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Fevereiro de 2008

A imprensa underground nos anos de chumbo
O desabrochar da Flor do Mal

por Patrícia Marcondes de Barros

“O mal da Flor é ser um jornal, por isso existe sua mistificação, assumindo e queimando no próprio fogo que apaga a última pala travada nos dentes da máquina, que bate, bate e está presente sem natal, pois todo dia é natal, e nem todo dia tem panela na sopa. Quem diria que o pato é macho? Se tem barata embaixo do tapete? É mato, batalhões na dispensa, milhares nas bocas de lobo, centenas nas varandas tomando sol de lombra, procurando uma psidelinha. Ainda assim voam pra cascalho. Mas voltando ao assunto anterior, alguém bate na porta, eu não quis abrir e me distraí novamente no barato da barata que está aqui mentalmente, enormemente, fatalmente, despudoradamente anunciando a flor do mal. Chega de falar mal da Flor mas era indispensável no esclarecimento do assunto proposto cordialmente pela casualidade do personagem tão mal compreendido pelo vulgo verdadeiro, o diabo.
(André Luiz - A Flor do Mal in Flor do Mal, número 3, p 5, 1971)

O jornal intitulado Flor do Mal foi criado em 1971, por Luiz Carlos Maciel, Rogério Duarte e pelos poetas Tite de Lemos e Torquato Mendonça. Seu “desabrochar” se deu em plena asfixia imposta pela ditadura militar, principalmente com seu recrudescimento em 1968, com o Ato Institucional de número 5.

Nesse momento de cerceamento de liberdade, a imprensa alternativa se constituiu em forma de resistência; sejam os alternativos de cunho político, ligados aos esquerdistas ortodoxos ou daqueles, genericamente rotulados de contraculturais. Este último foi caracterizado pela efemeridade e, portanto, grande parte de sua produção permaneceu no anonimato ou foi divulgada em círculos restritos se relacionando com uma forma dissidente de discurso contestador à ditadura, chamado por muitos de “desbunde”, com conotação provocativa para os conservadores tanto da direita militar como também os da esquerda ortodoxa. A ampliação do conceito de política, estendendo-a ao corpo e a crítica às instituições perpassavam as questões da materialidade, da luta de classes, preconizada pelo discurso militante. Essa “nova visão” era associada à alienação e a uma versão “enlatada” do movimento hippie norte-americano, pautada no individualismo e no subjetivismo.

Editada pelo Pasquim Empresa Jornalística SA, teve como editor responsável Sérgio Cabral, que cumpria então uma promessa feita quando de sua prisão pelo regime militar, junto a Luiz Carlos Maciel, em 1971. No calor da hora, frente ao sentimento de solidariedade entre presos, Maciel solicitou a Cabral, apoio ao desenvolvimento de um projeto de cunho especificamente marginal, diferente do que desenvolvia no Pasquim com a coluna Underground, que tinha um caráter informativo dos movimentos contraculturais no mundo. Segundo Maciel, O Pasquim era um alternativo, porém de caráter tradicional, feito por jornalistas, e ao contrário, ansiava por experimentar - verbo inerente a contracultura - fazendo um projeto de jornal de caráter totalmente poético e fora dos padrões estabelecidos.

O principal objetivo era dar voz aos artistas jovens, de vanguarda, contraculturais, “malucos” que não eram aceitos em nenhum órgão de imprensa. Quem escrevia na Flor eram os próprios Tite de Lemos, Torquato Mendonça, Rogério Duarte e Luiz Carlos Maciel, assim como pessoas que eles conheciam, “antenadas” com as idéias contraculturais, entre eles: Antônio Bivar, Joel Macedo, Waly Salomão, José Simão, Antônio Capinam, Célia Maria e amigos da clínica psiquiátrica que Rogério tinha conhecido quando de sua internação.

Não havia projeto gráfico definido e a proposta do produtor de arte, Rogério Duarte, era a de que os textos deveriam ser escritos à mão, e então que deveria contar com uma equipe de calígrafos, como os da Idade Média.

A fotografia, que ilustra o primeiro número, foi encontrada por Torquato Neto no chão da redação do jornal Última Hora, pisoteada. Era a foto de uma menina negra sorrindo, despida do peito para cima, representando a pureza espiritual a que ansiavam. Esta iniciativa durou apenas cinco números com a tiragem de 40 mil exemplares, dos quais vendia-se a metade.

As matérias que compunham o impresso abordavam arte, cultura e comportamento, relacionadas a “nova visão”: antipsiquiatria, sexualidade, orientalismo, teatro, drogas, astrologia, entre outros temas pouco abordados pela imprensa oficial.

O público-alvo da revista, segundo Maciel, era “uma meia dúzia” de gatos pingados, geralmente chamados de “loucos”, “hippies”, “desbundados”, entre outros estereótipos de quem não era apenas contra, mas também que não queriam participar do estabelecido, ansiando inventar seu próprio meio de expressão.

Da Flor do Mal, outras iniciativas nasceram, resultando em diversas matrizes contraculturais, tendo como eixo comum a luta pela produção e difusão autônoma da informação, não se enquadrando nos esquemas oficiais, comerciais e institucionais. A luta ideológica se dava através da linguagem, da experimentalidade que se estendia na poesia, nas artes plásticas, na música, no comportamento e, conseqüentemente, em novas formas de ser, sentir e pensar de uma geração.

Patrícia Marcondes de Barros, Doutora em História Cultural (UNESP)e autora do livro "Panis et Circenses": a idéia de nacionalidade no Movimento Tropicalista (Editora UEL, 2000)