Sílvio Santos esse desconhecido

SÃO PAULO
Texto de ARLINDO SILVA
Fotos de ERASMO DE SOUZA

Esta é uma história que nem o próprio Sílvio Santos conhece. Aconteceu em 1973. Naquele ano, a FAO, órgão das Nações Unidas, estava promovendo um congresso em Madrid, para debater o problema de alimentação no mundo. (FAO é a sigla de Food and Agriculture Organization.) O dr. Mittendorf, diretor desse organismo, é tido como grande figura humana, e, além de preocupar-se com os problemas da alimentação e desenvolvimento da agricultura, preocupa-se com problemas políticos e sociais dos povos subdesenvolvidos. Naquele congresso em Madrid, o dr. Mittendorf pediu, aos delegados brasileiros, que enviassem biografias de médicos e grandes empresários brasileiros – que, tendo partido de zero, transformaram-se em potências no mundo dos negócios e dos empreendimentos. O interesse do dr. Mittendorf era fazer com que as histórias desses homens fossem conhecidas entre as populações subdesenvolvidas do chamado terceiro mundo, muitas das quais têm tumultuada vida política, sob regimes totalitários. O dr. Mittendorf queria mostrar como, nas nações democráticas como o Brasil, a livre-iniciativa e o trabalho sem esmorecimento podem produzir verdadeiros milagres, transformando pessoas humildes, das camadas mais simples da população,em lideres de clãs e ou em grandes empresários. O nome de Sílvio Santos foi, desde logo, posto em foco nessas conversas dos delegados brasileiros como dr. Mittendort, em Madrid. (Aliás, o diretor da FAO, de passagem pelo Brasil, em 1972, já ouvira referências à história espetacular de Sílvio Santos, que tendo começado como camelô no Rio de Janeiro, hoje comanda um império.) Ficou acertado que a vida de Sílvio Santos seria enviada para o dr. Mittendorf, que iria traduzi-la e transformá-la em material para pesquisas escolares, conferências públicas e bibliotecas, nos países pobres da Ásia e África. Por coincidência, naquele ano estava sendo lançado, em São Paulo, o livro A Vida Espetacular de Sílvio Santos, segundo narrativa dele próprio a este repórter. Esse livro também foi remetido, junto a outros relatos, para o diretor da FAO, cuja sede é em Roma. Vale recordar que, no prefácio desse livro, escrevêramos o seguinte: Arrancar de Sílvio Santos a narrativa de sua vida foi um teste de perseverança, até convencê-lo de que sua história constituía um exemplo e um estímulo para os menos favorecidos da sorte. Em outras palavras, aquilo que o dr. Mittendorf queria mostrar aos povos subdesenvolvidos eram as vantagens dos regimes democráticos, onde há oportunidade para todos, em todos os setores das atividades humanas.

Os shows de caridade

Há muitas facetas na personalidade de Sílvio Santos que o público, habituado só a vê-lo na televisão, desconhece. Por exemplo, ele jamais contou – e não gosta que o façam – que destina anualmente cerca de 300 mil cruzeiros para a compra de cadeiras de rodas e pernas mecânicas para paralíticos, além de doações de mantimentos, roupas, agasalhos, etc. a entidades beneficentes. Por exemplo: há algumas semanas, todos os esquemas de produção dos Studios Sílvio Santos, de Vila Guilherme, foram acionados para montar um show no Clube Atlético Paulistano, freqüentado pela nata da sociedade paulista, atendendo a um pedido da sra. Maria Henriqueta Marsiaj Gomes, esposa do ministro Severo Gomes. Objetivo da festa: angariar fundos para a Barraca de S. Paulo na grande festa que todos os anos se realiza em Brasília em benefício da Casa do Candango. Entre os prêmios oferecidos para serem sorteados num bingo, estavam os ofertados pelo próprio Sílvio: geladeira, máquina de lavar, televisões e um Opala 75, cuja ganhadora (sra. Elcy Valfíades) tornou a doá-lo à barraca de S. Paulo para nova promoção. A tenda do show no Paulistano rendeu Cr$ 470.000,00 e as figuras mais expressivas da sociedade paulistana não pouparam elogios ao espírito de solidariedade demonstrado por Sílvio Santos. A colunista Alik Kostakis, tão comedida sempre nos seus comentários a respeito de todos os assuntos, dedicou página inteira de cobertura da festa, para dizer o seu muito obrigado a Sílvio Santos.

O grande espetáculo em Brasília

Logo a seguir, Sílvio era novamente convocado para promover outro show com a mesma finalidade. Desta vez, a pedido da sra. Edwaltriz Pitton Serejo, esposa do governador do Distrito Federal, sr. Elmo Serejo. Caminhões e aviões foram fretados para transportar, de São Paulo a Brasília, material de produção e artistas. Desta vez, a beneficiada era a Barraca de Brasília, ainda em benefício da Casa do Candango. O espetáculo durou 3 horas, com o Ginásio Presidente Médici lotado – cerca de 25 mil pessoas. Para a Barraca do Estado do Rio de Janeiro, Sílvio Santos doou um automóvel, que foi sorteado entre os que participaram da grande festa promovida, no Rio, pela esposa do ministro da Marinha. (E Sílvio só não levou o seu show ao Rio por motivos de força maior.)

Esse é o lado desconhecido de Sílvio Santos. O homem que faz dois programas semanais na TV, um de 9h30min de duração e outro de 4 horas: que tem um programa diário na Rádio Nacional de S. Paulo; que dirige uma holding de 16 empresas, cujo capital é da ordem de 250 milhões de cruzeiros; que tem 4.500 empregados representando 20 mil dependentes – esse homem demonstra que não é apenas o Gênio do Baú, como disse mestre David Nasser, num magistral artigo retratando o animador-empresário. Sílvio Santos dá mostras de que, por trás do homem de negócios, é um homem de bom coração. Quando ele desloca suas equipes de produtores, artistas, técnicos e equipamentos, para realizar shows beneficentes – como fez há pouco – ele sabe quanto isso é importante para uma entidade como a Casa do Candango, criada para proporcionar assistência a velos e crianças de Brasília a cidades-satélites. Atualmente essa entidade assiste a cerca de 3000 pessoas, que são os pais, os irmãos, os filhos daqueles pioneiros que fundaram a deram vida à nova Capital do Brasil.

 

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