
eu devorava O Cruzeiro. Principalmente Millôr
Fernandes, o Vão Gôgo. Eu virei colaborador do
Vão Gôgo lá em Caratinga (Minas Gerais).
Ele tinha uma seção chamada Dicionovário,
como escrever palavras novas. Eu mandava colaborações
para o Millôr e saía n’O
Cruzeiro. Então o sonho da minha vida era desenhar
n’O
Cruzeiro. Como qualquer menino hoje quer ir para a TV Globo,
eu queria ir para O Cruzeiro. Quando eu fiz 15 anos,
terminei o ginásio, peguei meus desenhos todos e fui
para o Rio de Janeiro tentar ganhar minha vida. Aí descobri
que não tinha mercado de trabalho para história
em quadrinhos. Não existia história em quadrinhos
brasileira. E fiquei rondando O Cruzeiro para ver se
conhecia o Millôr Fernandes. A redação era
na Saúde (bairro do Rio de Janeiro), numa casa
com uma sala pequenininha, e lá estava ele com o Accioly
e o Ary Vasconcelos. Era um sábado de manhã. Eu
cheguei e disse: “Quero
falar com o senhor Millôr Fernandes, o Vão Gôgo”.
“Ih,
mas ele não recebe ninguém. Você marcou?
Eu vou ligar pra ele”.
Ele ligou: “Olha,
tem um menino aí que quer falar com você”.
Ele perguntou o nome e me mandou subir. Quando entrei, ele falou:
“Seu
Ziraldo Alves Pinto!”
E eu... (fazendo cara de assustado). Eu fiquei tão
emocionado quando ele falou meu nome! “E
aí, como vai Caratinga? Eu tenho recebido suas colaborações.
O negócio é o seguinte... fala aí: você
gosta do J. Carlos?”
- Gosto, mas ele é um pouco antiquado...
- Ah, tá, gostei...
- Quais sãos os cartunistas que você gosta?
- Olha, tem um cara chamado Oski (Oscar Conti), na
Argentina...
- Você gosta do Divito?
- Eu gosto do Oski...
- Como é que um cara de Caratinga pode gostar do Oski?
– ele perguntou pro Accioly. Senta aí e vamos conversar...
Estava ele, o Zé Medeiros e o Herberto Salles paginando
o Tempo e Contratempo, aquele livro do Millôr.
E eu fui para casa dele. “Vamos
lá em casa tomar um negócio!”
E eu fiquei no estúdio do Millôr, que tinha livros
de tudo quanto era jeito, álbuns de arte, eu fiquei fascinado!
Enquanto eles estavam discutindo a paginação do
livro, eu fiquei tirando livros das estantes. Aí vieram
me chamar: “Vamos
sair para almoçar?”
E eu: “Posso
ficar aqui?”.
Fiquei até oito da noite lá. E fiquei amigo do
Millôr pra sempre.
Daí
continuou no Rio?
Voltei pra Caratinga para fazer o terceiro científico
e para servir o Exército. Meu pai arranjou para eu não
servir. Voltei, mas em vez de ir para o Rio de Janeiro, fui
fazer Direito em Belo Horizonte. Mas continuei colaborando e
mandando coisas para O Cruzeiro e para A Cigarra.
Depois eu fui para o Rio de Janeiro com meus desenhos. Já
estava publicando meus desenhos na Folha de Minas.
Eu trabalhava em agência e meus originais eram muito mais
bonitos que os originais do Carlos Estevão, Appe... porque
eles faziam os desenhos nas costas de qualquer papel, na revista...
Eu usava papel de seda por cima, aqueles desenhos coloridos.
Fez o maior sucesso e eu fiquei trabalhando n’O
Cruzeiro.
Chegou
a ter contato com Péricles, Carlos Estevão...?
Eu que abri o apartamento do Péricles (quando ele
se suicidou). Eu estava fazendo o Pererê,
o Péricles estava fazendo o Oliveira Trapalhão,
que ele nunca entregou, e o Carlos Estevão estava fazendo
o Doutor Macarra. Eu que tomava conta do Péricles.
Quando ele estava lúcido, ele era a pessoa mais doce,
mais gentil do mundo. Quando estava bêbado, era insuportável!
Ele chegava bêbado e perguntava: “Escuta,
qual é o ramal do seu telefone?”
Eu era relações públicas. Eu falei: “103”.
E ele: “Eu
nunca tive telefone aqui nessa revista. Vocês mineiros
são filhos da puta mesmo...”.
Quando ficava bom, me ligava: “Ziraldo,
manda papel pra mim”.
Eu ia levar no apartamento dele. Ele tentou se matar várias
vezes.
E
O Centavo?
O Centavo eu fiz quando o Mário de Moraes assumiu
O Cruzeiro. Resolvi fazer política n’O
Centavo e ninguém percebia. Até que apareceu
um candidato, um sujeito maluco, puxa-saco dos milicos, que
propôs fazer um terço e pendurar no Corcovado.
A coisa mais kitsh do mundo! Um terço gigantesco, com
crucifixo, pendurado no Corcovado. E O Cruzeiro apoiou.
Eu fiz uma página assim... então tá bom,
vamos botar uma Santa Ceia em cima do Pão de Açúcar,
uma estátua de São Jorge na zona, esculhambei
com o projeto do cara. Saiu publicado. Aí acabaram com
O Centavo e me mandaram embora d’O
Cruzeiro.
Você
utiliza o Orkut? Há uma comunidade só para debater
sua obra: a Ziraldo Fan. Quer mandar uma mensagem para eles?
Eu quero entrar, mas me disseram que tem que ser convidado para
entrar. A mensagem é a seguinte: Vocês são
um bando de malucos! Eu quero que vocês se fodam! Só
tem maluco nesse mundo! Mas é divertido! Se tiver algum
que jogue RPG, não falo com nenhum deles mais. São
da mesma raça de jogadores de RPG, acabam matando um!
Quem mexe com isso, se não tivesse Internet ia ser esperantista,
filatelista, rádio-amador... são umas deformações
mentais graves! Sabe por que chat se chama chat? Porque é
a coisa mais chata que tem no mundo. É insuportável!
Agora imagina se eu vou querer bater papo com um cara que eu
nunca vi?! Eu quero bater papo com os meus amigos, gente que
eu gosto. Lá só tem solitário, chato e
maluco. O ser humano ainda não descobriu o que fazer
com a Internet. Eu quero fazer fóruns. Chamar 3 ou 4
debatedores, discutir um tema e, em vez de fazer um seminário
para quinhentas pessoas, fazer para 600 mil. E depois a gente
publica os anais. Que aí seria uma revista que eu vou
fazer para poder entrar no lugar do Pasquim.
E
o Pasquim? Como fica?
O Pasquim acabou. Eu sou o maior fracasso editorial
do Brasil! Palavra, Bundas e Pasquim.
Estou devendo um milhão de dólares na praça.
.
Para
saber mais sobre Ziraldo:
Ziraldo - Site oficial: www.ziraldo.com.br
No Orkut: comunidades Ziraldo Fan,
O Pasquim 21 e A Turma do Menino Maluquinho.