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Julho de 2008

Na companhia do bruxo
Uma visão pessoal da mostra Machado de Assis: “mas este capítulo não é sério”, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa

por Wilson Natal

Como este capítulo do Machado não é sério, reservo-me o direito às interpretações.

Antes, falo do espaço ocupado pela exposição: Não há divisões concretas. Apenas os títulos dos capítulos escritos no chão e iluminados. Ao entrar, o monitor oferece-nos um livreto de 40 páginas. Nele está toda a exposição. Um roteiro ótimo, mas que, devido a pouca iluminação fica difícil de ler. Mesmo assim, tudo é compreensível quando se conhece a vida de Machado.

No grande painel, sentado, o imponente Machado me diz: “Entra! Não faça cerimônia que a casa é tua”.

Entro na sala do piano. Ali, o piano aberto, a partitura sobre o apoio acusa uso recente. Sobre ele, fotos de família, de compositores célebres. A sala é simples, envelhecida pelos poucos móveis da última metade do século XIX. Nas paredes, cobertas por um papel vermelho acetinado, quadros a óleo.

Um pigarro desvia a minha atenção da sala. Olho para o Machado e ele não é mais o mesmo. É agora um velho de 69 anos marcado pela dolorosa viuvez e com a saúde em declínio. “É preciso que eu te mostre a minha vida. Venha, caminhemos um pouco”. Como dizer não a esse “homem célebre” que tão bem me recebe? A alguns passos, entramos no Rio Antigo. Lá a massa humana, as negras,os mercadores e tipos populares circulavam pelas vias; o Livramento, o Morro do Castelo e ruas e mais ruas repletas de gente. Ali mesmo, mostrou-me velhos escritos e documentos dos tempos de “antes”, quando não era ninguém... E falou-me de poesias, de Carolina. Ao meu redor, a moda, os chapéus. Além, a Rua do Ouvidor com seus tesouros...

“Continuemos, meu caro” - disse-me o Machado. Repentinamente, vejo-me dentro de um cômodo. Não era o seu gabinete de trabalho lá no Ministério, nem o seu gabinete, onde ele, sobre o papel, dava a vida aos personagens. Era mais que isso: era o seu quarto de lembranças e memória. No cômodo diluído na penumbra, apenas um toucador com espelhos de três faces e uma poltrona. O Machado cutucou-me e disse: “Olha o espelho central”. Olhei e o espelho mostrou-me figuras de mulheres diáfanas e Carolina; mulheres da vida do Machado e Carolina. Pensei com meus botões: “O Machado a mostrar-me os seus pecadilhos? Como pode?” O meu bom-senso chamou-me à razão, acuando esse meu lado que amiúde adora “comadrar”. O bom-senso sussurra em meu ouvido que as figuras femininas são as mulheres Machadianas (noto, então, os olhos de Capitu) e que é sempre Carolina a imagem predominante do espelho. O Machado me diz: “Venha, quero que vejas isso”. Caminhando, olho ao redor daquela sala e percebo velhas fotos nas paredes e nichos onde estão velhos papéis e documentos amarelecidos.

Passamos pelo tabuleiro de xadrez onde as peças estavam dispostas denotando que um movimento havia sido feito pelo jogador e à espera de que o outro desse a seqüência. Mais um passo e entramos no mundo das publicações. Lá estávamos, eu e o Machado, em meio aos imensos rolos de papel, provas de ilustrações, acabamentos de arte; amontoados junto às paredes, uma infinidade de páginas impressas, embaladas e prontas para a encadernação. E a rotativa, com seus barulhos, parecia funcionar ad aeternum.

Afastamo-nos para a sala d’O Espelho, um lugar com menos ruído, e Machado falou-me acerca dos folhetins, das críticas e da edição dos seus livros. Falou sobre o Alencar. Negaceou, desconversou e não falou sobre a fama e nem sobre o seu preço.

Machado pegou meu braço e sussurrou-me ao pé do ouvido: “Entremos no corredor à direita. Vamos à sala escura, ‘curiosar’ sobre o que dirão de mim no futuro”. Entramos na sala escura. Lá, uma tela igual às dos Cinematógrafos, exibia figuras que pareciam vir de um futuro distante. E pasmem! As figuras eram falantes! Recomposto do deslumbramento, prestei atenção ao que diziam essas figuras. Eram depoimentos de críticos, de populares; pessoas, que me pareceram, importantes daquele tempo futuro, liam com paixão trechos da obra do Machado. Senti tanto orgulho, como se fora eu o Machado. Virei-me para ele e disse: “Vê. Nada dizes sobre a tua fama. Mas, muitos falarão dela. Deixa de ser modesto, meu amigo!”

O Machado sorriu um sorriso meio escondido e disse-me: “Agora que sabes tudo de mim, deves partir. Segue o corredor, rumo à saída. Cuida para não tropeçar. O corredor está atulhado de relíquias. Esta é uma casa velha...” Pareceu-me tão pálido o Machado. Talvez estivesse cansado. Andei pelo corredor, esbarrado em móveis, velhos painéis; retratos, folhetins, documentos e impressos. Pensei que uma casa tão grande deveria ter um porão ou um sótão. Abri a porta e vi-me no Largo - largo que, com certeza, um dia, será o do Machado.

No largo, muita gente lendo o Machado e comentando! Bati com a mão na testa - na verdade, bati na testa com o livro que estava na mão. Tão entretido estive com a conversa do Machado, que esqueci de pedir-lhe uma dedicatória. Lá estava eu com o meu Contos Fluminenses sem a dedicatória...

Nada mais a fazer, senão voltar para a minha casa. Ao sair do Largo, tive a nítida impressão de ver o Machado. Não o Machado que acabara de deixar. Mas um Machado transparente, quase a desaparecer, acenando-me um até logo, ou um adeus...

Não sei explicar o porquê, mas este ano de 1908 pareceu-me tão sem-graça... Tão absurdo...

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Machado de Assis: “mas este capítulo não é sério”
De 15 de julho a 26 de outubro
Museu da Língua Portuguesa – Praça da Luz, s/nº. Tel.: (11) 3326-0775
De terça a domingo, R$ 4; aos sábados, entrada gratuita

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Wilson Natal é historiador graduado pela PUC-SP. É apaixonado por São Paulo e mantém um fotolog no qual podem ser vistos prédios e monumentos históricos da cidade.
 
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