Clique para retornar à página principal


Janeiro de 2004

Do sequestro que quase aconteceu, só ficaram as lembranças

NATAL - No dia 15 de janeiro, passados dois meses e meio da tentativa de roubo, a estátua de bronze de Câmara Cascudo foi devolvida ao seu local de origem, em frente ao memorial que leva o nome do folclorista, em Natal, Rio Grande do Norte.

Na madrugada do dia 1° de novembro de 2003, a estátua, que tem cerca de 120 quilos, foi arrancada de sua base por vândalos que não conseguiram levá-la. O barulho chamou a atenção do vigilante do Memorial Câmara Cascudo e os ladrões fugiram.

Desde então, a estátua estava guardada nas dependências do Memorial aguardando um posicionamento da Fundação José Augusto, responsável pela manutenção do prédio e da biblioteca de Cascudo. neste período, a imprensa local noticiou e cobrou uma solução para o caso. Um artigo do editor do MEMÓRIA VIVA, Sandro Fortunato, teve grande destaque no Diário de Natal, com foto aberta em primeira página. Foi publicado na data dos 105 anos de nascimento de Cascudo (30 de dezembro de 2003) e cobrava providências em relação ao retorno da estátua ao seu local de origem (veja boxe abaixo).

Leia também:
O colecionador de crepúsculos.
Em entrevista exclusiva, neta fala dos planos para o acervo.

Para saber mais, visite o site Memória Viva de Câmara Cascudo.

Por onde anda Cascudo?

Natal é uma cidade que guarda surpresas. Voltar aqui, de tempos em tempos, é certeza de encontrar mudanças, de percebê-las mais do que quem convive com elas. Cada vez mais prédios aparecem, os empreendimentos ficam maiores, surgem novas perspectivas... A cidade apresenta seu desenvolvimento. Lento, desordenado, mas ainda assim um desenvolvimento.

Outras coisas não mudam. O céu sempre muito azul, o vento amenizando o calor do sol sempre presente, a gentileza das pessoas, o jeito de cidade pequena. As polêmicas nas questões culturais também não mudam. O corporativismo provinciano que não aceita o profissionalismo, os investimentos que não aparecem, as idéias que não saem do papel, as reestruturações necessárias que nunca são feitas.

Mas quero concentrar a atenção em um fato que, há menos de dois meses, foi manchete de todos os jornais locais, que causou indignação, que nos atingiu em nosso orgulho intelectual, turístico e mesmo familiar, como se tivessem invadido nossa casa e atentado contra um parente próximo: a tentativa de roubo da estátua de Câmara Cascudo.

Ato frustrado. Os cerca de 120 quilos vieram ao chão e alertaram o vigia. Cascudo, merecendo este nome mais do que nunca, saiu sem um arranhão em sua carapaça de bronze. Porém não voltou mais ao seu lugar. Está solitário, amedrontado, escondido dentro do Memorial que leva seu nome, longe do povo de que tanto estudou os costumes.

A pergunta é simples: por que a estátua ainda não foi devolvida ao restante do monumento? Eu mesmo vi turistas perguntando o que significava aquela mão aberta. Minha vontade foi de explicar que ela – a mão – esmolava a atenção dos responsáveis pelo patrimônio público. Estendia-se num gesto humilde, pedindo “uma ajudinha pelo amor de Deus” para a personalidade mais conhecida da História do Rio Grande do Norte.

Até onde eu saiba, o acervo do Memorial pertence à família Cascudo, mas sua conservação, pelo menos a dos livros, é de responsabilidade da Fundação José Augusto, braço cultural do Governo do Estado. Aliás, conservação que ficou só no intento, em um acordo assinado há quase década e meia. Quem vem fazendo a conservação e restauração dos livros é a família com recursos próprios. Esta alternativa poderia aplicar-se à estátua, já que o genro do quase-seqüestrado é engenheiro civil, responsável por belos prédios erguidos na cidade e que devolveria Cascudo à mão do povo sem grande esforço. Mas, particularmente, em seu lugar, eu não faria isso. Se roubam – e para isto basta querer –, vão dizer, injustamente, que a culpa foi dele, que não fez o serviço direito. E não vai ter quem tire tal mácula de carreira tão brilhante.

A estátua é um patrimônio público. Está em praça pública. É responsabilidade da administração pública. Prefeitura? Governo? Secretarias de Patrimônio, de Cultura, de Turismo... Tem – ou deveria ter – gente de sobra responsável e interessada em devolver a estátua ao seu local. Será que pretendem fazer o mesmo que fizeram com a Coluna Capitolina, que ficou anos e anos jogada no Baldo e depois foi colocada em praça fechada junto ao Instituto Histórico e Geográfico? A perspectiva de ver, daqui a sabe-se lá quantos anos, Cascudo enjaulado em frente ao Memorial parece-me assustadora.

Enquanto se decide – ou nem se discute – quem deve efetuar a difícil tarefa de devolver a estátua ao seu lugar, Cascudo passa a data de seu aniversário de 105 anos – hoje, 30 de dezembro –, a olhar aquela mão gigante, vazia, de pedinte, sem pires e sem esmola, esperando que ele volte. Até lá, estudantes, pesquisadores e turistas não verão o monumento ao mais conhecido intelectual do Estado. E se quiserem vê-lo, terão que visitá-lo nos horários em que o Memorial estiver aberto. Às segundas ou depois das 17 horas, como diria o Mestre, terão que baixar em outro terreiro.

Sandro Fortunato é jornalista e editor do site Memória Viva
Artigo originalmente publicado na edição de 30 de dezembro de 2003 no Diário de Natal