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Glauber Rocha e o Ser Tãos da Linguagem

por Acir Dias

O jovem que partiu de Vitória da Conquista (BA) e teve sua militância crítica também em Salvador, e hoje é uma síntese da ruptura com os padrões formais da obra cinematográfica. Inicialmente colaborou com o Diário de Noticias na Bahia, e depois com o suplemento dominical do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro. O tempo mostrou que o Cinema Novo de Glauber tenta traduzir uma arte revolucionária com especulação filosófica e mágica. Podemos afirmar que é um dos cineastas que melhor traduziu o movimento do novo realismo francês e italiano. Em O Cangaceiro – misticismo e liberdade de criação – das imagens da película brotam novas coisas além daquilo que realmente é mostrado. A câmera, personagens, luz e som trazem uma necessidade proeminente do improviso, atos tão corriqueiros presentes no processo de inventar a linguagem e despertar as imagens adormecidas em nosso pensamento. Assim Glauber transformou o cinema nacional com seu grande sonho e suas idéias transgressoras e contestadoras. Atualmente é objeto de inúmeros estudos e quase todos que o citam, não conseguem fazê-lo sem utilizar adjetivos inúmeros. Controverso, delirante, intelectual, subversivo, libertário, explosivo, criativo, improvisador e tantos os outros adjetivos de mérito, admiração, reconhecimento. Suas idéias e sonhos de um cinema popular, de um cinema a serviço da revolução cultural, feito pelo e para o povo, que conseguisse unir o continente americano e também o africano, em torno de um objetivo comum e único é um exemplo de atualidade em tempos de dominação cultural e globalização às avessas.

O cinema em Glauber tem o papel de construtor da realidade e de manipulador da História, pois queria encontrar no cinema o caminho para a revolução. Acreditava que o intelectual deveria se desmistificar e encontrar na prática a tão sonhada utopia. O cineasta seria uma espécie de intelectual orgânico tão defendido por Antonio Gramsci em Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Sempre empenhado em suas pesquisas sobre a linguagem cinematográfica, tentava escarafunchar no imaginário popular o suporte para a transformação. Divagar sobre Glauber é excitante. Livros, ensaios, artigos, textos, sinopses e filmes desenham o roteiro de um mito que não é mito, mas é Brasil na incompletude dos cacos da cultura e da história. Deus e o diabo – busca do mundo mágico em meio aos instrumentos do pensamento, sem porteiras para a imaginação, o bem e o mal do Sertão. O cinema glauberano reinterpreta imagens de uma tradição para tentar instaurar novos significados, ou seja, coloca o espectador em contato com novas e velhas temporalidades. Na verdade, no jogo das imagens e sons, há transformação e transfiguração das imagens culturais mitológicas oficializadas pelo ocidente católico num arsenal de mitos pagãos misturados a alegorias do mundo cristão. A título de exemplo dessa idéia, podemos ver o desfecho dramático de O Santo Guerreiro Contra o Dragão da Maldade, talvez por ter consciência que o cinema em si é um espetáculo cristão, cuja expressão maior está na redenção dos personagens e na valoração política e econômica, potencializado em cada cena, em cada lançamento da indústria cultural.

Na obra de Glauber, a fronteira entre passado e presente se rompe, não como um continuum de tempos que se repetem mecanicamente como na atualidade das imagens do cinema e da televisão, mas como uma fronteira a ser explorada, escavada, significada e traduzida na contigüidade de entre-tempos, entre imagens, entre uma cultura e outra. E também expressa nossa necessidade de viver e não, nostalgicamente, apenas lembrar. O filme, a imagem e a criação se constroem nos interstícios entre culturas e expressões plásticas, visuais e sonoras manuseadas pelo artista ou outrem. O cineasta se propôs a criar filmes com a câmera na mão e uma idéia na cabeça na base da improvisação, como fez em Câncer, isso despertou a ira dos puristas, mas o que fica para nós é seu espírito de pesquisa com intensas alusões históricas e sua forte crença nos princípios políticos, éticos e estéticos que são determinantes da projeção cinematográfica.

Glauber Rocha, ao filmar Deus e o Diabo na Terra do Sol, incorpora também elementos da tradição literária, especificamente de Guimarães Rosa e sua obra-prima Grande Sertão: Veredas. Percebemos que o filme não alude diretamente, pois se trata de outra linguagem. Neste sentido, o filme é o encontro das linguagens, pois se interpenetram, se lambuzam, se carnavalizam simplesmente para traduzir as facetas do homem visual, ou seja, nenhum sistema de signos é priorizado, a não ser a imagem, o som, a personagem, o local. Todos se misturam, se roçam, se implicam – pura prática histórica e social – nem a literatura nem o cinema, nem a música existem enquanto domínios estanques da expressão humana, esse processo de antropofagia também repete-se na história das artes, em múltiplas origens dos personagens, como também na vida e na obra do próprio cineasta, pois é impossível a existência de uma obra pura, sem interferências biográficas, anseios políticos e espirituais. As imagens de Glauber são verdadeiros acervos de experiências passadas e vivências construídas pelas mais diversas vias, revestidos de intencionalidade, ritmos, sonoridade aflorada na doce amarga história dos homens, também brasileiros.

Glauber Rocha - Biografia Resumida

- 1939: Glauber de Andrade Rocha nasceu no dia 14 de março, em Vitória da Conquista, interior da Bahia, primeiro filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e Lúcia Mendes de Andrade Rocha.
- 1946: Alfabetizado pela mãe, entra para a escola, aos sete anos.
- 1947: Acompanha o pai, engenheiro de estradas de rodagem, nas viagens pelo sertão da Bahia.
- 1948: A família muda para Salvador. O pai sofre um acidente que deixa graves seqüelas, a mãe, aos 29 anos, assume a família.
- 1949: Recebe educação religiosa em colégio presbiteriano de Salvador.
- 1952: Participa, como crítico de cinema, do programa de rádio Cinema em Close-Up. Morre de leucemia a irmã Ana Marcelina.
- 1953: Diz que será escritor. Lê Jorge Amado, Érico Veríssimo, clássicos da literatura juvenil, filosofia (Nietzsche e Schopenhauer). Vai ao cinema e lê histórias em quadrinhos.
- 1954: Freqüenta o Clube de Cinema do crítico Walter da Silveira.
- 1955: Dirige no colégio encenações combinando poesia e teatro.
- 1956: Funda a produtora de cinema Yemanjá.
- 1957: Filma O Pátio, primeiro curta-metragem influenciado pelo concretismo.
- 1958: Trabalha como repórter de polícia e passa a escrever sobre cinema e cultura em jornais de Salvador.
- 1959: Viaja para São Paulo e Rio e conhece cineastas, intelectuais e os futuros parceiros do Cinema Novo. Casa-se em Salvador com a atriz de Pátio, Helena Ignez. Filma o curta-metragem inacabado Cruz na Praça.
- 1960: Nasce a primeira filha, Paloma Rocha. Assume a direção de Barravento, primeiro longa-metragem.
- 1961: Separa-se de Helena Ignez
- 1962: Primeira viagem a Europa. Conhece Praga, Roma, Paris, Lisboa. Barravento é premiado em Karlovy Vary.
- 1963: Publica Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. O Cinema Novo ganha visibilidade internacional.
- 1964: Acontece o Golpe Militar durante viagem ao Festival de Cannes para exibir Deus e o Diabo na Terra do Sol, seu filme-revelação.
- 1965: Lança o manifesto A Estética da Fome com as bases estéticas e políticas do Cinema Novo. É preso num protesto contra o regime militar no Rio de Janeiro. Viaja para o Amazonas e filma o curta-metragem Amazonas, Amazonas.
- 1966: Filma o curta Maranhão 66.
- 1967: Realiza o longa-metragem Terra em Transe, apresentado no Festival de Cannes. O filme é proibido no Brasil e se torna o manifesto de uma geração. Escreve os textos: A Revolução é uma Eztetyka; Teoria e Prática do Cinema Latino-Americano; Revolução Cinematográfica e Tricontinental.
- 1968: Fala em sair definitivamente do Brasil.
- 1969: Viagem à Europa para exibir O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro no Festival de Cannes 69 que lhe daria o prêmio de melhor diretor. Viaja para África, para filmar O Leão de 7 Cabeças.
- 1970: Viaja para a Catalunha onde filma Cabezas Cortadas. Volta ao Brasil e passa a escrever para o semanário O Pasquim.
- 1971: Inicia um exílio que duraria 5 anos, viaja pela América Latina, EUA, Europa. Vai para Cuba.
- 1972: Trabalha em Cuba no projeto História do Brasil, um filme de montagem e vive com a jornalista Tereza Sopeña. Monta o filme Câncer, filmado em 68.
- 1973: Vive entre Paris e Roma.
- 1974: Polemiza ao declarar que o general Golbery do Couto e Silva, militar nacionalista, é um dos gênios da raça. Se apaixona pela atriz francesa Juliet Berto e viaja com ela para o Egito. Em Roma, conclui História do Brasil.
- 1975: Em Roma, filma Claro, com Juliet Berto.
- 1976: Viaja para Moscou e visita o acervo do cineasta Sergei Eisenstein. Volta ao Brasil. Filma o velório do pintor Di Cavalcanti, sob protesto da família. O filme está proibido até hoje.
- 1977: Morte trágica da irmã Anecy Rocha, incorpora o fato no romance Riverão Sussuarana. O curta-metragem Di Cavalcanti é premiado no Festival de Cannes.
- 1978: Filma A Idade da Terra em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro.
- 1979: Nasce Ava Patria Yndia Yracema Gaitan Rocha, primeira filha de Glauber e Paula Gaitan, sua última mulher com quem teria mais um filho, Erik Arouak. Escreve para vários jornais, provocando polêmicas e reações. Inicia o programa Abertura, na TV Tupi, em que faz entrevistas com grande repercussão e inventa uma linguagem própria.
- 1980:
Morte do pai. Participa do Festival de Veneza com Idade da Terra. O filme, um dos mais radicais como linguagem, gera polêmicas em Veneza e é mal recebido no Brasil.
- 1981: Viaja para Paris e depois Portugal. Se define como sebastianista e apocalíptico. Vive em Sintra - um belo lugar pra morrer - quando adoece de uma pericardite viral. Volta ao Brasil em estado grave. Morre no dia 22 de agosto e é velado no Parque Lage, cenário de Terra em Transe, em meio a grande comoção e exaltação.

Filmografia

1957 - Pátio (curta-metragem)
1959 - Cruz na Praça (curta)
1960-1961 - Barravento
1963 - Deus e o Diabo na Terra do Sol
1965 - Amazona, Amazonas (curta)
1966 - Terra em Transe
1966 - Maranhão 66
1968-1972 - Câncer
1968 - O Dragão da Maldade Contra o Santo Gurreiro
1969 - O Leão de 7 Cabeças (Der Leone Have Sept Cabeças)
1970 - Cabeças Cortadas
1972-1974 - História do Brasil
1974 - As Armas e o Povo
1975 - Claro
1976 - Di Cavalcanti (curta)
1978-1980 - Idade da Terra