Clique para retornar à página principal


Maio de 2004

São Paulo – O Belas Artes, o quase quarentão cinema da esquina da Paulista com a Consolação, estava fechado desde dezembro de 2002. Estava. Ele reabre suas portas ao público a partir de 28 de maio totalmente reformado. Do original, só ficaram as paredes e a teimosia em passar bons filmes. É o que garante André Sturm, dono da Pandora, distribuidora de filmes, e do Belas Artes, em sociedade com a O2, produtora de Fernando Meirelles, Paulo Morelli e Andréa Barata.

Nesta entrevista realizada em uma das salas do cinema, onde era possível ficar longe do barulho das obras em ritmo acelerado a uma semana da reabertura, André Sturm fala sobre seu envolvimento com o cinema desde os tempos do Cineclube da GV e diz o que vai rolar no novo Belas Artes.

Como começou sua ligação com cinema?
Eu sempre gostei de cinema. Comecei a trabalhar, a ter alguma ligação com cinema na faculdade. Eu fazia Administração de empresas na Getúlio Vargas, aqui em São Paulo. No começo do segundo ano tinha uma plaquinha assim: Venha participar do Cineclube da GV. Eu fui naquela reunião, tinha um monte de gente... o Cineclube estava completamente desarticulado, era um pessoal que nem era da faculdade, era ligado ao Conselho Nacional dos Cineclubes que havia feito uma parceria com o centro acadêmico e estava tocando o tal do Cineclube da GV. Eu comecei a participar do Cineclube da GV e comecei a descobrir esse mundo da sala de cinema, da programação, da distribuição... Quando a gente não conhece esse mundo, quando a gente pensa em cinema, pensa em ser cineasta ou ser fotógrafo de cinema. Nem sabe que existe uma distribuidora de filmes e, quando muito, você sabe que tem um cinema mas não sabe como funciona esse negócio. Então descobri esse mundo da programação, de organizar ciclos, eventos... fiquei envolvido com isso, continuei na faculdade e continuei no Cineclube. Isso foi em 1984.

Mas você também é diretor...
Em 1986, resolvi escrever um roteiro de um curta. Ganhei um prêmio do Ministério da Cultura e fiz meu primeiro curta, que se chama Arrepio. Depois fiz meu segundo curta, dois anos depois, Nem tudo que é sonho desmancha no ar. E em 88, eu já estava para sair da faculdade e o Cineclube da GV funcionava no auditório da faculdade, ele era para as pessoas da cidade, era aberto ao público. Mas ele dependia de um monte de coisas. Só funcionava de sexta a domingo, às vezes só sábado e domingo... não era uma sala de uso contínuo...e eu resolvi que queria ter um cinema legal, um cinema bacana para fazer esse tipo de programação no dia-a-dia num cinema mesmo, que não tinha, em São Paulo, naquela época. Haviam muitos cineclubes, mas não havia um cinema bacana. Então eu fiquei durante o segundo semestre de 88 procurando, tentando, buscando um cinema que fechou, que estava pra fechar, mas acabou não dando certo. E eu me dei conta de que se eu tivesse o cinema, não iria ter filme para passar. E também outro problema daquela época é que você não tinha muitos lançamentos dos filmes, digamos, europeus, os filmes mais legais. Não tinha distribuidora independente no Brasil naquela época. Você tinha as grandes distribuidoras americanas e três distribuidoras que eram ligadas a exibidores que, fundamentalmente, traziam filmes comerciais. Às vezes vinha um filme ou outro... a Palma de Ouro em Cannes vinha, mas não tinha uma diversidade muito grande. Se eu fizesse um cinema para passar lançamentos, eu não ia conseguir. O que você tinha era um acervo em distribuidoras pequenas, que já não operavam mais, de filmes dos anos 80, 70 e até 60. Então eu vi que tinha que ter uma distribuidora. Fui ao Festival de Berlim em 89 – nem tinha uma distribuidora, mas fui descobrir como é que funcionava isso – e lá tinha um mercado, uns stands, onde as empresas negociam os seus filmes, fui e acabei negociando quatro filmes. Voltei para o Brasil e montei a distribuidora que eu não tinha ainda. Foi assim que começou a Pandora. Demorei quase um ano para conseguir botar tudo em ordem, era extremamente burocrático – como ainda é, mas na época era ainda mais.

E como foi o início da Pandora?
Em 1990, eu lancei meu primeiro filme, Vozes distantes, que é um filme inglês que havia ganhado o prêmio da crítica em Cannes, em 1988. Daí a Pandora seguiu em frente. Nesse mesmo tempo, eu estava saindo da GV e fui convidado para cuidar da programação da Sala Cinemateca, onde hoje é a Sala Uol, em Pinheiros, que estava mais ou menos. Foi uma época maravilhosa. Com o pique que eu tinha, a Cinemateca me abria portas que na GV eu não tinha. Então eu pude trazer filmes de fora. Fiz uma mostra completa do Orson Welles; do (Yasujiro) Ozu, completa; do (Alfred) Hithcock; do (Andrei) Tarkovski; com filmes que vinham do Uruguai, da Argentina, dos Estados Unidos, da Inglaterra... enfim, fizemos coisas muito legais, foi um momento muito bom, do qual tenho uma recordação muito legal. Fiquei na Cinemateca até final de 1990. Mas aí com o Collor – a Cinemateca era ligada ao governo federal -, em 90 acabou com muita coisa e, em 91, demitiu muita gente da Cinemateca, eu era contratado. Fui demitido também e acabei me afastando. A Pandora acabou me ocupando mais e eu segui nessa direção. Tive ainda outras experiências em exibição, no Cineclube Bixiga, no Cineclube Veneza, mas aí o entorno começou a cair muito, a gente acabou desistindo. Depois fiz um terceiro curta, depois meu primeiro longa, Sonhos tropicais, e também tenho uma atuação na área de política do cinema, fui presidente da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), da ABD Nacional, atualmente sou presidente do Sindicato da Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo (Sicesp). E aí chegamos ao Belas Artes.

Como o Belas Artes entra na sua história?
O Belas Artes era um sonho. Desde que eu sou cinéfilo que o Belas Artes era o templo do cinema. Eu criei a Pandora para poder ter cinema. Ter um cinema era o objetivo inicial. Eu criei a distribuidora para poder ter cinema. E acabou ficando para depois. O Belas Artes era um sonho. Por duas vezes, nessa história toda, cheguei a procurar o proprietário do Belas Artes, conversar, tentar um acordo, mas nunca foi possível. Até que em 2002 saiu no jornal: Belas Artes vai fechar. Aí eu falei: Bem, vou lá ver o que é que está acontecendo. Então eu fiz um acordo e assumi 50% do Belas Artes em fevereiro de 2003, comprando a parte do (grupo) Estação (do Rio de Janeiro). O Hilton, do Alvorada (dono da outra metade), ficou. Ele se animou no começo, mas o cinema estava realmente muito ruim. O investimento que precisava era grande, ele não estava a fim e disse: André, se você quiser a gente fecha o cinema, vende o que tem dentro e recupera o que você já gastou. E eu falei me dá um tempo, assumi a parte dele – ele foi muito bacana em me dar essa chance -, assumi para depois comprar, saí atrás de outro sócio, consegui o pessoal da O2 – Fernando Meirelles, Paulo Morelli e Andréa Barata –, eles entraram no negócio. Juntos fomos em busca de um patrocínio que conseguimos com o banco HSBC, que entrou em fevereiro e permitiu que a reforma ganhasse mais corpo, que a gente pudesse fazer mais coisas, dar um acabamento ainda melhor, que puséssemos elevador aqui no cinema, o que vai possibilitar que deficientes e idosos tenham acesso a todas as salas, etc.

O que muda na estrutura do novo Belas Artes?
Tirando as paredes da sala, muda tudo. Literalmente tudo. Carpete, cadeira, corrimão, degraus, luminárias, caixas de som, pintura, telas, sistema de segurança, sistema de controle de incêndio... tudo foi trocado. Esse saguão que hoje se vê – amplo e agradável – era um negócio todo socado. Ficava a bonbonière no meio, atrás o controle dos projetores, depois a bilheteria e tinha uma parede. Então havia duas lingüiças entre a bonbonière e as paredes e dois saguões minúsculos, onde cabiam umas 30 pessoas em cada. Agora, com esse novo projeto, criou-se um grande saguão onde se pode circular com mais tranqüilidade, mais conforto; tem um outro saguão no mezzanino com outra bonbonière. Antes as pessoas compravam ingressos e a fila ficava para fora, na rua. Não só a fila para comprar ingresso, mas a fila para entrar na sala. Eu espero que a gente tenha filas saindo do cinema, mas vai ser muito difícil porque tem muito mais espaço para as pessoas ficarem dentro. Tem um conceito visual mais moderno, é todo clean, todo branco, iluminação quase toda escondida.

O número de salas continua o mesmo?
É como eu falei: só ficaram as paredes. Continuam as salas, nos mesmos lugares. Quanto aos nomes, mudamos uma coisa. Tem muito cinema em São Paulo hoje, então, para efeitos de divulgação, no jornal, Belas Artes Sala Villa-Lobos fica uma coisa muito grande. Agora vamos chamar de HSBC Belas Artes – Sala 1. Mas as salas continuam com os nomes. Quando você chegar no cinema, você vai comprar ingresso para a Sala 1- Villa-Lobos, Sala 2 – Cândido Portinari...

E como vai ser a inauguração?
Nós vamos ter um evento no dia 24, que vai ser a pré-estréia, em São Paulo, do filme O outro lado da rua, do Marcos Bernstein. Um evento para convidados nossos, do patrocinador, convidados da equipe do filme. No dia 28 (de maio) abre para o público com uma programação bem variada: filmes de circuito, filmes exclusivos, relançamentos... Vamos passar um blockbuster, que é O dia depois de amanhã, que vai estrear nesse dia; O outro lado da rua, que também vai estrear nesse dia; Herói de família, que é um filme americano independente que entra com apenas duas cópias em São Paulo; Histórias mínimas, que é um filme argentino super-premiado; dois relançamentos na mesma sala, Cronicamente inviável, de Sérgio Bianchi, e Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder.

Como fica o cinema nacional na programação?
Nós vamos ter sempre, no mínimo, um filme brasileiro em cartaz. Não vai ter uma sala do cinema brasileiro por que eu acho isso ruim. Na semana de estréia, vamos ter dois: um relançamento e um inédito.

E agora como dono de cinema, como fica a Pandora? Você vai trabalhar com outras distribuidoras?
Claro. Desses filmes todos da primeira semana, só tem um da Pandora, que é o História mínimas.

E você já está pensando em mostras?
Aqui nós vamos fazer algumas programações de eventos. A idéia é de uma vez por mês fazer um evento numa sala. A primeira que vamos fazer, provavelmente na terceira ou quarta semana de junho, vai ser o Estreou no Belas Artes. Vamos pegar filmes que estrearam no Belas Artes nos anos 70, anos 80 e fazer uma semana com 7 ou 10 filmes. Vai ter Fitzcarraldo, Lili Marlene, Tarzan, a vergonha da selva, Johnny vai à guerra... filmões que estrearam aqui.

Você acha que a sua iniciativa com o Belas Artes pode ajudar a revitalizar os cinemas do Centro de São Paulo?
Eu não sei se os do Centro... Em relação ao Centro de São Paulo, não depende do empresário reformar o cinema. A questão é: quem é que vai se meter no Centro de São Paulo depois das seis da tarde?

Você não apostaria ali?
Eu não. De jeito nenhum. É um antro aquilo ali. Não tem condições. Tem jeito, mas não depende do empresário de cinema. Depende do poder público criar condições de convivência civilizada naquela região. Escureceu não tem mais ninguém na rua. Como você vai ter um negócio de entretenimento. Aqui nós temos convênios com dois estacionamentos (350 vagas), vamos ter seguranças aqui no cinema. Aqui não é uma região perigosa, há grande movimento. Pelo menos 250 mil veículos passam por aqui diariamente, além do metrô. É um lugar acessível, fácil de chegar.

Como você vê a cobertura da imprensa em relação ao cinema, hoje, no Brasil?
Revista que trata de cinema no Brasil, só tem uma: a Set. Eu acho que é uma revista legal, bacana. Óbvio, ela dá um destaque enorme ao cinema de entretenimento, que acho que faz todo sentido, porque é esse cinema que faz a indústria. Mas eles não deixam de falar de filmes mais sofisticados, de produtos bons, eles tentam cobrir vídeo e DVD. Eu acho uma revista bacana. Eu leio a Set. Acho que a imprensa escrita cobre bem. Você tem hoje muitos sites especializados em cinema, o que é bom. Tem uma cobertura informativa boa no Brasil. Não dá para reclamar.

SERVIÇO:
HSBC Belas Artes – 6 salas de cinema
Endereço: Rua da Consolação, 2423 (esquina com Av. Paulista) - São Paulo