No decurso deste último ano, fiz três entrevistas com Jânio Quadros. A primeira, sobre a queda do salazarismo e seus reflexos políticos nas colônias portuguesas de Além-Mar. Jânio, nesta entrevista, apontou, como primeira conseqüência, o recrutamento – já então insopitável – dos movimentos de libertação das colônias africanas. Em poucos meses, as “profecias” de Jânio Quadros se concretizaram.

A segunda entrevista aconteceu quando da renúncia do ex-Presidente Richard Nixon, forçado pelo escândalo de Watergate. Nessa oportunidade, após analisar em profundidade a queda do presidente americano (segundo ele, Watergate foi apenas pretexto), Jânio previu a queda de Henry Kissinger, falta de credibilidade, com o prestígio lanhado pelas proporções do escândalo, que desmoronou um governo do qual ele fazia parte. Se Kissinger não caiu de fato, caiu politicamente, esvaziado de força diplomática, e até com seu nome envolvido num Watergate-mirim, denunciados por um jornalista israelense, que por pouco não publicou um “livro negro” sobre os segredos das negociações de paz entre o mundo árabe e Israel...

A terceira entrevista com Jânio Quadros foi uma análise das eleições de 15 de novembro de 1974, quando o partido da oposição obteve vitória jamais imaginada, em todo o território nacional. Jânio, então, previu sensíveis modificações nos esquemas políticos vigentes, ou pelo menos uma tendência para tais modificações. Era a previsão do que viria ocorrer nos meses subseqüentes ao pleito: a “distensão”.

Hoje, Jânio Quadros volta às páginas de O CRUZEIRO, não na condição de entrevistado, mas de colaborador permanente. Na quietude de sua residência em Santo Amaro (São Paulo), cercada de jardins e povoada de cadelas recolhidas da rua, o ex-Presidente continua oráculo político. Tanto que, no começo do ano, período de transição governamental no Estado, viu-se forçado a mudar por duas vezes o número do seu telefone particular... O seu primeiro artigo para O CRUZEIRO, que ele intitulou “o modelo”, é uma atilada análise da problemática política nacional. Como estamos falando do “profeta” Jânio Quadros, caberia, aqui, relembrar as palavras do Evangelho: quem tiver ouvidos de ouvir, ouça: quem tiver olhos de ver, veja; e no caso presente, quem tiver a sensibilidade de sentir, sinta os pensamentos e as palavras de um homem que continua profundamente integrado nos problemas políticos brasileiros.

ARLINDO SILVA

O “modelo”

J. QUADROS (Para O CRUZEIRO)

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Un État est indispensable, um État aussi impartial que possible, c’est-à-dire aussi dégagé que possible des intérêts des uns ou des autres; um État qui ne serve que le pays; bref, un État digne de la République

Charles de Gaulle

Nothing is ever settled until it is settled right

R. Kipling

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O convite presidencial à imaginação política poderia ter sido um destro lance de astúcia, tal o vazio em que repercutiu. À parte uns poucos, com ferramentas de arqueólogos ou linguagem de sibilas, as vozes mais fortes marcaram-se pela nudez dos trapistas...

O modelo ainda é, para alguns, a carta yankee, olvidadas as emendas sofridas sob as intempéries, liberal, permissiva, exegética e romântica, muito Revolução Francesa na filosofia, e muito Adam Smith e laissez-faire na ordem econômica.

Outros, do fã-clube da pantera cor-de-rosa, erigem, nos devaneios, construções doutorais hiperbólicas – não entre aqui quem não for geômetra, extravasando a mais cerebrina literatura de ficção.

Resulta dessa genialidade o Estado ideal, subjetivo e espiritualizado, do qual o brasileiro participaria tão à vontade quanto um antropófago de um repasto vegetariano...

O que esses poucos, uns e outros, parecem ignorar, é a tangível e rotunda realidade cabocla e mundial. Neste subcontinente, já a experiência lusa com Tomé de Souza conta-nos da indispensabilidade de um poder Central e forte, sinonímia de um Executivo forte. Não nos é peculiar o fenômeno, embora mais expressivo nas nações que partejam o próprio desenvolvimento. Nestas, os valores sócio-econômicos informam as razões políticas, que se afeiçoam àqueles. O século, que é o da comunicabilidade da espécie, com as aspirações individuais crescentes, o da justiça distributiva e o da segurança comum, impõe decisões rápidas e eficazes, facultada a revisão ou reversão das mesmas, também céleres e válidas. Exacerbam-se, assim, e dilatam-se as prerrogativas e áreas presidenciais e desmaiam as legislativas, pressionadas pela natureza das matérias e premência de que se revistam.

A legislação de exceção vigente no País é lamentável, antes de mais nada, e sobretudo, porque de exceção. Revista e aparada nos excessos que licenciam as violências esporádicas e irresponsáveis, podia e devia incorporar-se à Lei Maior, o que implica no reexame desta, isto é, em sua substituição. Há vários caminhos para fazê-lo, e todos levam à Constituinte, com o reestudo, inclusive, à beira da estrada, do bipartidarismo espúrio e da representação popular numérica e qualitativamente. Desassisado, senão suspeito, é pretender-se a revogação pura e simples dos dispositivos que resguardam a autoridade e a própria paz coletiva, quando, em sã consciência, sabe-se que o Estado contemporâneo não deve, nem pode dispensá-los.

Se, em momentos de perplexidade, não logramos reconhecer o certo, que tal intentar a identificação do errado? Isso se ajusta à fase corrente do Movimento de Março, que eclodiu, sabemo-lo hoje, menos contra indivíduos do que para derrubar um “sistema”, que a falaz estrutura, de então, fomentava.

Não ocorreu para sobrepor um arcabouço esclerosado, vicioso, a outro, e essa é a ameaça do imobilismo presente. Aí estão os dois partidos, verso e reverso da mesma moeda azinhavrada, com idênticas frustrações nos seus homens de bem, apetites, rivalidades personalistas ou tribais, e insensibilidade política, semelhantes.

Que o último pleito não induza a equívocos, vencidos ou vencedores. O povo votou não a favor, mas contra, ao opor-se a governos de Província impostos com os quais não mantinha laços afetivos de intimidade ou associação e cujas faltas, sem embargo de péssima qualidade de alguns, escorriam com freqüência, do pecado mortal da própria origem.

Ao eleitorado não se ofereceram opções. Apenas a alternativa... Mas permaneceu e permanece alheado e alijado contemplando atônito ou apático a mágica partidária decretada de cima para baixo.
Insisto em que, no quadro que nos envolve, já é possível distinguir três ou quatro pensamentos com contexto ideológico democrático definidos nas diretrizes políticas e particularmente na concepção de economia e de sociedade.

Uma singela epidérmica avaliação do panorama internacional, sobrelevando o latino-americano e ibérico, o africano, de nossos problemas domésticos, sócio-econômicos e políticos, exige a conjunção dos esforços da nacionalidade se não quisermos surpresas com perigos, mesmo em áreas na aparência insuspeitas ou em família com distorções danosas ao progresso equânime ao patrimônio comum, à emancipação cientifica e tecnológica e à própria paz interna.

É o que recomenda a imediata edificação jurídica do Brasil moderno, preservado, vigilante, ágil, com o fortalecimento das instituições através do consenso e da participação popular.

Em outras palavras: a efetivação da Revolução, emprestando corpo definitivo ao País. O modelo demora imamente nos espíritos e decorre da realidade conjetural inegável e compulsiva.

E poucos, como o Presidente Geisel, gozam do respeito genérico com os pré-requisitos para a empreitada.

Cumpre que se lhe estendamos as mãos.

 

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