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Abril de 2004

Os 90 anos do Corvo

BRASÍLIA - Polêmico. Este é o adjetivo mais utilizado e que geralmente acompanha o nome de Carlos Lacerda. E talvez a expressão Não se fazem mais políticos como ele seja a mais usada quando o assunto é o primeiro governador da Guanabara. Eloqüente, sagaz, intempestivo, passional, dono de uma oratória admirável, Lacerda foi o último dos grandes nomes da política brasileira capaz de inflamar paixões através de um discurso. O nariz aquilino, os olhos vivos e a voz que assustava os adversários – para ficarmos nas explicações mais leves – lhe valeram o apelido de “o Corvo”, dado por seus desafetos.

Nascido no dia 30 de abril de 1914, no Rio de Janeiro, Carlos Frederico Werneck de Lacerda estaria completando 90 anos se estivesse vivo. Jornalista, escritor, empresário e político – foi vereador, deputado federal, governador e candidato à Presidência da República –, além de ser um importante personagem durante três décadas de História brasileira, Lacerda ainda registrou o período com brios de colecionador.

O acervo de Lacerda foi doado à Universidade de Brasília – UnB em 1979 como parte do processo de compra de sua biblioteca, dois anos após a sua morte. São aproximadamente 60 mil itens que durante 20 anos ficaram guardados em caixas e foram utilizados apenas por pesquisadores que sabiam de sua existência. Somente a partir de dezembro de 1999, tendo como patrocinadora a Fundação 18 de Março – Fundamar, o material veio a público e se transformou no Arquivo Carlos Lacerda, que fica na Divisão de Coleções Especiais da Biblioteca Central da Universidade de Brasília.

Liliane Dutra, 19, estudante de Arquivologia e estagiária da Biblioteca Central, explica que todo o material é acessível ao público: 159.240 folhas de documentos textuais, 4.426 fotos, 266 slides, 86 discos de vinil e duas fitas de áudio. Os documentos que nós temos aqui não existem nem no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. São documentos que ele guardou quando era governador, referentes à administração dele. Perguntada se o público mais jovem sabe quem foi Carlos Lacerda, Liliane é categórica: Não. Quando comecei a trabalhar aqui, eu também não conhecia. Eu conhecia Júlio Tavares, que é um dos pseudônimos que ele usou. As maiores referências são políticas. Quando fazemos visitas orientadas, falamos que ele foi governador da Guanabara, que foi candidato a presidente e esteve envolvido na morte de Getúlio. Aí as pessoas se interessam em saber mais.

Para marcar a passagem dos 90 anos de nascimento do jornalista, o Arquivo organizou uma exposição que mostra fotos, livros, textos originais, recortes de jornais, curiosidades, cartas e homenagens recebidas por Lacerda.

Ele era muito cuidadoso, guardava tudo, conta Nora Magnólia, Chefe da Divisão de Coleções Especiais, estudar Lacerda é estudar Brasil, completa. Sobre a mostra dos 90 anos, ela diz que a maioria do material desta exposição nunca foi mostrado.

Manuscritos, diplomas e objetos de campanha são alguns dos atrativos. Livros inteiros de assinaturas de admiradores com homenagens que mostram a popularidade de Lacerda também estão lá. No futuro poderão contar como lenda: Era uma vez um homem bom que se impôs aos seus contemporâneos pela intransigência na defesa dos princípios de Liberdade, Trabalho e Honradez, eleito primeiro Governador da Guanabara, trabalhou pela cidade tornando-a o símbolo da Cidade Maravilhosa. Mas este homem existe. É você Carlos Lacerda, que passará para a posteridade como Paladino da Democracia no Brasil, está escrito na primeira página de um livro de homenagens.

Lacerda passou os últimos nove anos de sua vida com seus direitos políticos cassados pelo regime que ajudou a criar com o golpe de 64 e do qual viria a se tornar um dos principais opositores, formando a Frente Ampla com Juscelino Kubitschek e João Goulart. A exposição na UnB é uma oportunidade de conhecer um pouco a vida pessoal, política e intelectual do homem que também ficou conhecido como o demolidor de presidentes.

SERVIÇO:
Exposição - Comemoração dos 90 anos de Carlos Lacerda
Setor de Obras Raras – Biblioteca Central da UnB – Brasília – DF
Até 17 de maio de 2004 – Segunda à sexta, das 8 às 18h
Entrada franca

LINKS RELACIONADOS

O Cruzeiro - matérias e artigos sobre Carlos Lacerda nas edições de 1964
Arquivo Carlos Lacerda – BCE/UnB
Fundação 18 de Março – Fundamar

Pronunciamentos Históricos – Senado – Áudio da autodefesa de Lacerda

LIVROS DE E SOBRE CARLOS LACERDA

A casa do meu avô - Carlos Lacerda
Xanam - Histórias antigas e novas
O cão negro - Carlos Lacerda
Discursos parlamentares - Carlos Lacerda

Editados em 2003 pela Fundamar e UnB
3 Peças inéditas de Carlos Lacerda
21 Contos inéditos de Carlos Lacerda

Biografia e/ou ensaios
Carlos Lacerda: a vida de um lutador - John W. F. Dulles
Carlos Lacerda dez anos depois - Claudio Lacerda

Carlos Lacerda - Biografia Resumida

- 1914: Filho de Maurício Paiva de Lacerda e Olga Werneck de Lacerda, nasce a 30 de abril, no Rio de Janeiro.
- 1929: Inicia carreira no jornalismo escrevendo artigos para o Diário de Notícias, colaborando na página de educação de Cecília Meireles, por quem viria a ter eterna admiração e profunda amizade.
- 1932: Ingressa na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro.
- 1934: Aproxima-se da Federação da Juventude Comunista, órgão do PCB. Participa da comissão organizadora do I Congresso da Juventude do Brasil e combate a Ação Integralista Brasileira (AIB).
- 1935: Abandona o curso de Direito. Participa do grupo articulador da Aliança Nacional Libertadora.
- 1937: É preso pela polícia do Estado Novo.
- 1938: Passa a dedicar-se ao jornalismo. Escreve para as revistas Observador Econômico e Financeiro, Diretrizes e Seiva e no O Jornal. Casa-se com Letícia Abruzzini.
- 1939: Rompe com as teses comunistas publicando artigo na revista Observador Econômico e Financeiro. É acusado de ser traidor do Partido Comunista.
- 1945: Filia-se à UDN – União Democrática Nacional.
- 1947: É eleito vereador no Distrito Federal pela UDN, renunciando ao mandato no mesmo ano.
- 1949: Funda o jornal A Tribuna da Imprensa, que se tornaria o veículo de comunicação de maior oposição a Getúlio Vargas.
- 1950: É eleito membro do Conselho Diretor da Associação Interamericana de Imprensa.
- 1953: Funda o Clube da Lanterna, com o objetivo de combater Getúlio Vargas.
- 1954: Adere à coligação partidária de oposição à Vargas; sofre atentado na Rua Toneleros; é eleito Deputado Federal pela Aliança Popular com a maior votação do Distrito Federal; é um dos líderes da conspiração que tenta impedir a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart.
- 1955: Fixa-se em Norwalk (EUA), onde atua como correspondente da A Tribuna da Imprensa, O Globo e O Estado de S. Paulo.
- 1956: Depois de um tempo em Lisboa, volta ao Brasil e reassume, em novembro, o mandato de deputado federal.
- 1957: Retorna com força total à cena política ao ler um telegrama secreto que fazia referência a uma negociação de madeira entre João Goulart e peronistas. É eleito líder da UDN. Publica O caminho da liberdade.
- 1959: É eleito líder da minoria, representada pelo bloco UDN e PL na Câmara Federal.
- 1960: É empossado primeiro governador do Estado da Guanabara. A UDN elege ainda Jânio Quadros como presidente do país.
- 1961: Cria a Universidade do Estado da Guanabara. Vende A Tribuna da Imprensa por dificuldades financeiras.
- 1962: É acusado por seus adversários de Governador Mata-Mendigos.
- 1963: Uma Comissão Parlamentar de Inquérito é aberta para apurar as acusações da oposição. Lacerda se recusa a depor e os oposicionistas pedem seu impeachment. A solicitação foi arquivada por falta de bases concretas para a acusação. Publica O poder das idéias.
- 1964: Apóia o golpe, acreditando que a permanência dos militares no poder seria breve e que as eleições do ano seguinte estariam asseguradas. Lidera, em São Paulo, a Marcha da Família com Deus para a Liberdade, com o objetivo de estimular o sentimento anticomunista. Lança sua candidatura, pela UDN, à Presidência da República.
- 1965: Começa a articular o Partido da Renovação Democrática e publica Brasil entre a verdade e a mentira.
- 1966: Assina, juntamente com Juscelino Kubitschek e João Goulart, um manifesto de lançamento da Frente Ampla.
- 1967: O regime militar proíbe sua presença na televisão.
- 1968: É preso e tem seus direitos políticos suspensos por dez anos. A Frente é proibida de atuar.
- 1969: Cansado e desgastado com a ditadura militar, dedica-se ao jornalismo. Torna-se correspondente dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde na Europa e na África.
- 1971: Publica O cão negro.
- 1975: Publica Em vez.
- 1977: Publica Xanam e Outras Histórias e A Casa do Meu Avô: pensamento, palavras e obras. Falece em 21 de maio, no Rio de Janeiro. Postumamente são publicados Depoimento (1978), resultado de 34 horas de gravações de uma longa entrevista concedida ao Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo em três finais de semana entre março e abril do ano anterior, e Discursos Parlamentares (1982).

Fonte: Inventário do Fundo Carlos Lacerda - Brasília, 2000