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Janeiro de 2004

Café com traças
Parte do acervo do presidente Café Filho está jogada
em um armário no Museu que leva seu nome

Texto e fotos: Sandro Fortunato
Matéria originalmente publicada na edição de 15 de janeiro de 2004 no Jornal do Brasil

NATAL - Formávamos juntos um acervo de trastes, valíamos tanto como as bagagens trazidas lá de baixo e as mercadorias a que nos misturávamos. A frase do alagoano Graciliano Ramos em seu livro Memórias do cárcere é perfeita para definir a situação de parte do patrimônio político e cultural deixado por outro nordestino famoso, Café Filho, vice de Getúlio Vargas, que assumiu a presidência da República com o suicídio deste.

Mais de mil fotos, álbuns com recortes de jornais sobre viagens oficiais ao exterior e documentos variados estão esquecidos em um armário no Museu Casa Café Filho, em Natal, Rio Grande do Norte, onde nasceu o presidente. Pior que isso. Nada está catalogado, tombado e qualquer pessoa que visite o local pode levar uma lembrança dessas para casa.

O descaso não acaba por aí. Objetos e documentos pessoais recebem diretamente a luz do sol há anos. Os expositores de vidro ficam próximos a janelas que passam o dia inteiro abertas recebendo o escaldante sol de Natal.

O Museu Casa de Café Filho está instalado no Sobradinho ou Véu de noiva, na Cidade Alta, bairro que concentra a maior parte das casas culturais e de preservação de memória de Natal. A construção é do início do século IXX e, dentre outras, abrigou as atividades do Sindicato dos Trabalhadores, criado por Café Filho e onde ele iniciou sua militância política. Adquirido pelo Governo do Estado em 1960, foi tombado e restaurado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Desde 12 de março de 1979 é sede do Museu Casa de Café Filho, integrante do Patrimônio do Estado do Rio Grande do Norte, subordinado à Fundação José Augusto, braço cultural do Governo do Estado.

É importante dizer que a atual direção da Fundação José Augusto é, hoje, responsável por este abandono mas não foi a causadora disso – a situação existe há anos. O atual presidente da Fundação, François Silvestre de Alencar, admite que há precariedades que precisam ser corrigidas, não só na manutenção mas também na exposição do acervo, além de dar uma forma de divulgação melhor para que os museus sejam mais visitados. Em relação ao Museu Café Filho, ele diz que está em bom estado, tem um acervo fotográfico razoavelmente bom, mas que eu não considero completo, pois há muito mais coisas a serem feitas por lá e adianta que a Fundação José Augusto está elaborando um inventário museológico do Rio Grande do Norte – algo que nunca foi feito –, um levantamento de tudo que há nos museus, não só do Café Filho, mas no de Arte Sacra, no acervo do Solar João Galvão, da Biblioteca Câmara Cascudo e também do Forte dos Reis Magos.

Dácio Galvão, Diretor do Centro de Documentação Cultural da Fundação José Augusto, responsável direto pelos museus do Estado, esclarece que a estrutura técnica é limitada e defasada. Eu assumi o cargo há um ano e, neste período, não pude fazer muita coisa. A dinâmica imposta ao setor estava muito limitada já que a parte administrativa não estava estruturada. Evidente que eu não olho para trás para justificar a precariedade que atualmente se encontra. Sobre a facilidade de acesso ao acervo e o perigo de que qualquer pessoa possa levar algo, Dácio diz que tem consciência de que não só corre o risco como o de que o próprio armazenamento é impróprio. Um acervo fotográfico tem que ser muito bem armazenado. Mas nossa área técnica é muito precária. A idéia é cuidar do acervo e mostrando na medida em que for necessária, conclui.

No site da Fundação José Augusto encontra-se a informação de que o museu tem um acervo documental e iconográfico sobre o presidente Café Filho, incluindo aspectos biográficos e informações sobre a vida política, com registro de fotos de suas viagens e de suas campanhas. Mas não diz que quase tudo isso está jogado e se deteriorando dentro de um armário. Informa ainda que “o museu dispõe, também, da biblioteca particular do presidente e de parte do mobiliário de sua residência, vinda do Rio de Janeiro”. Mas esquece de dizer que a biblioteca com quase mil volumes não serve para nada, pois não pode ser consultada, e que o mobiliário, além da ação natural do tempo e do sol, vem sofrendo depredações.

Comissão pode dar apoio para preservação
ou cuidar do acervo de Café Filho

BRASÍLIA - A Lei Federal n° 8.934, de 30 de dezembro de 1991, dispõe sobre a preservação, organização e proteção dos acervos documentais privados dos presidentes da República. O historiador Claudio Soares Rocha, titular da Diretoria de Documentação Histórica do Presidente da República, que funciona no Palácio do Planalto, explica o que pode ser feito no caso de acervos de ex-presidentes e quem é responsável por sua preservação.

Quais são as atribuições da Diretoria de Documentação Histórica?
A Diretoria de Documentação Histórica tem três frentes de trabalho: trata da correspondência privada do presidente, do acervo privado do presidente da República até o final do mandato e, através da Comissão de Memória dos Presidentes da República, dinamiza a preservação da memória e dos acervos dos ex-presidentes.

Quando foi criada a Comissão?
A Comissão de Memória foi criada em 1988. Esteve desativada até 2000. Foi reativada de 2000 a 2002. E agora está parada porque não tivemos recursos nos últimos anos.

Em um caso desses, no qual um acervo não está sendo preservado, o que pode ser feito?
A primeira coisa é chamar a atenção do Arquivo Nacional para isso. Eu devo colocar o assunto em pauta amanhã. O Arquivo Nacional pode dar orientação técnica, administrativa e também orientar como levantar recursos financeiros, via Lei Rouanet, para apoiar qualquer projeto que essa instituição tenha. E ainda, a Comissão de Memória, se instalada, pode propor recolhimento do acervo a uma instituição séria, com credenciais para isso ou pode ainda fomentar a orientação da preservação no local onde se encontra. No caso do acervo de Café Filho, que está numa instituição do Governo do Rio Grande do Norte, ele (o governo) deve ser responsável pela preservação disso, se quiser permanecer com esse acervo lá. Se precisar de ajuda técnica, a Comissão pode proporcionar isso.

Na prática, como seria isso?
Técnicos de Arquivística podem ser deslocados do Arquivo Nacional para lá, técnicos de Museografia do Museu da República ou do IPHAN – a própria superintendência do IPHAN no Rio Grande do Norte pode dar apoio museográfico –, a Biblioteca Nacional pode apoiar na parte de acervo bibliográfico. Sem muitos custos, sem muitos problemas.

E o acervo poderia ser recolhido à outra instituição?
Pode ser recolhido se o Governo do Estado não tiver interesse na guarda do acervo.

Uma vida, cinco enfartes, dois volumes de memórias

João, filho de João Fernandes Campos Café e Florência Amélia Campos Café, nasceu no dia 3 de fevereiro de 1899, às três e meia da manhã, na casa de número 22 na antiga Rua do Triunfo (atual Quinze de Novembro), na Ribeira, bairro portuário que viu Natal ser formada. A casa chegou ao seu centenário, em 1999, como um prostíbulo de quinta categoria. Foi registrado no dia 9 do mesmo mês apenas com o nome de João. Somente em 1936, já com 37 anos, em petição ao juiz da Segunda Vara, Dr. Régulo da Fonseca Tinoco, adotou o nome do pai, suprimindo no entanto o Fernandes Campos.

Jornalista, foi editor e diretor de jornais. Organizou a primeira greve e o primeiro sindicato do Rio Grande do Norte. Como deputado federal (em 1934 e 1945), foi um parlamentar atuante e formou chapa com Getúlio Vargas, sendo eleito vice-presidente. Com o suicídio de Getúlio, em agosto de 1954, assumiu a presidência, permanecendo no cargo por um ano e dois meses até ser afastado por um movimento liderado pelo general Teixeira Lott.

Apesar dos cinco enfartes que teve, Café demonstrou relativa calma durante toda sua vida pública, inclusive durante o tempo em que esteve na presidência. Em seu livro Do Sindicato ao Catete - Memórias Políticas e Confissões Humanas, escrito em 1965 e publicado no ano seguinte, ele conta que “os anos iniciais da minha vida não foram marcados por nenhum acontecimento digno de registro”. Ao que parece, o tempo que passou como presidente também está sendo julgado, por outros, da mesma forma.

João Café Filho morreu no Rio de Janeiro, em 20 de fevereiro de 1970.