Quando
Chatô tinha quatro anos, a família descobriu nele
uma perigosa gagueira. Naquela idade, ele simplesmente ainda não
aprendera a falar e quando conseguia fazê-lo era aos sopetões,
intermitentes e hesitantes, gagos, enfim.
Essa doença
fê-lo ainda mais esquivo e solitário, inimigo dos
jogos infantis e das brincadeiras de rua. Preocupado, o pai mudou-se
para o Recife, em busca de melhor saúde para o filho. Foi
aí que aconteceu quase um milagre: um tio recomendou-lhe
falar sozinho, à beira-mar, nas areias da praia, gritando
para as ondas, como se estivesse em conversa com um interlocutor.
Quando Carlos
Gomes transitou pelo Recife, a bordo do “Itanagé”,
o pai decidiu que Chatô seria o orador da recepção.
Treinaram vários dias, o suficiente para que o jovem orador
decorasse o texto e o recitasse, inteirinho, para o grande compositor.
Foi uma festa
na família e Chatô vangloriava-se: “Matei
a gagueira!”
A verdade
é que não a matara ainda completamente, permanecendo
inteiramente gago e “oficialmente”
analfabeto até os 12 anos de idade, porque até então
não pudera cursar nenhuma escola.
Só um ano depois, inscreveu-se num concurso para o Ginásio
Pernambucano e foi aprovado, deixando assim o analfabetismo.
Em 1910, com
18 anos, já trabalhava como repórter no Jornal
Pequeno, cobrindo a Campanha Civilista de Rui Barbosa e tomando
partido a favor de José Veríssimo numa polêmica
com Sílvio Romero, que eram os “papas”
da crítica literária de então.
Logo em seguida,
em 1912, quando tinha 20 anos, formou-se pela Escola de Direito
do Recife e foi aprovado num concurso para a Cadeira de Direito
Romano e Filosofia do Direito, derrotando Joaquim Pimenta, um
socialista histórico e um forte concorrente, que contestava
a sua vitória.
É convidado
aí pelo Conde Pereira Carneiro para dirigir o Jornal
do Brasil, onde não demora muito tempo, porque o seu
sonho era bem mais alto: o de não trabalhar sob a chefia
de ninguém. Em 1923, tinha 31 anos de idade e já
conseguia comprar O Jornal, que logo em seguida seria
o pioneiro e o líder da “Cadeia
Associada”.
O Jornal
foi um sucesso retumbante, de venda avulsa e de anúncios.
Mas
ele não lhe bastava: era necessário dispor de um
órgão com circulação nacional. Existia
aí uma pequena revista, sem maiores pretensões,
Cruzeiro, que Chatô compra com ajuda de um banqueiro
gaúcho. Lançou-a com retumbância no dia 10
de novembro de 1928, há 75 anos, portanto, que justamente
agora se completam.
Era a primeira
vez que acontecia um lançamento tão espalhafatoso,
simultâneo em várias capitais brasileiras, no mesmo
dia: a capa já em cores, fotos ampliadas e textos de técnica
revolucionária para os padrões então existentes.
A revista
logo de saída cobre a Revolução de 30, na
qual Chatô apóia Getúlio, ao lado de Juarez,
Góes Monteiro, José Américo, João
Neves e João Pessoa. Mas, já na Revolução
de 32, Chatô se volta contra Getúlio, reivindicando
uma Constituição para o País, com o apoio
de Luzardo, Bernardes, Raul Pilla e Borges de Medeiros.
Após
a derrota dos paulistas, é preso e deportado para o Japão,
mas o navio que o conduzia volta do meio da baía e deposita
no cais aquela carga incômoda, que protestava aos berros
contra a extradição.
Enquanto isto,
os “Diários
Associados”
iam se expandindo sempre, com a aquisição de 37
jornais diários em várias capitais brasileiras,
desde O Jornal do Comercio em Manaus e A Província
do Pará em Belém, passando pelo Diário
de Natal, O Norte, em João Pessoa e O
Diário de Pernambuco no Recife até o Correio
Braziliense em Brasília e o Alto Madeira, em Roraima.
Quase ao mesmo
tempo, foi anexando 35 emissoras de rádio espalhadas por
todo o País, desde a Baré em Manaus e a
Marajoara em Belém, até a Poti em
Natal, a Borborema em Campina Grande, até a Planalto
em Brasília e a Farroupilha em Porto Alegre, passando
pela Tupy e pela Tamoio no Rio e pela Tupy
e pela Difusora em São Paulo.
Completou
o seu império com uma Editora de Livros, uma agência
Meridional de notícias, além de doze outras revistas,
dez fazendas agropecuárias espalhadas em vários
Estados, um castelo na Normandia, uma fábrica de chocolate,
a Lacta, o Licor de Cacau Xavier e seis laboratórios de
indústria química e farmacêutica, liderados
pela Schering.
No dia 24
de fevereiro de 1949, estourou no ar a imagem da sua televisão,
a PRF-3, Tupy de São Paulo, a primeira estação
de TV na América Latina, a quarta em todo o mundo e, também,
a precursora da Rede Associada de Televisão, com repetidoras
e afiliadas que chegaram a cobrir 95 % do território nacional.
Quase
simultaneamente, elege-se senador pela Paraíba e pelo Maranhão,
torna-se “imortal”
da Academia Brasileira de Letras, é nomeado por Juscelino
para a Embaixada do Brasil em Londres, lança campanhas
de âmbitos nacional e social: em favor da criança,
da aviação civil, dos cafés finos, do trigo,
das fazendas-modelo, dos bem-te-vis, colibris e beija-flores.
E funda o Museu de Arte Moderna de São Paulo, com duas
telas doadas por ele mesmo, e que é hoje uma das maiores
e mais valiosas coleções de arte moderna no mundo
inteiro, numa pinacoteca de mais de 5 mil peças –
avaliadas em US$ 800 milhões, com obras de Manet, Picasso,
Matisse, Renoir, Toulouse Lautrec, Cézane, Goya, Velasquez,
Degas, Dali, Modigliani, Gauguin, Rembrandt, Van Gogh, Utrijo
e Chagall.
Enquanto isto,
O Cruzeiro divulgava toda essa obra e crescia em tiragem,
chegando a vender 700 mil exemplares por semana, graças
a uma excelente equipe de jornalistas e repórteres: Acioly
Neto, José Amádio, Helio e Millôr Fernandes,
David Nasser, Jean Manzon, Franklin de Oliveira, Edmar Morel,
Indalécio Wanderley, João Martins, Luciano Carneiro,
José Medeiros, Jorge Ferreira, Mário de Moraes,
Eugênio Silva, Luiz Carlos Barreto e os futuros Acadêmicos
Carlos Castelo Branco, José Cândido de Carvalho,
Herberto Salles, Lêdo Ivo e Rachel de Queiroz.
O “Pif-Paf”,
de Vão Gôgo e o
“Amigo da Onça”,
de Péricles eram seções famosas, ao lado
de reportagens históricas, como a sobre os xavantes na
Amazônia, a expedição do coronel Percy Fawcett,
a égua do Jockey Club, que bebia cinco litros de leite
por dia, a morte de Aída Cúri, o crime do Sacopã,
Barreto Pinto de cuecas, Miss Brasil e Miss Universo, a derrubada
de Perón, o suicídio de Vargas, a renúncia
de Jânio e os grã-finos de São Paulo, sendo
que esta última levou Chatô a convidar Joel Silveira
para seu quadro de repórteres, chamando-o de “víbora”.
Quando começou
a Segunda Grande Guerra, ele não escondia sua simpatia
pela Alemanha, que visitara e sobre a qual escrevera um livro.
Mas assim que começaram os primeiros torpedeamentos de
navios brasileiros por submarinos do Eixo, foi um dos líderes
da campanha pelo rompimento das relações entre o
Brasil e a Alemanha, apoiando o envio da Força Expedicionária
Brasileira à Itália.
Certo dia,
chamou Joel Silveira ao seu gabinete e o intimou:
– “Sêo”
Joel, estou precisando que o senhor me vá à Itália,
fazer a cobertura desta FEB na Itália. Mas, por favor,
não me morra. Porque repórter foi feito para mandar
notícias. E não para morrer.
Na
manhã do dia 16 de fevereiro de 1960, Chatô dava
entrada na Casa de Saúde Doutor Eiras, com fortes dores
no peito e sintomas de um enfarto. Diagnosticaram-lhe uma trombose,
que atingiu os dois lados do cérebro, com ela convivendo
8 anos, um mês e 18 dias, de um dolorido sofrimento. Terminou
morrendo no dia 5 de abril de 1968, ao fim de 76 anos de uma vida
intensa e tumultuada.
Foi o tipo
do homem diante do qual ninguém podia ser neutro ou indiferente.
Ou era odiado ou endeusado. Tudo nele era grande: as qualidades
e os defeitos.
Deixou uma
inesquecível lição de trabalho construtivo
e de luta permanente, sobretudo nos anos da doença. Não
raro, parecendo um personagem ulissiano de Joyce, possuía
o condão de, num passe de mágica, transformar suas
fantasias em magníficas realidades. Tornava exeqüível
o que para muitos parecia utópico.
Era um arquétipo perfeito do contraditório, vivo
e diário, prático e romântico, segundo Gide,
entre o objetivo e o sonhador, telúrico, com os pés
no chão.
Quando, algum
dia, se escrever a história do Brasil no Século
XX e a história da formação da opinião
pública brasileira, ninguém poderá esquecer
o papel de Chateaubriand, o homem que mais instrumentos criou
para difundir opiniões e notícias.
Foi um dos
líderes mais poderosos do seu tempo – uma força
da Natureza, “senhor
do raio e do trovão”
– que deteve uma massa enorme de poderes jornalísticos,
políticos e financeiros, mas que sabia ser humilde quando
necessário, um clone de William Randolph Hearst, o “Cidadão
Kane”, de Orson Welles.
Conhecia o
Brasil na palma da mão. Poucos brasileiros, como ele, haviam
até então visitado todas as mais longínquas
paragens deste País.
Era um sertanejo
plural e multifacetado, um ser múltiplo, vário e
variável, um bípede faiscante, um andarilho incansável,
que não conhecia o sono nem as distâncias, sempre
com pressa, como se fosse um proustiano em busca do tempo perdido
e reencontrado.
Certa noite,
a dez mil pés de altitude, no trajeto do vôo de um
velho e ronceiro “Constellation”
da Panair, entre Roma e o Recife, confidenciou-me num certo ar
de desprezo:
- Murilo, com essas freqüentes viagens sobre o Atlântico
e os seus diferentes fusos horários, já perdi até
a noção das horas de dormir. De noite, em casa,
fico de olho aberto. De dia, e em público, estou dormindo
muito. E o pior, dizem que ronco bastante.
Foi um implacável
inimigo do relógio, sendo o rei do atraso sem hora certa
para nada. Afirmava:
- Hora acertada para mim basta a de morrer, quando não
poderei adiá-la um só minuto.
No balanço
final de sua pessoa e de sua trajetória – como este
que despretensiosamente aqui tentamos fazer – o resultado
dos acertos é muito superior ao dos erros.
Do seu exemplo
de coragem, de grandeza e de perdão – mesmo diante
aqueles que não o perdoavam – sentimos hoje, e sentiremos
sempre, muita falta e saudades imensas.