Texto de DINO AMÉRICO AGUIAR e
Fotos de CARLOS NEY e Diário da Noite

São alarmantes os números de acidentes de trânsito em São Paulo, segundo dados do DETRAN paulista. Por que é que tanta gente morre e mata com tanta facilidade? Quais as razões da transfiguração do homem quando assume o volante de um carro? A maioria dos acidentes é causada pela velocidade. Outros, por mau estado do veículo. A solução é dirigir com cuidado, respeitar os sinais, cuidar da mecânica de seus veículos, como cuida de sua própria saúde, e, sobretudo, não acreditar tanto na sorte. Muitos se fiaram na decantada sorte e seus carros estão aí ilustrando nossa reportagem. Acidente de trânsito mata mais que câncer, meningite e coração. Ele pode ser evitado. Pode e deve. Isto depende de todos nós.

Mais de 3 mil pessoas morreram em conseqüência de acidentes de trânsito em São Paulo no ano de 1974. Mais de 28 mil pessoas sofreram ferimentos, entre graves e leves nos 31.639 acidentes registrados. Um triste saldo de 31 mil pessoas, entre mortos e feridos, resultado de uma guerra que o paulistano enfrenta diariamente, guerra esta motivada por três palavrinhas sempre repetidas e nunca acatadas: Negligência, Imperícia e Imprudência.

O paulistano, ao assumir o volante de um automóvel, entra em uma competição muito mais perigosa que qualquer das provas de Fórmula 1 onde o nosso Emerson impera. Nessa competição não são respeitadas quaisquer regras, regulamentos ou sinalizações. Muitos, em função da extrema agitação da vida moderna, não deveriam, sequer, andar a pé, mas de maneira totalmente irresponsável (embora inconsciente) estão dirigindo.

As ruas de São Paulo são o palco desses atores que dirigem como se estivessem representando um papel onde a sua figura fosse a única. Os outros devem, apenas, aplaudir. O motorista, na sua irresponsabilidade, não admite erros: sua rua sempre é preferencial, os outros devem esperar que ele passe e perdoar as possíveis fechadas que dá nos demais, devidamente autorizadas pela setinha que ele ligou.

Todos os motoristas que dirigem em São Paulo são responsáveis pelos alarmantes números apresentados nessa reportagem. Por melhor que ele seja já cometeu uma série enorme de erros no trânsito por absoluta falta de atenção. As campanhas educativas, entretanto, são sempre para os outros. Esse é o maior crime. Ninguém se julga um “barbeiro”. O culpado é sempre o outro.

Os números alarmantes

No ano de 1974 foram licenciados na Capital de São Paulo 978.541 veículos. Desse total 892. 301 são particulares e o saldo dividido entre carga, aluguel, oficial, motocicleta, experiência, ônibus, aprendizagem e reboque. Note-se que são apenas os licenciados na Capital. Quantos não estão rodando com licenciamento de outras cidades?

Foram 82.641 acidentes com e sem vítimas no ano passado, de janeiro a dezembro. Desses, 53.530 apresentaram apenas danos materiais enquanto que 29.111 envolveram vítimas. O mês considerado “forte” nos acidentes foi agosto com um total de 3.685 vítimas. O “fraco” foi fevereiro, com 1.568 vítimas. São, em média, 80,9 acidentes diários com vítimas ou, ainda, 3,4 acidentes com vítimas por hora. Isto quer dizer que a cada hora temos 3,4 acidentes na Capital envolvendo mortos e feridos.

Nos fins de semana os acidentes são em maior número. Nos sábados do ano tivemos 12.581 ocorrências e nos domingos 10.270.

O Serviço de Estatística do DETRAN de São Paulo vai ainda mais além. Divididos em períodos de 6 horas o período 12/18 horas apresenta um saldo de 29.198 acidentes contra 12.657 de 0/6 horas, 15.740 de 6 às 12 e 25.046 de 18 às 24 horas.

As ruas onde se morre mais

As ruas de maior número de acidentes estão divididos por Zonas. Na Zona Centro predomina a Avenida Rangel Pestana com 482 acidentes e 653 vítimas. A Rua da Consolação vem em seguida com 399 acidentes e 459 vítimas. Nove de Julho é a próxima com 382 acidentes e 439 vítimas, Augusta e São João, respectivamente, com 323 acidentes para 389 vítimas e 264 acidentes para 271 vítimas completam o quadro principal da Zona Centro.

Na Zona Norte as 3 principais são Avenida Marginal, Voluntários da Pátria e Ataliba Leonel: 788 acidentes e 1.208 vítimas para a primeira – 762 acidentes e 875 vítimas para segunda e 528 acidentes com 716 vítimas para a terceira.

Zona Sul: Estradas de Campo Limpo e Itapecerica e Avenida Armando Arruda Pereira se destacam: 485 acidentes, 614 vítimas na primeira – 465 acidentes e 591 vítimas as segunda – 455 acidentes e 412 vítimas na terceira.

Zona Leste: Avenida Radial Leste lidera com 1.538 acidentes e 2.023 vítimas, seguida da Estrada Velha São Paulo-Rio com 1.290 acidentes e 1.607 vítimas. Estrada de São Miguel 1.267 acidentes e 1.712 vítimas e Avenida Celso Garcia com 1.264 acidentes e 1.712 vítimas.

Zona Oeste: Avenida Professor Francisco Morato, 699 acidentes e 950 vítimas – Via Anhangüera (parte urbana) , 679 acidentes e 1.098 vítimas e Via Raposo Tavares (parte urbana), 570 acidentes e 848 vítimas. Na Zona Oeste, ainda a Avenida Marginal apresenta números impressionantes: 547 acidentes com 709 vítimas.

Com esse quadro de apenas algumas das vias mais importantes de cada zona de São Paulo já se tem uma idéia de quantos acidentes acontecem por ai com muita gente morrendo sem nenhuma necessidade, vítimas da velocidade principalmente de imperícia e da ignorância dos motoristas (ignorância, aqui vai em substituição a negligência e imprudência).

Essa reportagem poderia ter outro título, plagiando o filme famoso. “Esses homens irresponsáveis e suas máquinas matadoras”. Quais as razões de tanta bestialidade? Por que o homem se transfigura quando deixa de ser o “senhor andante para ser o senhor volante”? Qual a necessidade de tanta irritação, tanta buzina, tanto palavrão como se vê em São Paulo? Um homem irritado, ao volante de um automóvel, de um ônibus, de um caminhão, é um assassino em potencial, não importa se o homicídio seja classificado juridicamente como culposo. Está na hora de uma providência mais séria para se evitarem tantos crimes contra a pessoa como se verificam nos números apavorantes das estatísticas dos acidentes de trânsito. Os motoristas precisam ser responsabilizados mais seriamente, as carteiras de habilitação devem ser apreendidas e em alguns casos os “crimes” necessitam da rotulagem DOLOSO.

 

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