Texto de Ubiratan de Lemos   -   Fotos de Indalécio Wanderley

Detector de mentiras resolveu crimes famosos

Clique para ampliarUM documento secreto (inédito) é o que apresentamos, em absoluta primeira mão, neste número da sua Revista. Um documento científico que, se não faz prova jurídica, é outro atestado (técnico) da inocência do Tenente Alberto Jorge Franco Bandeira. Trata-se de um relatório confidencial do exame a que Bandeira foi voluntàriamente submetido, no detector de emoções do Serviço de Seleção Psicotécnica Naval (Ministério da Marinha). O fato ocorreu em 1955. Foi provocado por um pedido do então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes, ao Ministro da Marinha. O Tenente Bandeira não relutou em submeter-se aos testes da máquina, porque assim o desejava um grupo de colegas seus, da Aeronáutica, interessado em comprovar a sua inocência. Os resultados acusados pelo detector, os leitores encontrarão nas cópias fotostáticas publicadas nesta edição. Também é curioso saber que sumiu, misteriosamente, a cópia dêste documento arquivada no serviço de Seleção Psicotécnica Naval. Se o examinador de Bandeira não tivesse guardado uma terceira via, a que tem direito, como também o gráfico dos exames, os leitores não poderiam tomar conhecimento dessa importante peça, cujo original deve existir, trancado sob sete chaves, nos arquivos do Ministério da Aeronáutica. Convém lembrar, por outro lado, que o examinador de Bandeira e que manipula, com eficiência, o único detector existente no Brasil (Capitão-de-Fragata Otávio Ferraz Brochado de Almeida, especializado no assunto nos EE.UU.), sugeriu aos seus colegas da Aeronáutica outras consultas ao detector. Já que Bandeira tinha passado pelo aparelho, outras pessoas, direta ou indiretamente ligadas ao crime, deveriam ser persuadidas a testar sua inocência. Mas, estranhamente, ninguém mais se apresentou para os testes. Só Bandeira, o condenado do cubículo 21, teve coragem de entregar-se ao engenho, mesmo contrariando recomendação de seu advogado, o Criminalista Serrano Neves.

Neste capítulo, escreveremos sôbre o detector, para que se forme uma idéia sôbre a sua eficiência, como instrumento orientador de interrogatório, espécie de bússola que separa a verdade da mentira, cicerone de provas reclamadas pela Justiça. Isto é tanto mais necessário, quanto é verdade que, alguns famosos juristas brasileiros, mal-informados, senão louvados em críticas a um modêlo primitivo de detector, condenaram o aparelho, tachando-o de falho, agressivo, inoperante. Quem responderá às dúvidas apressadas, por isso mesmo sem base científica, é o próprio Capitão-de-Fragata Otávio Ferraz Brochado de Almeida, que começou a operar com a máquina nos EE.UU., com grande sucesso. Vamos analisar o detector, a fim de que o público se capacite de sua boa reputação, segundo informações dêsse técnico militar.

1- O Stoelting Deceptograph, bem como seus similares Keller Polygraph, B & W Lie Detector e muitos outros. Impròpriamente chamados de detector de mentiras, é BASEADO NO FATO INEGÁVEL DE QUE A TÔDA ALTERAÇÃO NO ESTADO EMOCIONAL DO INDIVÍDUO CORRESPONDE UMA ALTERAÇÃO NO SEU ESTADO FISIOLÓGICO. Note-se que a alteração no estado emocional não é sòmente a provocada pelo sentimento de culpa, característica do indivíduo sentimental que mente. É qualquer coisa que aja como stimulus. Pode ser, apenas, aquela pequenina alteração causada por um ruído qualquer, a visão de uma cena qualquer, a lembrança de um simples detalhe específico sem maior importância etc. O aparelho e a técnica em uso, hoje, em dia (e não aquêles de Marston, empregados há 21 anos atrás), são suficientemente sensíveis para detectar a menor alteração processada no estado emocional do paciente, através do registro fiel do que se passa em sua respiração, pressão arterial, pulsação e condutibilidade da pele.

2 - A experiência tem demonstrado que, quanto mais insensível ou inacessível a emoções fôr o paciente, melhor será o resultado obtido nos testes. Enganam-se, portanto, os que atribuem ao aparelho falibilidade nos casos de indivíduos não emocionáveis e dos fàcilmente emocionáveis. O detector não fala por si, apenas. Há uma técnica especial no seu uso e outra na organização e na aplicação dos testes. Além disso, há a análise criteriosa e cuidadosa dos gráficos obtidos. O aparelho pode ser comparado ao de Raios X. Não é a máquina que diz que o paciente sofre desta ou daquela moléstia, e sim o exame detido e cuidadoso da chapa.

3 - O detector é constituído por um conjunto de três instrumentos: um pneumógrafo, um cardilógrafo e um galvanófrafo. Os dois primeiros são mecânicos e o último elétrico (daí o nome electrodermógrafo). A cada instrumento corresponde uma caneta que vai registrando, a tinta, em papel que se movimenta uniformemente, tudo o que se passa na respiração (pneumograma), na pressão arterial e pulsação (cardiograma) e na corrente galvânica (galvanograma).

4 - Eis como se processa uma aplicação do detector. O paciente, sentado confortàvelmente numa cadeira, é ligado ao aparelho por meio de três acessórios: a braçadeira do cardiógrafo, um tudo pneumônico de borracha abraçando o peito, na altura da região mamária, e um par de eléctrodos adaptados à mão direita, ou ao dedo indicador. Com indivíduos de pressão alta, ou crianças, adapta-se a braçadeira na barriga da perna ou no pulso em lugar do braço esquerdo. É recomendado ao paciente que se mantenha o mais imóvel possível, e apenas responda às perguntas que lhe forem feitas, durante os testes, com sim ou não. Ou, então, se mantenha calado, evitando tossir, rir, resmungar, fazer muxôxo, fungar, pigarrear etc. Um exame consiste em uma série de testes intercalados por pequenos interrogatórios, com base nos resultados de teste anterior. Há testes especiais, conforme o caso que se tenha á frente. No início de cada teste, é sempre tirada uma normal do estado emocional do paciente. Esta normal serve de têrmo de comparação, no estudo analítico do gráfico. E não é isto o único padrão usado. Perguntas sem relevância e testes apropriados servem, também, de gabarito no caso. Antes de começar o teste, uma vez estando o paciente ligado ao detector, o aparelho é colocado ao nível emocional característico da pessoa que vai ser examinada. A duração de cada teste é muito pequena, não atingindo a 10 minutos. E é essencialmente variável. Depende ùnicamente do paciente, do quanto êle cooperar. A sala de exame obedece a condições especiais de iluminação, ausência de ruídos e outros excitantes externos. O paciente não deve ter a sua atenção desviada durante os testes. Dai não ser permitida a presença de terceira pessoa na sala.

5 - O detector é hoje usado, com êxito, nos EE.UU., Inglaterra, França, Japão, Alemanha e outras nações adiantadas. É obrigatòriamente aplicado (principalmente nos EE.UU.) nas policias federais ou estaduais, nas universidades, nos hospitais, nos escritórios de propaganda, nas clínicas especializadas, nas fôrças armadas, nas cidades atômicas. Nestas, duas vêzes por ano, o pessoal técnico é submetido ao detector, com excelentes resultados. O general americano Ralph Pirce usou o aparelho em 800 prisioneiros de guerra, obtendo 100% de rendimento positivo.

6 - O Capitão-de-Fragata Otávio Ferraz Brochado de Almeida tem obtido, com o detector, média de rendimento de 95%: casos absolutamente positivos, se bem que o aparelho seja 100% exato. Do examinador - e não do engenho - dependem os resultados. Eis um caso ilustrativo e bastante divulgado no Rio. Trata-se do assassínio misterioso do russo Rudolf Karosus, batizado com o título de Crime do Edifício Rio-Roma. A testemunha Antenor Nascimento dizia nada saber do caso. Não sabia quem matou, desconhecia detalhes do crime, e só teria tomado conhecimento do assassínio do russo através da imprensa. Pois bem: embora afirmasse, sucessivamente, a sua negativa, o detector acusava o contrário. Nascimento sabia quem era o criminoso, conhecia todos os detalhes do crime e, se não revelava nada à Polícia, era porque estava sob tremenda coação. Meses depois, Nascimento resolveu contar a verdade. Declarou o nome do autor do crime e as circunstâncias, com riqueza de detalhes. E ainda afirmou que antes se manteve calado, porque ameaçaram matar sua espôsa e sua filha, caso êle falasse a verdade. O detector antecipou, e com absoluta fidelidade, a verdade íntima que Nascimento escondia.

Um documento divulgado pela primeira vez

OCULTAMOS certos nomes que constam dêste documento, porque a sua divulgação prejudicaria diligências sigilosas que estão sendo completadas pelo Deputado Tenório Cavalcanti. O defensor de Bandeira não quer assustar a sua caça. O silêncio, a discrição são os melhores aliados na sua luta, uma vez que o inimigo lhe segue atentamente os passos para obstruir-lhe o caminho. Eis por que o Deputado Tenório não divulga as suas armas secretas, e quando o faz - como é o caso dêste laudo científico - tem que tornar tôdas as precauções. Isto também explica o porquê de muitas testemunhas importantes serem ainda mantidas na penumbra pelo Deputado. Elas sairão do anonimato diretamente para Juízo, pois só usando dêste recurso será possível ganhar a revisão criminal. Dia virá, e cedo, em que poderemos, sem nenhum prejuízo para o Deputado Tenório Cavalcanti, publicar fatos e documentos que estarrecerão a opinião pública nacional.

 
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