A
morte pendurada
A CENTRAL
do Brasil iniciou uma campanha muito simpática, à
qual tôda a imprensa terá gôsto em se associar:
acabar com os chamados pingentes, ou seja, passageiros pendurados
pelo lado de fora dos trens suburbanos, e que correm grave risco
de vida nessa acrobacia, é claro. A estatística
é impressionante. Nestes últimos cinco anos morreram
ou foram mutiladas mil pessoas que viajavam como pingentes nos
trens da Central. Se a bexiga ou a febre amarela matassem aqui
no Rio mil pessoas no mesmo prazo, havia uma grita terrível
e com razão. A cidade ficaria célebre nos anais
higiênicos do País e do Mundo, com males tão
evitáveis campeando assim à sôlta. Entretanto
de acidente - os pingentes da Central e da Leopoldina e os variadíssimos
casos de atropelamento pelo criminoso tráfego carioca,
somando-se tudo, vai a uma cota espantosa. Em um simples ano,
e não em cinco, a cifra de acidentados irá a muito
mais de um milhar.
E não é só o tráfego.
Agora mesmo estou recebendo carta de uma leitora contando um caso
extremamente doloroso. Um môço, Dante Côrrea
Martins, artista de talento, cantor de câmera - passava
no dia 3 de junho pela Rua do Ouvidor, quando foi atingido por
duas placas de mármore que se desprenderam de um prédio.
Fratura de crânio, hospital, o môço morreu.
Morreu e pronto. Ninguém fêz nada, ninguém
disse nada. Ninguém, aparentemente, tem nada com isso,
a vida preciosa que se foi, o luto e a falta que deixou. O azar
é dêle, pra que passou ali naquela hora. E daí?
É realmente incrível o pouco valor
que nós, brasileiros, damos à vida humana. Morrer.
Morrer, matar, ser atropelado, aleijar-se para o resto da vida,
tudo isso está-se vendo a tôda hora, e é encarado
na nossa terra com uma displicência de arrepiar. Mormente
pelas autoridades; ou antes, parece até que as autoridades
têm gôsto em colaborar com o morticínio. Por
isso, é que corremos a aplaudir e colaborar em campanhas
como essa da Central contra os pingentes, notável não
só pela sua oportunidade como pela sua raridade.
E não estou levantando falso a ninguém,
não. Posso dar uma prova, e recente, do que afirmo. Faz
uns dois meses, aqui nesta última página, denunciei
às autoridades uma rua - uma tal de Senador Corrêa
que liga a Rua Paissandu à Praça de São Salvador.
Contei que é uma pequena via com pouco mais de cem metros
de extensão, e estreita. Pois o serviço de trânsito
permite que ela dê mão nas duas direções,
e ainda faculta o estacionamento. (Até mesmo faz ponto
lá uma carrocinha de verdureiro.) E não contente
com isso, a Rua Senador Corrêa é passagem obrigatória
de uma linha de lotações, terrivelmente movimentada,
lotações que desembocam de Paissandu e vão
fazer ponto terminal na Praça de S. Salvador. Acontece
que a Praça de S. Salvador é ponto de recreio de
crianças, com playground, charretes etc. Quem duvidar,
vá ver o verdadeiro inferno das lotações
se atirando por aquela garganta da morte, em redor da "pracinha"
das crianças. Se ainda não houve ali nenhuma matança
de inocentes, é porque Nosso Senhor tem pena e fica de
ôlho nos anjos da guarda.
Pois eu contei o caso, como disse. Pensam que
alguém fêz alguma coisa? Pelo contrário, parece
até que piorou. E êste é um simples exemplo
entre mil, só para mostrar que aqui na nossa terra, autoridade
não liga reclamação de imprensa, não
manda verificar queixas; quem quiser que se dane, que tranque
o filho no apartamento. Ah, são uns senhores muito olímpicos,
muito importantes - a gente sabe lá com quem está
falando?
Sim, vida de brasileiro não vale nada.
De norte a sul morre gente à toa, sem precisão,
tão fácil de evitar. Vida de brasileiro é
mesmo para destruir; também sem ganhar direito, sem comer
que mate a fome, sem escola, sem hospital, sem médicos,
para que viver? Morre, nasce outro, nascem muitos. A bem de que
chorar, se preocupar?
Mas aos moços que fazem pingente nos trens,
insisto no apêlo. Afinal a vida é de vocês
mesmo, e por que arriscá-la nesse esporte inglório?
Para chegar a casa mais depressa uns minutos, vale a pena êsse
risco? Vocês pensam que dão prova de coragem - mas
estão dando prova é de inconsciência e leviandade.
E acima de tudo, falta de coração. Não pensam
nas mulheres que vão ficar chorando, abandonadas, - a mãe,
a viúva. Nem pensam em vocês próprios, que
talvez nem tenham a felicidade de morrer de uma vez, - e fiquem
sem perna, sem braço, mutilados, sobejos de homem, o resto
da vida - e tudo só por culpa de um momento de pressa,
impaciência ou maluquice.