Zila Mamede

Navegos

Navegos

 Navegos, editado em 1978, reúne os cinco livros de Zila Mamede. As notas que precedem os poemas apresentados nesta página são de Paulo de Tarso Correia de Melo ou baseadas em seu prefácio ao livro Navegos.

     Nele estão:


Rosa de Pedra

     Primeiro livro de Zila Mamede, apareceu em 1953. Classificado pela autora como “intuitivo”, no qual muitos apontaram “os pecados do principiante”, foi considerado como “um dos melhores livros de versos brasileiros” por ninguém menos que Manuel Bandeira.

SONETO TRISTE PARA MINHA INFÂNCIA

De silêncios me fiz, e de agonia
vi, crescente, meu rosto saturado.
Tudo de mágoa e dor, tudo jazia
nos meus braços de infante degredado.

Culpa não tinha a voz que em mim nascia
pedindo esses desejos - sonho ousado
por onde o meu olhar navegaria
de cores e de anseios penetrado.

Buscava uma beleza antecipada
- a condição mais pura de harmonia
nessa infância de medos tatuada,

querendo-me em beber de inacabada
procura que, em meu ser, superaria
a minha triste infância renegada.

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Salinas

     Foi editado em 1958, após receber o Prêmio Vânia Souto Carvalho, Recife. Zila o definiu como um livro que mereceu mais atenção à técnica poética, à forma e ao bom uso dos temas, além de uma intenção telúrica. No conjunto de sua obra, é tido como um livro de transição.

PARA MANUEL BANDEIRA

Penso-te
como quem sonha uma estrela
que inventou na madrugada
e no desejo de guardá-la
viva.

Penso-te
como o claro silêncio permanente
da neve,
como a branca surpresa
de uma flor nascente.

Meu pensamento ama-te.

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O arado

     Dedicado “ao meu avô Caçote” e “a Nova Palmeira, terra mãe, fonte raiz, chão do meu chão”, O arado, de 1959, é prefaciado por Luís da Câmara Cascudo que dele diz: “Todos os poemas nasceram no chão sagrado, com chuva do Céu e suor dos rostos vigilantes, surgidos na inspiração provocadora de uma inegável vivência emocional”.

ARADO

Arado cultivadeira
rompe veios, morde chão
ai uns olhos afiados
rasgando meu coração.

Arado dentes enxadas
lavancando capoeiras
Mil prometimentos, juras
faladas, reverdadeiras?

Arado ara picoteira
sega relha amanhamento,
me desata desse amor
ternura torturamento.

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Exercício da palavra

     Há aqui uma mudança de visão temática, antes de tudo urbana. A “precisão” parece ser a grande obsessão formal do livro. Zila consegue, na maior parte dos poemas, dar uma forma espacial às preocupações visuais perceptíveis em seu trabalho.

A PONTE

Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
de pedra e de aço
onde não
permaneço


Corpo a Corpo

     Zila define Corpo a corpo como “uma volta sem mágoa” a cada um dos lugares que marcam seu itinerário poético, a novidade desses poemas inéditos está, outra vez, muito mais na forma, se tomada em relação ao livro anterior, que no retorno temático..

ONDE

Entre a ânsia
     e a distância
     onde me ocultar?

Entre o medo
     e o multiapego
     onde me atirar?

Entre a querência
     e a clarausência
     onde me morrer?

Entre a razão
     e tal paixão
     onde me cumprir?

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