O MALHO

É de praxe que um jornal que se apresenta desfile perante o leitor boquiaberto um rosario de promessas a que se chama pomposamente – o programma. Iconoclasta de nascença, o Malho começa por atacar e destruir a praxe: não tem programma. Ou, mais exactamente, tem todos, como o seu nome bem o indica: elle é o Malho; tudo que passar a seu alcance será a bigorna. O povo rirá ao ver como se bate o ferro nesta officina e só com isso ficaremos satisfeitos, com a tranquilla consciencia de quem cumpre um alto dever social e concorre efficazmente para o melhoramento e progresso da raça humana. Já o grande ratão que era Rabelais annunciou gravemente esta inestimavel verdade: que rire est le propre d l’homme. Pondo em contribuição todos os elementos necessarios ao desenvolvimento do riso, ainda que se riam uns á custa dos outros e nós á custa de todos, temos prestado ao homem em geral e aos que habitam esta canto do planeta, em particular, tão relevante serviço, que não haveria remedio sinão crear o governo uma medalha de merito para nos galardoar, já que a esta Republica, que também não é a que sonhámos, quando mammavamos, tev ea infeliz idéa de abolir o habito de Christo, ficando totalmente desarmada para testemunhar a gratidão da patria pelos filhos que assim abnegadamente a sabem servir. Em materia de abnegação, porém, não ha ninguem que nos exceda e, jà que nos mettemos nisso, iremos até o fim: faremos esta salutar reforma de costumes e numa quadra em que todos choram pitangas, estalaremos o riso são, o riso honesto, o riso proprio do homem, sem reclamarmos siquer do Sr. Campos Salles que se sujeite a apanhar mais tres duzias de descomposturas por cumprir o o seu elementar dever de conecorar nos! Cremos que quem assim falla, merece só por isso a mais completa confiança do publico. Tambem si elle não nol-a conceder desde logo, é que é difícil. Em torno delle, só ha quem lhe falle de coisas tristes; o financeiro apregoa que o paiz está de novo a beira d’aquelle nosso conhecidissimo abysmo: o padeiro declara-lhe que não lhe fia nem mais uma semana; o jornalista apregoa que só diz a verdade, que é uma senhora tão rabujenta e miseravel que, apezar de velha, só anda nua, como si tivesse ainda alguma cousa que mostrar; o senhorio ameaça-o com o mandado de despejo; o deputado denuncia-lhe que este e aquelle comeram, cousa que só a elle denunciante - pobrezito! ainda não aconteceu; e até a Santa Casa da Misericordia reclama este mundo e o outro para dar-lhe sepultura decente. Gra, no meio desse côro funebre de tristezas e lamentações, sôa acantante o bimbalhar do Malho, tirando dessas bigornas sons alegres! É um cartaz de cores vivas no meio de uma decoração de pompa funebre; é a nota vibrante de uma cançoneta bregeira a interromper um requiescat de gatos pingados; é o verde da esperança a reflorir os espiritos abatidos e desolados; é o vermelho da blague a dissipar a melancolia geral; é um zé-pereira formidavel entrando audacioso e impiamente pela solemnidade de uma semana santa; é a audacia, é a alegria, é a satyra, é a crítica, é a mocidade mordaz e irreverente, é a saude, com a breca! É disso que os senhores estão precisando, podem crêl-o! É só disso que o paiz precisa, palavra d’onra! Não é de dinheiro que os senhores têm necessidade: l’argent ne fait pas le bonheur! Não é de um homem que a salve da borda do abysmo que a Nação carece: Deus não manda mais juizes á terra! Todo esse mal estar, individual e collectivo, que todos e cada um sentem - e por sobre modo se aggrava na rua do Ouvidor, por causa do calçamento Santa Engracia - só tem uma cousa: - a falta do Malho! Pois ahi está esta maravilhosa panacéa, superior em politica á queima do papel-moeda, em litteratura ao Tiradentes do Sr. José Agostinho, em rethorica aos discursos do Sr. Fausto Cardoso, em arte ao cavallo do General Osório! Os senhores nunca imaginarão o que nos custou de sacrificios de todo o genero, de noites mal dormidas e de jantares mal digeridos esta gloriosa concepção! Mas que querem? – o patriotismo é isso mesmo: - ahi lhe damos esta maravilha por... uns miseraveis duzentos réis.

 

Credencial

Abram alas! passa o Malho!
Chapeau bas! Viva o pimpolho!
E é tratar de abrir o olho,
Porque elle vem de chanfalho.

Vai ser da terra o espantalho;
Vai ser o tremendo escolho
De muito quidam zarolho,
De muito dandy grisalho.

Da pujança almeja o brilho
Por ser da verdade o espelho,
Fazendo embora barulho.

Começa agora o sarilho;
Muito respeito ao fedelho,
Sinão vai tudo de embrulho!

Lingua de Mel

 
 
“Salva me, meu amigo! lembra-te que só por ti vim a esta terra! Não consintas que me alvitem.
- Nada temas! Agora tenho forças para defender-te, pois possuo O MALHO.”
 
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O Malho on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva

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