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Julho de 2004

“A Contracultura na América do Sol”:
O Underground Brasileiro na perspectiva de Luiz Carlos Maciel

por Patrícia Marcondes de Barros

Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro, Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação no Pasquim, com a coluna Underground, quando então escrevia artigos sobre os movimentos alternativos que eclodiam no mundo, assim como as manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o romantismo, o surrealismo, o existencialismo sartreano, a literatura da Beat Generation, o marxismo, entre muitos horizontes (re)descobertos na época. Este trabalho de difusão da contracultura lhe valeu o estereótipo de guru da contracultura brasileira.

Incursões de Luiz Carlos Maciel
na imprensa alternativa

Pasquim, coluna Underground (1969-1971)

Luiz Carlos Maciel foi convidado pelo jornalista Tarso de Castro a participar do semanário O Pasquim e lançava em 1969, a coluna Underground.

O Pasquim foi fundado por Sérgio Cabral, Jaguar e Tarso de Castro, no Rio de Janeiro, seis meses após o governo militar decretar o Ato Institucional n.º 5, acabando, assim, com a chamada liberdade de imprensa. Seu primeiro número chegou às bancas no dia 26 de junho de 1969. Era primeiramente considerado um jornal de bairro, no caso, de Ipanema, denominado por muitos como um jornal de costumes que conseguiu em poucas semanas emplacar 200 mil exemplares e alcançar rapidamente leitores de vários pontos do país com sua linha editorial irônica.

Os artigos eram variados, assim como a abordagem de cada membro da patota. A linhagem ideológica eclética do grupo acabava por definir uma identidade para o jornal.

Segundo Henfil, O Pasquim funcionava como uma espécie de time de onze garrinchas que tinham uma linha política mais ou menos comum, embora um jogue mais recuado, outro avance bem mais, outro só lance. O ponto chave desse jogo é o humor e nisso as individualidades acabavam por se compatibilizar.

O Pasquim inovou o jornalismo brasileiro, se impondo não apenas através do humor, mas também da criatividade e da quebra de formalidades, tendo como alvos a ditadura, a classe média moralista, a grande imprensa e todos os coniventes de plantão.

Maciel, na primeira fase do Pasquim, com a coluna Underground (que podemos datar até sua prisão em 1970), tinha uma curiosidade pela contracultura movida por propósitos meramente jornalísticos. Depois da sua prisão, em 1971, resolveu se aprofundar nas idéias contraculturais, assumindo-se como um hippie. Morou em comunidades, na praia e, por fim, na roça (quando percebera finalmente que era um homem alternativo, porém urbano).

O termo contracultura era sentido no Brasil como algo exótico, uma curiosidade vinda dos Estados Unidos (que induzia a crítica de setores ideológicos da esquerda tradicional, descrentes de sua ideologia revolucionária, considerada subjetiva e individualista).

A parte majoritária do Pasquim compartilhava de uma visão tradicional de esquerda. Para eles, o tema contracultura era associado a um descompromisso, um desbunde, advindo do movimento hippie norte-americano (ou seja, uma expressão do imperialismo norte-americano no Brasil).

Com o tempo, a coluna Underground foi perdendo seu espaço dentro do Pasquim, devido ao confronto ideológico que causava, proporcionando uma cisão interna.

A Flor do Mal (1971)

Juntamente com os poetas Tite de Lemos, Torquato Mendonça e Rogério Duarte, Maciel fundou A Flor do Mal (1971), um dos primeiros jornais contraculturais brasileiros.

Para Maciel, A Flor do Mal representava um momento de liberdade extrema, justamente num momento que a supressão da mesma era intensa. O jornal era escrito à mão, numa busca de espontaneísmo total, de eliminação de filtros mecânicos, ideológicos, o que deu ao jornal um perceptível traço de surrealismo.

A capa do primeiro número de A Flor do Mal continha um texto de Baudelaire sobre a imprensa e a foto de uma menina negra sorrindo, despida do peito para cima, representando a pureza espiritual a que ansiavam. Esta iniciativa durou apenas cinco números, contudo, sua tiragem era de 40 mil exemplares, dos quais vendia-se metade. As características inerentes aos jornais alternativos da época eram, geralmente, a falta de dinheiro, o público restrito e a efêmera existência. A Flor do Mal, apesar do curto período de circulação, obteve grandes considerações no meio underground brasileiro.

Seu conteúdo contemplava poesias em versos, poemas em prosa e alguns textos considerados por muitos como absurdos. Poetas da geração mimeógrafo publicaram seus primeiros poemas nesse jornal. De acordo com Maciel, na Flor podia-se fazer o que desse na veneta.

Rolling Stone (1972)

No final do ano de 1971, Maciel foi procurado pelo inglês Mick Killingbeck, que veio ao Brasil para trabalhar como físico nuclear, mas que cultivava intimamente um amor pelo rocknroll. Conseguiu assim, os direitos da revista Rolling Stone ,grande sucesso nos Estados Unidos, para editá-la no Brasil. Maciel foi então solicitado pelo seu interesse na Contracultura e passou a editar a revista no Brasil.

O número zero saiu em 1972, contendo uma longa matéria escrita por Maciel sobre a vinda do grupo de rock Santana ao Brasil, uma crítica de Mick ao show FA-TAL de Gal Costa, uma saudação à volta de Caetano ao Rio de Janeiro através de uma poesia de Maciel, e entrevistas com o próprio Caetano e Jorge Mautner.

A partir dessa entrevista, Maciel estreitou sua amizade com Mautner, considerado pelo mesmo como veterano do desbunde, pois vinha da fase da beat generation dos anos 50 e foi, talvez, o primeiro beatnick brasileiro com a obra Deus da Chuva e da Morte (1958).

A experiência com a revista, contudo, foi breve, acabando por questões financeiras. Logo Maciel se reúne com Jorge Mautner na tentativa de fazer uma nova revista underground no Brasil. Surge, então, o projeto da revista KAOS, em 1974.

KAOS (1971)

Nos anos 50, Mautner tinha lançado o movimento do KAOS com K, que consistia na subversão e na contestação dos valores vigentes – não apenas políticos, econômicos e sociais, mas principalmente morais, psicológicos e existenciais. É com esse intuito que a revista surge em idéia, contando também com a participação de Caetano Veloso.

Fizeram um release da idéia em forma de gravação, comentando, através de um bate-papo informal, as principais propostas e mandaram para jornais e revistas. A idéia não só foi negada por todas estas instâncias, como também, estereotipada como uma iniciativa hippie, contracultural, associada a uma maluquice sem propósitos sérios.

Para Maciel, o intuito central da imprensa alternativa comum a todas as iniciativas era o de combater o poder absoluto da mídia, que se quer imparcial de uma realidade objetiva, mas que atende inescrupulosamente a interesses determinados.

O pensamento de Luiz Carlos Maciel deixa a lição de que não podemos creditar à ação política e a qualquer outro processo de natureza coletiva a função de construir um mundo e uma vida com condições materiais e espirituais mais elevadas, só restando o caminho da experiência pessoal, o de cada um inventar sua própria vida através de uma sanidade física e mental, para a formação de uma nova consciência, de uma contracultura que nos tire da apatia do mundo virtual da realidade.

Lembrar a contracultura dos anos 60, segundo Maciel, pode ser mais do que mero saudosismo: pode nos ajudar a tomada de consciência de uma decadência que parece inevitável, mas que não é historicamente necessária. É sempre possível retomar os caminhos da liberdade. Não se trata de repetir a aventura de então, pois cada momento é único. Trata-se de, finalmente tomar conhecimento de suas lições e reinventar novas formas de existência.

Luiz Carlos Maciel - Breve cronologia

Luiz Carlos Ferreira Maciel, nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a 15 de março de 1938. Aos 17 anos, ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, onde se tornou Bacharel em Filosofia (1958).

Ainda em Porto Alegre, fez teatro amador em vários grupos, tais como: Teatro Universitário, Clube de Teatro, Teatro de Equipe. Participou como ator de espetáculos com as peças: Nossa Cidade, de Thonrton Wilder, Seis Personagens a Procura de um Autor, de Pirandello, A Margem da Vida, de Tennesse Williams – entre outras.

Dirigiu também as peças Os Cegos, de Michel de Ghelderode, e Esperando Godot, de Samuel Beckett.

Em 1959, ganhou uma bolsa para a Escola de Teatro da Universidade da Bahia, então dirigida por Martim Gonçalves. Em Salvador, conheceu Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro, Caetano Veloso, e outros grandes artistas da Bahia e do Brasil ainda em sua juventude. Com Glauber, fez seu primeiro papel como ator principal de seu curta-metragem inédito A Cruz na Praça.

Em 1960, ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller para o Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde estudou direção teatral e playwriting durante dezoito meses.

Voltou a Salvador em 1961, como professor da Escola de Teatro. Nesse período, dirigiu as peças: A História do Zoológico e A Morte de Bessie Smith, de Edward Albee, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, Major Bárbara, de Bernard Shaw, e Leonce e Lena, de Georg Buchner.

Publicou, pelo Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul, seu primeiro livro, um ensaio sobre Samuel Beckett e a Solidão Humana.

Em 1964, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde deu aulas de teatro no Conservatório Dramático Nacional. Trabalhou como redator nas redações da revista Fatos & Fotos e no Caderno B do Jornal do Brasil.

Em 1966-67, junto com Waldemar Lima, fez o roteiro e a direção do filme de longa-metragem Society em Baby Doll, baseado na peça de Henrique Pongetti, com atores importantes como Nathalia Timberg, Ioná Magalhães, Sergio Britto, Ítalo Rossi e Marieta Severo.

Ainda em 1967, fundou o grupo Teatro de Repertório, com Tite de Lemos e Paulo Afonso Grisolli, e dirigiu a peça O Labirinto, de Arrabal, no Teatro de Arena da Guanabara. Ainda naquele ano, a editora José Álvaro publicou o livro que fez sobre Sartre, intitulado: Sartre, Vida e Obra. Escreveu ainda o roteiro do filme O Homem que comprou o mundo, de Eduardo Coutinho.

Em 1968, dirigiu espetáculos de teatro com as peças Barrela, de Plínio Marcos, e As Relações Naturais, de Qorpo Santo. Em 1969, dirigiu o espetáculo O Jovem Homem Feio, que reunia dois textos - a peça de Edward Albee, A História do Zoológico, traduzida por ele, e o poema de Allen Ginsberg, Uivo. No mesmo ano, passou a ser colunista do segundo caderno do jornal Última Hora - sua coluna chamava-se Vanguarda. No segundo semestre, foi um dos fundadores do semanário O Pasquim, onde editava duas páginas dedicadas ao Underground - atividade que lhe valeu o apelido de guru da contracultura.

Em 1970, foi preso juntamente com a maior parte da equipe do Pasquim, pelas autoridades militares da época e passou dois meses na Vila Militar vendo o sol nascer quadrado.

Em 1971, editou o semanário contracultural A Flor do Mal, colaborou no Jornal de Amenidades de Tarso de Castro e, finalmente, tornou-se, em 1972, editor da edição brasileira do semanário Rolling Stone.

Em 1973, publicou mais um livro - Nova Consciência -, pela editora Eldorado.

Em 1975, dirigiu um recital de poesia portuguesa com o ator Walmor Chagas - Os Portugueses. É nesse ano, também, que começa a trabalhar na TV Globo, onde ficou cerca de vinte anos. Exerceu as funções de roteirista de documentários (Globo Repórter), redator de programas de variedades (Saudade não tem idade, Bibi 78), roteirista de programas musicais (Grandes Nomes, Chico e Caetano), roteirista de teledramaturgia (O Copo de Cristal, Futura Madrasta), membro de grupos de criação de programas (Ciranda, Cirandinha), e analista e orientador de roteiros (Casa de Criação, Teletema, CGP) entre outras funções.

Em 1979, colaborou no semanário Enfim; em 1980, na revista Careta e, finalmente, em 1985, no jornal O Nacional - todos editados por Tarso de Castro.

Em 1981, lançou seu novo livro Negócio Seguinte: (coletânea de artigos escritos para o Pasquim e para outros jornais e revistas alternativas) e, em 1982, adaptou Requiem Para uma Negra (Requiem for a nun), de William Faulkner, para o teatro e dirigiu o espetáculo.

Em 1984, dirigiu o show musical Baby Gal, com a cantora Gal Costa, no Canecão (Rio de Janeiro) e no Palace (São Paulo). No ano seguinte dirigiu o show Buraco Negro, de Erasmo Carlos, nas mesmas salas de espetáculos. E também, a peça de Millôr Fernandes, Flávia, Cabeça Tronco e Membros, no Teatro Ginástico.

Em 1987, publicou mais um livro, Anos 60, editora L&PM, e se tornou professor, principalmente de cursos de roteiro que começou a dar em muitos lugares: Centro Cultural Cândido Mendes, Fundição Progresso, Tempo Glauber, Estação das Letras, Centro de Artes de Laranjeiras, etc. Deu ainda cursos rápidos de roteiro nas cidades de Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza.

Em 1991, tornou a trabalhar em teatro, dirigindo a peça de Leilah Assumpção, Boca Molhada de Paixão Calada, apresentada em São Paulo e no Rio de Janeiro. No ano seguinte, dirigiu o espetáculo Brida, uma adaptação teatral do livro de Paulo Coelho, feita por Tiago Santiago, no Teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro.

Em 1994, recolheu, com Angela Chaves, as memórias de Ronaldo Bôscoli no livro Eles e Eu, editado pela Nova Fronteira. Dirigiu um recital de Paulo Autran e Tônia Carrero, Dueto, apresentado no Teatro São Pedro, em Porto Alegre. E dirigiu também o show Joanna Canta Lupiscínio, que foi apresentado em Porto Alegre e em várias cidades do interior do Rio Grande do Sul.

Em 1995, dirigiu o espetáculo com uma seleção de peças curtas de Érico Veríssimo, Fantoches, apresentado em Porto Alegre e no Teatro de Arena do Rio de Janeiro.

Em 1996, dirigiu a única peça teatral escrita por Glauber Rocha - Jango, uma Tragédya - no Teatro Carlos Gomes, do Rio de Janeiro. E publicou, pela editora Nova Fronteira, no Rio de Janeiro, o livro Geração em Transe, Memórias do Tempo do Tropicalismo.

Em 1997, começou a trabalhar com Lucélia Santos, fazendo o primeiro roteiro de edição e o texto de seus documentários para TV, China hoje - o ponto de mutação, e começando a trabalhar com o roteirista chinês Zhou Zhentien no roteiro de uma mini-série de ficção, O Amor do Outro Lado da Terra, numa co-produção de Lucélia com a TV de Sichuan, da China, um projeto que reúne artistas brasileiros e chineses.

Em 1998, seu roteiro para um filme de longa metragem Dolores, ganhou um prêmio do Ministério da Cultura. Além disso, no mesmo ano, escreveu um livro de memórias de Dorinha Duval, Em Busca da Luz, feito com Maria Luiza Ocampo.

Em 2001, lançou seu livro As Quatro Estações pela Editora Record, onde conta sua trajetória pessoal e intelectual que o levou ao underground.

Em 2003, Maciel lança O poder do clímax pela Editora Record,que aborda desde uma pequena história do pensamento dramatúrgico iniciado por Aristóteles na Grécia Antiga até a análise de teóricos modernos, como Syd Field, Joseph Campbell e Christopher Vogler, não esquecendo o período clássico, quando John Howard Lawson pontificou como intelectual da esquerda americana nos difíceis anos da perseguição macarthista. O livro fornece diretrizes teóricas e práticas para a construção de um roteiro de cinema e televisão a partir de uma idéia simples – a história deve acontecer em função de um ápice dramático, o clímax.

Atualmente, continua escrevendo crônicas, artigos, roteiros para TV e cinema e dirigindo peças teatrais. É também comumente convidado a participar de muitos eventos acadêmicos, devido a sua intensa contribuição para o cenário cultural brasileiro, principalmente, quando o tema em voga é a década de 60 e a contracultura.


Patrícia Marcondes de Barros, paulistana, graduada em História, especialista em História Social (Universidade Estadual de Londrina-UEL), Mestre em História Política (Universidade Estadual Paulista-UNESP) e Doutoranda em História Política (UNESP).

Autora dos livros: Panis et Circenses: A idéia de nacionalidade no Movimento Tropicalista (Editora UEL, 2000) e A Contracultura na América do Sol: Luiz Carlos Maciel e a coluna Underground (Ed. Annablume, no prelo).