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Abril de 2004

Vinicius de Moraes continua vivo em Ipanema

RIO DE JANEIRO - A Toca do Vinicius, em Ipanema, é um dos mais agradáveis espaços culturais do Rio de Janeiro. Livraria, loja de discos, museu, sala para palestras e exibição de vídeos, eventos musicais de alto nível... Isto é a Toca. Pode parecer lugar comum, mas não há como não dizer: a Toca do Vinicius é a cara do Rio. Além de tudo que se possa imaginar sobre o poeta que dá nome ao local – Vinicius de Moraes – pode-se encontrar por lá o que há de melhor em termos de música carioca: Bossa Nova, Samba e Choro.

O responsável por tudo isso é Carlos Alberto Afonso, 54 anos, professor de Literatura. Quando se aposentou, junto com a família começou a se dedicar à Toca do Vinícius.

O elemento de transição entre a vida de professor e a Toca foi o livro ABC de Vinicius de Moraes, escrito por ele e lançado em 1991. Em 1993, quando Vinicius completaria 80 anos, a prefeitura do Rio resolveu dedicar um ano inteiro ao poeta e criou, por decreto (3 de fevereiro de 1983), o que se chamou Ano Vinicius de Moraes na cidade do Rio de Janeiro. O prefeito César Maia formou uma comissão composta pela Secretária de Educação, Regina de Assis, pela Secretária de Cultura, Eliana Severo, e pelo Secretário de Turismo, Luís Eduardo Guinle. César Maia telefonou a Carlos Alberto no dia 4 de fevereiro convidando-o para secretrariar essa comissão. Embora eu não tivesse a menor condição de aceitar, de dedicar um minuto que fosse a qualquer atividade que não fosse remunerada – vida de professor –, não havia como resistir, diz Carlos.

Nesta entrevista, ele fala sobre como surgiu sua admiração por Vinicius, como nasceu a Toca e o que pode ser esperado do local.

Quando surgiu sua admiração por Vinicius de Moraes?
A
ntes da minha primeira adolescência. Eu comecei a me preparar para a carreira diplomática muito cedo, aos 12 anos. Já se ouvia falar em Vinicius, isso em 61, 62. Ele já estava fazendo shows, escandalizando as elites. Como pode um diplomata fazer shows em casas noturnas? Ele começou a me chamar atenção por isso, ele seria, teoricamente, o anti-diplomata. Mal as pessoas poderiam imaginar que ninguém melhor que ele representaria esse lado da cultura brasileira. E logo depois, um amigo de infância e meu vizinho, grande músico e compositor, que é o Ivan Lins, me presenteou com a primeira edição da Antologia Poética de Vinicius. Eu fiquei maravilhado com aquilo! E isso começou a chamar minha atenção para a figura do Vinicius. Comecei a descobrir na figura dele que, antes e acima de ser cada uma das muitas coisas que ele foi – poeta, jornalista, crítico de cinema, diplomata,... –, ele foi um celebrador da existência. Todas as outras coisas vinham a reboque. Ao contrário de outros, que colocaram à existência a reboque – como Drummond, como João Cabral (de Melo Neto),... – e acabaram construindo uma obra maior do que eles mesmos eram, Vinicius, na minha visão, bem conseqüente, bem fundamentada, é o oposto. Ele é maior que a obra que criou. Ele exercitou algumas fórmulas que pregou, por exemplo, para viver um grande amor é preciso saber ganhar dinheiro com poesia. A gente sabe que essa poesia tem sentido figurado e ele conseguiu. Para mim, Vinicius seria qualquer coisa que ele decidisse ser na vida. Porque ele conseguiu conciliar duas coisas que tornam uma pessoa irresistível: talento e determinação. Vinicius, uma mina de talento e um dínamo de determinação. Imbatível. Ninguém seguraria Vinicius fosse qual fosse o caminho que ele quisesse tomar. Vinte anos depois de morto, ele ocupa na mídia espaços que muitos vivos não ocupam. Mas eu posso dizer que nunca me identifiquei com Vinicius. Nós somos completamente diferentes, não gostamos das mesmas coisas, não temos o mesmo temperamento, nem os mesmos valores, nem tenho a mesma coragem que ele, embora tente me inspirar nela. A Toca do Vinicius é um ato de ousadia, inspirado nessa vontade atrevida de celebrar a existência.

O senhor chegou a ter algum contato com ele?
Nunca. Gostaria de dizer que sim, mas nunca tive. Só o vi fazendo shows. Esse era o meu contato com ele. Via o Vinicius dentro do bar, do boteco... e aquela formação pequeno burguesa, que eu tive, do não me toque, não chega perto, não vai assediar para não ser incômodo, o que a outra pessoa vai pensar?... tudo isso fez com que eu jamais chegasse a ele. Infelizmente eu não tinha percepção de que poderia ter um contato com ele sem necessariamente estar assediando, no sentido desagradável da expressão. Eu olhava de longe. Ele acabou indo embora e eu jamais cheguei perto. O interessante é que quando ele morreu, eu entrei firme na vida dele. Aí entrei sem cerimônias. Comecei a almoçar, jantar e dormir Vinicius de Moraes para saciar minha sede de conhecimento, dele e dos diversos itinerários dele. E percebi que Vinicius marcou muito a minha geração – que não era a geração dele –, ele vivia cercado da garotada. Garotada que hoje é a coroada: Nelson Motta, Glauber Rocha, se estivesse vivo, Taiguara, se estivesse vivo... E tem depoimentos incríveis sobre Vinicius. A minha órbita era outra, mas se fosse essa mesma, de música, certamente eu seria mais um a ficar acocorado ali para ouvir alguma coisa, um espirro do Vinicius que fosse. Mas eu consegui uma boa compensação, pelo fato de eu ter sido professor de Literatura, isso me permitiu utilizar muito Vinicius.

O senhor acha que Vinicius já é bem aceito no meio acadêmico?
Nunca houve muito espaço para Vinicius na academia, a universidade nunca teve as portas escancaradas para ele. Antigamente eram meio fechadas, depois ficaram entreabertas, hoje um pouco mais . E mais em função da popularidade dele do que da convicção do intelectual. Vinicius pagou um tributo muito pesado pela migração da veiculação da poesia dele em livro para a veiculação da poesia em canção. Ele ficou muito discriminado nos meios intelectuais. Hoje essa discriminação é menor mas ainda existe. Eu sei disso porque vou à universidade, faço minhas palestras, participo de mesas redondas... eu sou muito atento, sou muito sensível a essas coisas. Melhorou muito, mas poeta no Brasil ainda é Drummond e João Cabral. Eu percebo até que algumas pessoas adorariam que ele fosse consagrado como poeta, com escritor, mas eu tenho absoluta certeza que ele não estaria fazendo questão disso. Ele estaria fazendo questão de ser reconhecido como homem, afirmando seu padrão de existência. Eu não tive esse contato direto, mas eu visitei os lugares onde Vinicius esteve aqui no Brasil e fora, como Paris. Fui nos lugares que ele consagrou na sua poesia. Na Inglaterra, onde ele estudou um ano e pouco - foi bolsista em Oxford - eu também andei fazendo uns cursos lá e usei uma tarde inteira fuçando e remexendo para ver se encontrava algum registro da passagem dele. Infelizmente não achei. Ninguém ainda sabia quem era Vinicius de Moraes.

E como surgiu a Toca?
A Toca surgiu em 93, no Ano Vinicius. Eu fui convidado para secretariar essa comissão porque já era notório meu compromisso com Vinicius. Por causa do livro, a maneira como eu divulgava o livro, até então inusitada: eu ficava no Posto 9 (na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro), aos domingos e feriados, enquanto o pessoal fazia footing, eu botava o livro no canteiro. Aquilo foi me interessando, eu comecei a fazer exposições e daí acabei na secretaria da Comissão. Esse trabalho durou três anos. Então eu, minha mulher e meus filhos fizemos uma avaliação e pensamos que esse projeto deveria ter um teto, uma existência formal. Estava chegando uma Bienal do Livro, em agosto. Alugamos um stand e fizemos ali a Toca do Vinicius. Só tinha Vinicius mesmo. Quando acabou a Bienal, nós entendemos que não deveríamos mais voltar para a rua, deveríamos continuar com um teto. Alugamos um boxe aqui neste mesmo quarteirão, na (rua) Visconde de Pirajá, 318, e ali então nós formalizamos a Toca do Vinicius. Aquilo gerou muita satisfação porque até então ninguém mexia com Vinicius de maneira mais comprometida. Tanto é que o Jornal do Brasil, quando eu estava fazendo divulgação do meu livro na praia, abriu uma foto com uma manchete assim: Vinicius volta a freqüentar Ipanema. Só volta quem não estava...

Além das aulas e da Toca, quais outras atividades o ligam a Vinicius?
Eu fiz um bom relacionamento com as filhas deles, responsáveis pelos direitos autorais.Elas eram convidadas para palestras e me levavam. Davam oportunidade de falar sobre Vinicius. Lembro de uma vez, numa faculdade, quando Luciana disse assim: nós fomos convidadas, eu e minha irmã Georgiana, e trouxemos aqui o Carlos Alberto que conhece mais o nosso pai do que nós mesmos. Eu senti meu ego superacariciado com aquilo, pois era a remuneração que eu queria! E deitava falação, ia embora até não ter mais ninguém ouvindo. Com o tempo, fui tomando mais cuidado pois percebi que Vinicius foi passando a ser tratado como um produto. Sou muito cuidadoso, jamais cometeria uma indelicadeza ou provocaria algum tipo de entrave. Então, quando transferimos a Toca do Vinicius para cá, em 1995, já não havia mais como trabalhar só Vinicius, porque apesar da grande importância, não teria como manter o projeto só com ele. Tomei o Vinicius como paradigma do projeto e passei a considerá-lo (o projeto) abordando a cultura poética e musical das quais Vinicius é representante. Então nesse eixo vinha a Bossa Nova, o Choro, o Samba, a cidade do Rio de Janeiro, Ipanema e toda a cultura carioca que Vinicius é capaz de representar como poucos. Poucos militaram na poesia e na música com tanta competência. Nós ampliamos e não vivemos mais do Vinicius, olhando para ele e esperando que ele olhe para a gente. Ao invés de nos entreolharmos, nós passamos a olhar juntos na mesma direção. Passamos a viver desta forma. Um caso de amor mesmo.

Fale um pouco sobre as atividades da Toca.
A Toca do Vinicius é um espaço cultural que se compõe de uma livraria especializada em música, com CDs voltados principalmente para a cultura musical típica do Rio de Janeiro – a Bossa Nova, o Samba e o Choro – e alguns souvenirs temáticos. E temos também uma editora. A atividade editorial não é a nossa atividade fim. É uma atividade de apoio. Nós editamos episodicamente: o que queremos, quando queremos, da maneira que queremos e como julgamos que deva ser. E os nossos eventos musicais, que já são um hábito aqui no bairro. Na temporada de verão, acontecem todos os domingos. Fora do verão, um domingo a cada mês ou em datas festivas do calendário da Toca. A data magna da Toca é o aniversário da cidade (1º de março), que é nossa grande paixão; o aniversário de Ipanema (26 de abril), o Dia Internacional da Mulher, o Dia dos Namorados... Esses eventos musicais aconteciam no andar de cima da Toca, onde hoje está o Museu., mas como eram só 40 lugares... Tudo sempre gratuito, nunca comercializamos isso. Carlos Lyra, Quarteto em Cy, Menescal, Joyce... só com 40 lugares. Começamos a experimentá-los na calçada e chegamos a um formato definitivo. Pelo menos, definitivo até agora. Aqui em cima (no museu) diminuímos o número de cadeiras, ficamos só com 20, para cursos, palestras, workshops, atividades mais acadêmicas e menos populares, sessões de vídeo – temos um invejável arquivo! A expressão é imodesta mas é real.

Muita gente deve procurar esse material...
Costumo dar assessoria. Canais de TV ligam, fazem perguntas, pedem para emprestar. Na-nã-não, daqui não sai nada. A gente não empresta. Pode vir e ver aqui. No momento não estão acontecendo atividades nesse espaço porque as cadeiras estão todas ocupadas com as pedras da Calçada da Fama.

E quando a Calçada será inaugurada?
Já está pronto o projeto, concebido pelo arquiteto Paulo Casé, que foi quem fez a última maquiagem arquitetônica no bairro de Ipanema, há dez anos. É um gênio. Um projeto lindo. Eu quase chorei quando vi. As placas vão ficar em totens verticais, de vidros grossos, sanduichadas, duas a duas em cada face, num total de trinta e duas pedras. Vai ficar na frente da Toca, criando labirintos, com iluminação própria. Será inaugurada em 2004, mas a data ainda não está fechada.

Há planos de expansão para a Toca?
A Toca é um espaço cultural com diversas atividades. A Toca não tem patrocínios, nem busca. Aqui tudo é muito pessoal, não pode mesmo ter a interferência de ninguém. É tudo conduzido com muita luta, às vezes até com muita dificuldade, mas encarando e superando, com a mídia ajudando, o povo na calçada. A Toca está em inúmeros guias turísticos do mundo inteiro. As pessoas até pensam que é um lugar maior. Ela é apresentada por jornalistas do mundo inteiro que descobrem o óbvio: eis aqui um lugar típico. E o visitante quer vir aqui para ver algo que ele só vai ver aqui no Rio. Nós temos desejo de uma expansão. Nós não temos espaço para manter em exposição todo o nosso acervo. O nosso acervo é de museu mesmo, de originais. Nós vamos precisar de mais uns metros. Em filiais, não penso. Toca nem na Barra da Tijuca, nem em Copacabana. Em Ipanema já seria difícil pensar na Toca em outra rua que não fosse essa. O forte da Toca é a tipicidade. Seria como pensar na figa vendida no Rio Grande do Sul ou chimarrão na Bahia. Nossa escala de produção é absolutamente artesanal. Nós fazemos, nós tocamos o barco.

SERVIÇO:
Toca do Vinicius
Rua Vinicius de Moraes, 129 Loja C – Ipanema – Rio de Janeiro – RJ
Telefone.: (21) 2247-5227 / Fax: (21) 2522-4993
Site: www.tocadovinicius.com.br

A Toca funciona todos os dias do ano (menos no Natal e Sexta-feira da Paixão), de segunda a sábado, das 9h à meia-noite; domingos e feriados, das 10h às 22h.

Para saber mais sobre Vinicius, visite Memória Viva de Vinicius de Moraes e também o site oficial.