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Agosto de 2006

Jal, o amigo dos artistas gráficos
Cartunista, presidente da associação da categoria e um dos criadores do
Troféu HQMix, ele ainda traz de volta o imortal Amigo da Onça

Aos 15 anos de idade, José Alberto Lovetro, o Jal, já sabia que iria trabalhar com desenho. Começou a fazer uma espécie de fanzine na escola e até criou personagens. Aliás, na Escola Estadual Padre Manuel da Nóbrega, onde ele estudava, despontaram vários desenhistas ao mesmo tempo. Em outras salas de aula, na mesma época surgiram Angeli, Petchó, Luscar e Toninho Mendes.

O currículo de Jal é extenso. Começou a publicar na Folha de São Paulo, em 1973, um personagem de quadrinhos chamado Zélio, o Repórter (sem saber que esse nome era o mesmo do irmão do Ziraldo). Depois publicou na Editora Abril (revista Crás), TV Tupi (fazia os desenhos de apresentação do programa Os Trapalhões e efeitos especiais), jornal The Brazilians da comunidade brasileira em NY, revista Visão, revista Arigatô da comunidade japonesa, chargista do jornal DCI - Diário Comércio e Indústria, SBT, TV Manchete, O Pasquim, TV Cultura (Programa Catavento), Editora Ebal (revistas Klik e Gripho), Editora Press (Monga), TV Bandeirantes (Programa Ferreira Neto), TV Gazeta/SP (TV MIX com Serginho Groisman), Rádio USP (Rádio Pirada), Rádio Tupi (Programa Artigo Primeiro), TV Globo (vinhetas em animação), O Estado de São Paulo (chargista), revista Semanário (coluna de humor), Veja (vinhetas), Penthouse, Sexy e ainda foi professor de quadrinhos na ECA-USP.

Ganhou vários salões de humor no Brasil e foi um dos 15 melhores cartunistas no concurso do jornal Asahi Shimbum (12 milhões de exemplares/dia) em 1981. Ganhou o Troféu Vladimir Herzog de Direitos Humanos pelo trabalho de charge e a produção do boneco de Teotônio vilela na Campanha Diretas-Já, em 1984. Escreveu o livro Como votar certo (2000) com Jorge Sá de Miranda. Atualmente, mantém uma empresa de comunicação com Gualberto Costa. Com ele, escreveu o livro A história do futebol no Brasil através da Charge (2005) e criou o Troféu HQMIX, tido como o Oscar dos quadrinhos e que chegou a sua 18ª edição este ano. É presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil - ACB, fundador da Associação Mercosul de Humor e outros acordos internacionais. Publica na revista Sem Fronteiras (circulação na Holanda e Bélgica) e mantém um Fotoblog.

Na conversa a seguir, ele fala sobre o Troféu HQMix, sobre a ACB e sobre O Amigo da Onça, personagem criado por Péricles Maranhão e publicado na revista O Cruzeiro a partir da década de 1940. Hoje, Jal tem os direitos de publicar novas histórias do famoso personagem.

Como surgiu o Troféu HQMix?
O Troféu HQMIX foi criado dentro do programa TV MIX, na TV Gazeta de São Paulo, com apresentação de Serginho Groisman e Astrid Fontenelle, em 1986/87. Tínhamos uma coluna sobre quadrinhos e humor gráfico ao vivo e achamos que deveria haver um troféu com o perfil dos grandes troféus internacionais. A idéia era mostrar e valorizar a produção de quadrinhos e humor gráfico no Brasil como forma de divulgação dessa área. Funcionou. Hoje estamos em seu 18º ano e somos internacionalmente reconhecidos como o maior troféu da América Latina na área. Will Eisner, Millazo e Neil Gaiman já vieram pessoalmente receber seu troféu. A importância do HQMIX vai além de apenas uma premiação dos melhores lançamentos do ano feita pelos profissionais dos quadrinhos e humor gráfico. Reúne editoras e desenhistas de onde saem novas publicações e serve de parâmetro de mercado para as editoras. Teses premiadas conseguiram ser publicadas, produções independentes conseguiram ser editadas profissionalmente e desenhistas que ganharam como revelação são hoje sucesso no mercado. Agora entra em nova fase, na qual vai promover discussões de mercado editorial e mercado de trabalho. São mais de mil profissionais que votam em todo o Brasil com auditoria do Dr. Edwin Ferreira Britto do Tribunal de Ética da OAB. Hoje, o HQMIX é responsabilidade da Associação dos Cartunistas do Brasil e Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil.

Fale sobre o trabalho da Associação dos Cartunistas do Brasil - ACB.
A ACB foi criada junto com o troféu HQMIX. Precisávamos de uma representatividade nacional e procuramos organizar em cada estado do Brasil um foco de artistas com liderança na área. Com isso pudemos discutir alguns assuntos nacionalmente como tabela de preços básicos, regulamentação da profissão de desenhistas, leis de defesa de mercado, direitos autorais entre outros. É a primeira associação de classe nacional que consegue passar dos quatro anos de existência. É administrada por voluntariado pois os desenhistas, principalmente os que estão entrando no mercado de trabalho, não tem condições de arcar com mensalidades. Mesmo na precariedade conseguimos grandes vitórias. Atualmente nos juntamos com outras associações como a Sociedade dos Ilustradores do Brasil - SIB, Associação Brasileira dos Webdesigners - Abraweb, Associação dos Designers do Brasil - ADG e Associação dos Desenhistas de Animação, para organizarmos a Câmara Setorial de Política Cultural de Artes Visuais e que será o fórum de discussão com representatividade na esfera federal de cultura.

E o IMAG?
O IMAG é uma batalha de anos do Gualberto Costa e finalmente está se realizando. Parece incrível, mas o Brasil não tinha até agora nenhum museu de artes gráficas de quadrinhos e humor gráfico. Uma piada diante de países menores como Uruguai que já possuem até mais de um museu. Os originais de nossos artistas estavam perdidos entre diversas entidades ou vendidos em pacotes por famílias de artistas já falecidos. O IMAG pediu uma doação para iniciar o processo e conseguiu dez mil originais de diversos desenhistas do país. Esses originais estão acondicionados no prédio do Arquivo do Estado de São Paulo com a tecnologia de preservação mais atual. Agora é batalhar por um local próprio para as exposições, cursos e seminários.

Em relação ao Amigo da Onça, quando você adquiriu os direitos de criar novas aventuras?
Quando foi lançado o livro do Onça pela Editora Busca Vida em 1989, a viúva de Péricles, Dona Angélica, veio a São Paulo com alguns originais para uma pequena exposição numa livraria. Fui correndo para ver os originais do personagem que me encantou a infância. Lá conversei com Dona Angélica para que o personagem voltasse em novas piadas já que há mais de vinte anos só haviam republicações. Ela pediu que eu enviasse algumas piadas para ela avaliar. Assim, assinei contrato e já publiquei em revistas e jornais pelo Brasil. Atualmente estamos fazendo piloto em animação para televisão.

Qual é a importância do personagem para a história do desenho e do humor no Brasil?
Considero o Onça como o maior personagem de humor na história da imprensa brasileira. É ao mesmo tempo a essência de nossa autocrítica sobre a honestidade e um pedaço de cada um de nós no pior que podemos ser. Por isso a identificação e o grande sucesso em uma época em que a revista O Cruzeiro era a TV Globo do momento. Se hoje sou desenhista é porque meu pai colecionava as páginas do Onça. Pode ver que os Fradinhos de Henfil são o espírito do Onça com mais pimenta e Os Escrotinhos do Angeli são o Onça nos tipinhos das ruas. Péricles criou um top.

E como o Amigo da Onça funcionaria hoje?
A proposta da volta do Onça é justamente para mostrar o quanto o Brasil tem erros cíclicos por conta das pessoas que querem levar vantagem em tudo. Nada melhor que discutirmos nossos erros através da acidez do humor. É tão verdade isso que em 1994 tivemos uma coluna do Onça na Tribuna de Campinas como se ele fosse candidato nas eleições. Os políticos pediram censura da coluna alegando que os analfabetos iriam se influenciar pela coluna que denegria a classe política. Só não explicaram como um analfabeto leria a coluna...

Para saber mais
Fotolog Jal Cartoon - jalcartoon.nafoto.net
Troféu HQMix - www.hqmix.com.br
Amigo da Onça - O Cruzeiro On line



As várias fases do Amigo da Onça

Nos primeiros anos, na década de 1940
Em 1961, um ano antes da morte de Péricles
   
Em 1964, depois da morte de Péricles,
pelaEquipe de O Cruzeiro
Em 1972, por Fritz Granado, último a desenhar
O Amigo da Onça em O Cruzeiro
 
Tiras de O Amigo da Onça por Jal

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