Exatamente,
dez anos mais que eu mesmo (pronto, já me entreguei na
bandeja, com casca e tudo), a Revista O Cruzeiro, da
Empresa Gráfica do mesmo nome, por símbolo uma palmeira
e um Cruzeiro do Sul, da cadeia de jornais, revista, rádios
e televisoras dos Diários Associados de Assis Chateaubriand,
estaria celebrando seus 75 anos de vida neste 10 de novembro.
Dois dias antes, por uma iniciativa de emotiva concepção
e objetiva finalidade – a de homenagear um grande e belo
fantasma do jornalismo brasileiro e a de preservar-lhe o brilho
para sempre no site www.memoriaviva.com.br
- estará sendo lançada uma edição
especial, no dia 8, com textos e depoimentos sobre a Revista,
que faço questão de grafar com R maiúsculo.
Elo de identidade nacional, com uma tiragem semanal gigantesca
para o seu tempo (mais de 700 mil exemplares), a Revista O
Cruzeiro foi o que é hoje a Rede Globo de Televisão,
em termos de alcance e importância.
Sandro
Fortunato, o idealista desse sonho duplo – o
da homenagem ao velho e o da preservação no novo
medium, a Internet, da vida de O Cruzeiro – acolheu-me
neste espaço para um depoimento dos dias idos e vividos
no imponente prédio da Rua do Livramento, no bairro da
Saúde, no Rio, a mesma rua onde o menino Joaquim Maria,
o nosso grande Machado de Assis, jogava bola na rua, fôlego
curto já a prenunciar-lhe a saúde abalada, chutando
para o alto bolas e sonhos da vida futura nas Letras nacionais.
Ali, no mesmo endereço, muitos de nós também
demos tropeções, boladas desajeitadas, pernas-de-pau,
como eu, ou certeiras, como outros do quilate de David Nasser,
Lêdo Ivo, Millôr Fernandes, Ziraldo, Dounê Espínola
(também excelente cartunista), Glaucio Gill, Péricles
(criador do Amigo da Onça, o precursor daquele tipo, o
“Muy Amigo”
do Jô Soares), Carlos Estevão, cartunista do “Doutor
Macarrão, Um Figurão”,
e... meu Deus, tantos nomes mais que nos faziam, aos novatos,
babar de admiração.
Tudo
começou para mim quando Paulina Kaz, mãe de um futuro
Secretário da Cultura do Rio de Janeiro, decidiu organizar
um Concurso Universitário Nacional de Literatura. Em sua
edição de 7 de maio de 1960, quando eu cursava ainda
o terceiro ano de Direito na PUC, aqui no Rio, a Revista divulgou
os nomes dos vencedores. Foram 2152 candidatos de todas as regiões
do país, competindo em três setores distintos: Ensaio
(o tema era “A
Importância da Literatura para o Homem de Cultura Superior”,
Prêmio Paschoal Carlos Magno); Contos e Crítica Literária.
Eu morava na Rua José Linhares 61, no Leblon. Fui acordado
pelos amigos Müller Chaves, vizinhos de prédio, com
recado de Sonia Doyle, filha do grande Plínio, não
o latino, o carioca dos Sabadoyles literários, de que meu
nome estava lá, entre os felizardos ganhadores. Corri para
comprar a Revista nas bancas. Suas páginas, recortadas
com carinho, amarelecidas pelo tempo, ainda hoje estão
aqui, em minha parede, como a me recordar de que aquele tempo
glorioso de O Cruzeiro, realmente, existiu. Quase não
acreditava mais, até que Memória Viva teve a grande
idéia de homenagear a famosa revista. Coube-me falar em
nome dos vencedores no salão nobre do MEC, no belo prédio
de Niemeyer, presentes o então Ministro da Educação
e Cultura, Clóvis Salgado e, como fosse eu aluno da PUC,
do seu Magnífico Reitor, Padre Artur Alonso, SJ. A honra
de falar por todos decorreu do fato de que eu abiscoitara o primeiro
prêmio em Ensaio (Viagem pelo Brasil, nas gloriosas asas,
“amarradas com arame”, diziam os gozadores, do Lóide
Aéreo Nacional; o segundo prêmio, em Contos (ganhei
com o Vertigem, de clara influência hitchcoquiana,
no cenário da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
pois foi o que pensava estudar antes de decidir-me pelo Direito
e, depois, pela carreira diplomática), e, finalmente, mas
nem por isso menos importante, com uma coleção de
livros na premiação de Crítica Literária
(sobre o Vila dos Confins, de Mario Palmério).
Assim “tri-campeão”,
aos 20 anos, imaginem minha exultação com a presença,
ainda, das menininhas bonitas, normalistas do Instituto de Educação,
pedindo autógrafo àquele jovem com topete alto e
pontudo como uma marquise à la Elvis Presley. Daí
o convite de Paulina Kaz para que fosse estagiar em O Cruzeiro,
no Departamento Cultural que ela chefiava, passando ali a ser
o sub-chefe. Promovíamos, inter alia, até lançamento
de discos, como aquele da Orquestra e Coral da Universidade do
Paraná, nos belos jardins do Palácio Guanabara,
nos tempos do Carlos Lacerda.
Depois
do Departamento Cultural, vizinho de porta dos geniais Ziraldo,
Millôr & altíssima companhia, tanto chateei os
grandes da casa que, por óbvia generosidade do jornalista-romancista
José Cândido de Carvalho, Chefe de Redação
(autor, entre outros, de O Coronel e o Lobisomem, cuja
primeira prova ajudei a rever), consegui passar a trabalhar na
redação de O Cruzeiro Internacional, editado em
espanhol, com grande circulação e prestígio
na América Latina e na Espanha. Depois de Zé Cândido,
um figuraço, eterno cigarro na boca, magro, quando Campos
ainda não dava petróleo, só gênios
como ele (e pai de um colega meu no Itamaraty). Dava-lhe carona
no meu bravo Renault Dauphine azul, o “leite
Glória-desmancha sem bater”,
depois do expediente, assumiu a redação outro grandes:
Odylo Costa, filho, que me suportou bravamente. Afinal de contas,
e não o digo por modéstia: eu devia ser mesmo um
chato, metido a escritor, o que hoje se chama de mauricinho, filho
de General do Exército, cursando a PUC e fazendo do jornalismo
um passatempo, porquanto já de olhos fitos no Itamaraty,
para onde entraria em 1966, justo quando começávamos
a ser indenizados e dispensados pela Revista: era o início
do fim de O Cruzeiro.
Mas, voltemos
a falar dos vivos, dos tempos áureos, quando se ofereciam
belas festas de Natal nos salões do terraço, grande
concentração de escritores e jornalistas (nós,
novatos, embasbacados), o doce sorriso de Rachel de Queiroz, a
presença de sua prima Dinah Silveira de Queiroz, depois
esposa do Embaixador Dário Castro Alves, meu futuro chefe
no MRE); os cabelos ainda negros do poeta e hoje Acadêmico
Lêdo Ivo; o robusto Herberto Salles, autor do cintilante
romance “Cascalho”; as gargalhadas gostosas, fala
de metralhadora do Ziraldo, a simpatia de seu jovem irmão
Zélio com quem eu tirava fotos de anúncios para
a revista A Cigarra, da mesma empresa. E... bem, é impossível
citar tanta gente boa por metro quadrado ali no alto do prédio
da Rua do Livramento! Depois de Odylo, abalado pelo assassinato
boçal de seu filho, assumiria a Redação do
Internacional outro jornalista-escritor, o Constantino Paleólogo,
elegantíssimo, bigodinho aparado, testa alta, olhar inteligente,
fumando de piteirinha, assessorado pelo querido Orlando Caramuru
e por outro greco-brasileiro, também das bandas de Angra
dos Reis, o Constantino Koracakis. Constantino, o Paleólogo,
autor de um ensaio de que nunca me esqueci (Poe, Machado e
Dostoiesvsky à Luz da Psicanálise), e já
bolando um outro título (Derrapagem no Túnel
- creio que sua morte prematura, tão moço, nos privou
desse livro, creio que já começado), me falava desse
novo projeto a bordo de um luzidio Aero Willys cor-de-vinho, novinho
em folha, carraço na época, a caminho do Largo do
Machado depois do expediente. Eu teria que fazer baldeação
depois, pegando um ônibus de lá para o Leblon. Na
sede da empresa na rua mais além do Túnel Engenheiro
Ricardo, espécie de túnel do tempo, ligando a prosaica
Central do Brasil ao Parnaso da nossa Rua do Livramento, trabalhava
entre tantos grandes sujeitos, brilhando no jornalismo escrito
e fotográfico (neste último, José Medeiros,
Indalécio Wanderley, Helder Martins de Moraes, hoje Embaixador
na Ucrânia, antes fotógrafo de A Cigarra,
revista feminina comandada por Dona Lili de Oliveira, aprendi
a prezar, tantos outros, como o jornalista e dramaturgo Glaucio
Gill, outro que nos deixou cedo demais, a quem foi dedicado o
teatro de Ipanema com seu nome (Toda donzela tem um pai que
é uma fera); sem me esquecer do Barreto, o pai, fotógrafo
e redator esportivo. Já o famoso David Nasser, a quem os
íntimos, ou que por isso queriam passar-se, diziam, apenas,
“o Davi”,
era filé mignon demais para nós, ilustres desconhecidos.
Bem, mas voltando ao O Cruzeiro Internacional, menos
conhecido do que a edição nacional, evidentemente.
Ele, David Nasser, e o temido (mas bondoso, só fazia cara
feia, pois era o defensor das finanças combalidas) Manuel
de Oliveira não eram figurinhas fáceis ao acesso
de novatos como eu, menos de 21 anos de idade. Uma última
palavra sobre a fraternal e sui generis Redação
do Internacional, em espanhol: praticamente ninguém (salvo
os Chefes) era jornalista de formação. A maioria
era constituída por exilados políticos, havia espanhóis,
argentinos (o Carlos Lima fora piloto da Força Aérea
de Perón, e o Professor Gelsi, como o chamávamos
carinhosamente, fora alto funcionário do Ministério
da Educação argentino). Havia um boliviano, dileto
amigo até hoje, casado com brasileira, formado em Direito
no Brasil, ora residindo em Sucre, o Felipe Trednnick-Abasto,
que chegara ao Brasil a bordo do famoso trem que fazia a Madeira-Mamoré,
ferrovia lendária e desconfortável, quando Felipe
escapara das garras do Victor Paz Estensoro em seu conturbado
e belo país andino, tão perto do Brasil, tão
longe de Deus (que me perdoe a brincadeira, Deus é que
tem salvado a situação por lá!). Os demais,
tantos e tão bons amigos e profissionais, que me perdoem
também: a lista de menções e lembranças
carinhosas já vai longe demais.
Lembranças
que se perdem -- ou que estavam destinadas a se perder por omnia
saecula saeculorum -- na noite dos tempos, não fora esse
belo e oportuno esforço do projeto Memória
Viva, coordenado por Sandro Fortunato, e do qual tomei
conhecimento pela coluna do Sergio Maggi, na seção
de Informática do jornal O Globo. Talvez, e quase
certamente o fiz, deixei de recordar passagens divertidas (como
a do todo-poderoso Leão Gondim de Oliveira, semi-nu, apenas
uma toalha branca na barriguinha indiscreta, recebendo massagens
sobre uma cama elevada, sala de porta entreaberta aos nossos olhos
gozadores; ou passagens tristes, como a de ver o nosso Velho Capitão,
o nosso Duce, Fuhrer, Kaiser, o nosso Caesar Maximus, Assis Chateaubriand
em cadeira de rodas, doente, definhando-se, enfermeira ao lado,
interpretando-lhe a fala inaudível). Que me perdoem todos
os que, involuntariamente esquecidos por este escriba menor, ficaram
sem referência.
Felicidades,
velho e bravo O Cruzeiro, tanto o nacional como o internacional,
morituri te salutant, ave! Sua memória ficará
nas graciosas páginas, a cores e, mais que nunca ao vivo,
que Memória Viva está salvando para a alegria de
todos nós. Aos responsáveis por esse esforço
tão raro entre nós, gente de curta memória,
o muito obrigado de todos os sobreviventes daquele vasto, poderoso
Titanic, no seu oceano imenso de ágeis reportagens, mundo
fluido de sólidos escritores e jornalistas, mundo raro,
mas agora, felizmente, arrancado das profundezas do Atlântico
onde jazia esquecido, de volta à tona da memória,
novamente entre nós, a navegar com todas as luzes acesas,
orquestra de bordo soando forte, cheia de nova vida, nas ondas
da Internet.