Três assuntos cariocas

O BANCO

D. HELDER Câmara, com aquela abençoada capacidade de invenção que Deus lhe deu, saiu-se agora com mais uma novidade, realmente sensacional. A sua nova promoção (como se diz em linguagem de colunista) é o BANCO DA PROVIDÊNCIA. Como tôda grande invenção, parece muito simples - mas depois de inventada. É um banco de socorro mútuo, bolado dentro da idéia de que ninguém é tão pobre que não tenha o que dar, nem ninguém é tão rico que não precise de nada. Baseado nessa verdade, D. Helder concebeu um banco de trocas, onde tudo tem valor e tudo se permuta - serviços, dinheiro, móveis, utilidades, roupas, gêneros, remédios, boa vontade. Você passa os olhos em casa - vê aquela mesa, ou um par de sapatos quase novo, ou um saldo de louças e panelas, um pneu ainda em bom estado, uma caixa de remédio, um serrote - qualquer coisa que não esteja lhe servindo, mas possa servir a alguém, - e manda-a para o Banco de Providência. Será o donativo creditado a seu favor. E quem precisar de qualquer coisa, procura o Banco e lá negocia aquilo de que está carecendo, seja um berço, uma aula de inglês, ou duzentas telhas para consertar o barroco. Em paga, você oferece o que puder, - os ricos dão objetos ou dinheiro, os pobres dão serviço, que o capital do pobre são mesmo os dois braços. Uma enfermeira pode se comprometer a dar tantas horas de trabalho profissional, em troca de um uniforme ou de um móvel, e o mesmo faz um pedreiro, um carpinteiro, - qualquer um. Parece conversa de sonho, não é? Pois o Banco já estreou e, como sempre acontece com as coisa que D. Helder inventa, o lançamento teve um resultado espetacular.

Nos primeiros dois dias de lançamento, os oito postos da zona sul receberam vinte toneladas de gêneros, geladeiras, máquinas de lavar roupa, aparelhos de televisão e rádio, centenas de pares de sapatos, camas, móveis, material de construção - incrível. A Marinha de Guerra se encarregou da operação transporte; e parte da colheita já está tomando destino, como por exemplo camas e colchões para o Abrigo Cristo Redentor, onde mais de cem pessoas estavam dormindo no chão.

Esta semana o Banco da Providência inaugura seus postos da Zona Norte. E o povo, sempre do que se pensa, acorre filial e entusiástico a mais êste apêlo do santo Arcebispo. Vai ganhar da Zona Sul.

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AS CÔRES

Falar em D. Helder lembra favela, e falar em favela lembra logo a onda de demagogia que se anda fazendo porque o Sr. Mário Saladini, diretor do Turismo, se propôs a dar tinta aos favelados para que pintassem os seus barracos. Acho que nessa história está havendo é muita falta de compreensão. Afinal o homem não é diretor da Sursan, nem da Saúde Pública, nem da Casa Popular, nem da Reabilitação das Favelas. É diretor do Turismo, só. A função dêle consiste, apenas, em procurar fazer a Cidade atraente aos olhos dos estranhos que nos visitam. Todo o mundo sabe e deplora - as favelas são uma chaga social, uma vergonha, uma tragédia. Mas o diretor do Turismo não é culpado disso, nem tem autoridade para interferir no problema. Êle é ùnicamente uma espécia de maquilador da Cidade - encarregado de tapar cicatrizes e espinhas, apresentar uma face bonita em cima da velho cara escavacada. Tratar da saúde do doente é com os outros - o papel dêle é só mesmo o de pintar.

Poder-se-á alegar então que cuidar de turismo num tempo em que todo mundo passa fome é uma futilidade. Mas isso são outros quinhentos mil-réis. Mesmo porque, turismo já não é mais brincadeira, é indústria, e por tôda parte rende dólares aos milhões. O daqui não rende porque ainda não há; turismo houvesse, dando dinheiro, quem sabe se poderia com êle urbanizar as favelas? Embora eu duvide que, depois de apanhar o cobre, a turma fôsse se lembrar de favelado. Diriam logo que era pitoresco, que as favelas são uma tradição da Cidade...

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O BICHO

Outro escândalo público (vai como carioca porque afinal de contas Cacareco é nosso) é a eleição de rinoceronte para vereador paulistano e, segundo parece, o mais votado entre todos os candidatos. È que o Tribunal Eleitoral está sonegando ao público o número de votos, no que deve ter razão, pois Cacareco não obtivera em tempo hábil a sua inscrição regulamentar.

Mas, em paga aos cento e tantos mil sufrágios recebidos, já que não deixam Cacareco exercer o mandato, podiam pelo menos, como prêmio de consolação, fazer a sua inscrição ex oficio na lista dos bichos do jôgo: quer aumentando os números da loteria zoológica para 26, ou, caso essa alteração perturbe a complexa matemática das dezenas, centenas e milhares, - retirar da lista dos vinte e cinco algum bicho indevido. A vaca, (25) por exemplo, que além de já ter o cabeça do casal que é touro (21) é hoje, neste País, animal pràticamente extinto. Pelo menos nos açougues.

Mas o que me irrita, especialmente neste caso da eleição de Cacareco, é a ignorância ou má-fé dos noticiaristas, que teimam em falar em Cacareco como se fôsse do gênero masculino. Cacareco, senhores, não é êle, é ela, não é homem, é mulher. Chama-se Cacareco por acaso de batismo, que acontece a muita gente. Eu mesma tive uma prima chamada Dido, e todos conhecem o jogador de futebol por nome Dida. Coisas. E assim, embora a má-vontade masculina tente esconder êsse fato relevante, fiquem todos sabendo que a eleição de Cacareco, além da suas implicações sociológicas e políticas, tem uma facêta que deve ser ressaltada acima de tôdas: representa mais uma vitória do feminismo.

 

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