Normalização
Teotônio Vilela analisa o
Caminho da Distensão

A distensão vem atingindo os objetivos desejados. Mesmo quando lhe negam a existência a validade ou a finalidade, a paternidade ou a naturalidade . A constatação importante é que entrou em circulação, torna-se um projeto político amplo e real. O tempo nem sempre lava as mãos, como Pilatos, há momentos em que toma partido, comanda os fatos. Nesse sentido é que o Eclesiastes informa que há tempo para tudo. E tudo indica que é tempo de distensão. Proposta pelo Presidente da República, discutida pelo Congresso, divulgada e comentada pela imprensa, pelo rádio e pela televisão analisada pelo que há de mais notório em saber jurídico , debatida em conferências, palestras nas Assembléias Legislativas, nos simpósios e cursos de tomação e orientação política conversada nos gabinetes, nos escritórios, nas esquinas, nos lares – a distensão ganha âmbito público e consistência política. Os freios e contrafreios, as marchas e contramarchas se fazem necessária à sinuosidade da marcha. Quando uma proposição enfrenta as circunstancialidades a que está sujeita e aos poucos ganha curso próprio no tempo e no espaço, ampliando cada vez mais a força de sua determinação, não há dúvida de que a idéia calou na opinião pública. E quando essa opinião pública é tomada, na sua maioria, de jovens, a idéia além de ser contemporânea dos dias correntes tem ainda o condão de adentrar-se no futuro.

O que o Presidente propôs é o que o povo quer. Não é muito fácil combinarem-se em hora difícil o pensamento oficial e o pensamento real de uma nação. A sutileza do estadista está em sentir a oportunidade em que o tempo muda de sentido por foca das tendências das gerações. E é sempre desastroso ou pelo menos melancólico quando o homem luta contra o seu tempo e conseqüentemente contra as gerações. A consideração democrática com que se olha a Revolução persiste exatamente nas afirmativas do Presidente quanto ao comprometimento da Revolução com o liberalismo político latente na juventude brasileira. Mas se essa determinação presidencial comprova que o Movimento de 31 de Março de 64 permanece contemporâneo, a dilatação sistemática da transitoriedade implica num esgarçamento crescente das esperanças nas intenções do governo.

O projeto de distensão vem assegurar a disposição política do governo de colocar a promessa num clima real de concretização. Pergunta-se por que tanta dificuldade em coisa que parece tão simples. Acontece que não é simples. O caos deixado pelo governo anterior ao Movimento de 64 e o recrudescimento do totalitarismo de esquerda no mundo atual colocam a área de segurança em justa preocupação com a preservação da ordem. Cumpre ao setor político, diante do apelo presidencial prover a situação de instrumento políticos capazes de compatibilizar a realidade brasileira em toda a sua inteireza com os princípios jurídicos essenciais que definem uma democracia. O aperfeiçoamento democrático de que fala o Presidente Geisel não seria outra coisa senão o caminho que devemos acreditar seja o da plenitude democrática. Ninguém, de bom senso, ignora os óbices que se levantam contra a distensão. Mas o pior de todos é sem dúvida o que parte das fileiras políticas, na suposição de um realismo que é apenas cortesão e que já não irrita – porque antes enfada.

O panorama político que vivemos entretanto, é ágil e vivificante. Tolice seria contar prontamente com a unanimidade. Se unanimidade existisse, desnecessária seria a distensão e anteriormente a ela o apelo à imaginação criadora. Declaração recente de Kissinger nos informa em tom alarmista que o mundo democrático vem se reduzindo. E o pior é que ele não só se reduz como se toma de amargo convencimento de que os indícios o levarão a diminuir ainda mais. E quem assume a liderança dos espaços perdidos? Simplesmente o totalitarismo russo ou chinês. E onde mais facilmente penetra nos dias de hoje o comunismo? Exatamente nos países de regimes totalitários de direita. Se há uma convicção nacional em torno de uma tradicional respeitabilidade aos princípios democráticos, nada mais justo do que lutar por esses princípios. Se há certas dificuldades a vencer até que se restabeleça a legitimidade democrática, nada mais imperioso do que se discutir abertamente e sinceramente os fatores adversos aos interesses nacionais. O impasse, por falta de diálogo, é que é incompreensível e inaceitável.

Se é válido o conceito de que a política se situa no campo da opinião, valia é a distensão que já ganhou as ruas, os gabinetes, os escritórios, os lares. O problema não é mais de espaço, mas de tempo.

 

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