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Abril de 2004

O Cruzeiro e o surgimento de Brasília

BRASÍLIA - Hertz Wendel de Camargo, 30 anos, é publicitário e sempre tem dificuldade para responder uma pergunta que, para a maioria das pessoas, é muito simples: Onde você mora? Professor universitário em Cascavel (Paraná), mestrando em Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte pela Unicamp (Campinas, São Paulo), editor da revista Diversa (www.revistadiversa.com.br), em Santa Bárbara (São Paulo), ele mora mais nas estradas entre essas cidades do que propriamente nelas. Além de tudo isso, ele ainda encontra tempo para ser pai de Calvin, um garoto com nome de pestinha americano e carinha de japonês. E onde aconteceu a entrevista? Em Brasília, quando fazia pesquisa de campo e buscava exemplares da revista O Cruzeiro para sua tese de Mestrado.

Fale um pouco sobre sua pesquisa com O Cruzeiro.
Surgiu do projeto de mestrado da Unicamp, da Faculdade de Educação. Participo de um grupo de pesquisa que é o OLHO (Laboratório de Estudos Audiovisuais da Faculdade de Educação da Unicamp) que possui uma pesquisa interessante e profunda sobre a relação imagem e homem contemporâneo. Em O Cruzeiro, estudo as imagens da cidade e da natureza, e como essas imagens performam e constroem o conhecimento do homem urbano contemporâneo. Estudo, mais especificamente, como a revista participou da idéia de crescimento/progresso do meio urbano em termos de cultura, linguagem e arte, enfim, conhecimento através da relação entre imagem, suporte e leitor. A primeira parte da pesquisa foi o recolhimento de exemplares de O Cruzeiro, na Biblioteca do Senado e no Memorial JK, em Brasília.

Então a viagem à Brasília rendeu algo?
Sim, foi bom conhecer um pouco o universo político brasileiro e sua relação com O Cruzeiro, descobrir como são coisas completamente diferentes ao vivo e no papel.

De que forma O Cruzeiro abordou a construção da cidade?
Ela fazia o seu papel, como um grande painel publicitário, ela ajudou na construção da idéia do crescimento da cidade, na idéia de que a cidade é como um organismo, vivo, que cresce, se desenvolve, vive. Porém, evidentemente, não era a única personagem dessa educação política. O progresso, o futuro, sempre performaram o clima da pólis, principalmente na década de 30. São interessantes as maneiras que a revista utilizava para fazer com que o leitor (da cidade ou do interior) estivesse participando ativamente do progresso urbano, a seção de cartas que os leitores perguntavam sobre os mais variados assuntos, a seção foto-teste, as reportagens comemorativas sobre os 10 mandamentos dos namorados, sobre a família, etc. São ações da revista que davam a ilusão no leitor de participar do crescimento do organismo-cidade. Aí é que reside a natureza.

Outras revistas - como Manchete, por exemplo - entrarão nesse trabalho?
Apenas como fonte de consulta, para verificar o que outros meios/veículos abordavam.

Você pretende entrevistar pessoas que acompanharam a construção da cidade?
Possivelmente. Mas da construção cultural, epistemológica, intelectual.

Você poderia falar algo sobre o método de pesquisa e o que tem aprendido com ela?
Descobertas as imagens, é feito um estudo paralelo, através de leituras, buscando analisar também imagens cinematográficas, documentais, estudos de linguagem que se relacionem com a arte. Tudo isso através de uma perspectiva da Educação porque a arte é uma forma diferente do conhecimento acadêmico, é uma outra forma de conhecer, de ter uma outra visão de mundo. Percebo que a natureza como a vemos e conhecemos, não existe. Que natureza e cidade são irmãs siamesas, filhas da mesma mãe: a cultura. Sentimos a cidade como um imenso organismo, como um ser vivo, que possui ciclos de vida diferentes durante o dia e durante a noite, que o trânsito flui como o sangue que alimenta o corpo, a poluição como doença dos pulmões, a cidade que adoece, a cidade que tem movimentos, sons, que pode se transformar em cidade-fantasma (subentendendo-se que possui vida/alma), onde somos caçados pela violência, ambiente de conflitos, obsessões, desejos, fantasias, tensões... ambiente onde competimos pelo alimento (dinheiro), no qual caçamos e cortejamos parceiros sexuais, enfim, a cidade que cresce, que nasce, que morre, que tem braços abertos, que se fecha, que pune seus filhos rebeldes. E qual foi a única cidade que vimos nascer? Brasília. Aliás, muito bem retratada por O Cruzeiro. Bem, daí cheguei à idéia da construção do nada, ou seja, como O Cruzeiro trabalhou a idéia de que não havia nada antes da construção de Brasília? Já que havia cerrado, índios, animais... Futuramente, no doutorado, isso será transformado em um documentário.

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