Se você estivesse certo de que o mundo ia se acabar,
como gastaria suas últimas 24 horas?

Reportagem de ORLANDO ROCHA e JEAN SOLARI

O 14 de Julho, que já marcara o fim do faustoso mundo da monarquia francesa, foi também estabelecido como a data do fim do mundo pròpriamente dito. O Mundo ia se acabar. Sòmente uns poucos e mais precavidos espécimes sobrariam da Humanidade - era isso que anunciava, dramático e cabalístico, o médico pediatra milanês Elio Bianca. Êle logo mudou de nome para Irmão Emman e tratou de se refugiar no Monte Branco, onde sobreviveria ao lado de 6 999 outras pessoas. A ameaça era de uma guerra termonuclear, a prazo fixo, desencadeando terremotos, maremotos, até fazer a temperatura baixar a 37 graus abaixo de zero. A essa altura, tudo finito. na expectativa, se perguntassem a você com quem passaria as derradeiras 24 horas do Mundo, qual seria a sua resposta? Aqui alinhamos algumas opiniões de condenados que vivem no Rio. São figuras das mais diferentes atividades, cada uma com opinião particular de como viver o dia-sem-amanhã. Vão desde as palavras de fé de um sacerdote, como Dom Hélder Câmara, ao cepticismo irreverente de um escritor, como Agrippino Grieco, sèriamente desconfiado de que, no Brasil, o fim do mundo seguiria a regra da casa: seria adiado. O que, convenhamos, é boa pedida.

Emilinha Borba
Cantora

No primeiro minuto das 24 horas finais, compraria o mais bonito vestido de Christian Dior. Não importava o preço. Rasgaria as receitas médicas e comeria do bom e do melhor. À noite daria para amigos uma grande festa carnavalesca e cantaria a marchinha: "Com jeito vai".

 
 
 
Cel. Danilo Nunes
Secretário-geral do C.C.A.

Para mim, o que a vida tem de mais sublime é proporcionar à criatura humana a possibilidade de amar e ser amada. Assim, nesses últimos momentos de existência, eu procuraria reunir em tôrno de mim os meus entes queridos para gozar da sua ternura e do seu afeto até o derradeiro instante. Iludiria o próprio destino porque, recordando horas felizes, fatos envelhecidos e amigos desaparecidos, em fuga pelo passado, reviveria tôda uma existência.

 

Sérgio Pôrto
Jornalista

A primeira providência que eu tomaria nas últimas 24 horas dêste mundo era parar com o regime para emagrecer. Chegaria cedo em casa e o pessoal diria: Chi! O Mundo vai se acabar. Ele chegou cedo em casa. Eu não diria que era por isso mesmo, para não assustar a turma. O interessante nisso é a surprêsa. Telefonaria para a gente querida, disfarçando que era despedida, e ofereceria uma lauta feijoada para os íntimos. E quando tudo fôsse terminar, estaríamos todos de mãos dadas.

 
 
 
Agrippino Grieco
Crítico literário

Conheço o país em que vivo. O Mundo não se acabaria, para nós, na data marcada. No Brasil se adia tudo, até o fim do mundo.Por isso continuaria escrevendo as minhas memórias, não digo que tranqüilamente, porque o editor exige pressa. Mas, se houvesse, por exceção, pontualidade, para levar comigo menor carga de pecados, assistiria a uma sessão na Academia Brasileira de Letras e a uma reunião no Pen Club. Mas isso se os componentes dêsses grêmios não ficassem nas respectivas casas, tiritando de mêdo, diante da tragédia.

 
Zacharias do Rego Monteiro
Public-relations

Arrumaria as malas e compraria passagem (só ida) de avião para Recife. Seguiria com as minhas amigas portuguêsas, Deolinda e Prudência e a criatura amada. Lá nos reuniríamos à minha sobrinha, Sra. João de Souza Leão Cavalcanti, e esperaria com serenidade o destino que Deus me reservara.

 
 
 
D. Hélder Câmara
Bispo-auxiliar

Imagino que o pânico seria tremendo e geral. Caberia, então, enorme responsabilidade às pessoas que têm a felicidade de possuir fé. As últimas 24 horas do Mundo, eu as gastaria procurando prestar ajuda a todos, sobretudo na linha de lembrar a misericórdia de Deus, que conhece a fraqueza humana e tira partido de qualquer parcela de boa vontade. Não me perguntem se pensaria em Deus: pensando no próximo, ajudando meus irmãos, estaria louvando a Deus da melhor maneira.

 
Aristides
Barman do Sacha’s

Para mim, seria um dia de morte. Telefonaria para alguns amigos do peito, convidando-os para tomar o último drink no Sachas e os receberia de casaca, para que êles não desconfiassem de que eu estava com mêdo. Prepararia um delicioso coquetel, ao qual daria o nome de Fim do Mundo. Se, lá para as tantas, eu ainda estivesse em condições de andar, iria para casa juntar-me à minha mulher e ao meu filho, que muito prezo. Depois me deitaria numa rede com varanda brancas e morreria como um verdadeiro potiguar. Era o fim...

 
 
 
Heron Domingues
Repórter Esso

Aguardaria o último momento com a tranqüilidade de quem nada tem a perder ou a ganhar. Como repórter, gostaria de estar perto de alguns corajosos que conheço para observar as suas reações. E, se o Mundo não se acabasse, como estava programado, sugeriria que se fizesse uma reportagem, 48 horas depois: O que você faria nas primeiras 24 horas de sua vida, depois de ter tido a certeza de que o Mundo NÃO iria mesmo acabar? Esta, sim, seria a reportagem mais sensacional.

 
Maria Ana
Vendedora ambulante

Nesse dia eu não venderia cocadas nem acarajés. Distribuiria todos os meus produtos, largava o tabuleiro na calçada e viajaria (de graça) para Salvador. Com minha mãe, que já está bem velhinha, iria visitar o meu padroeiro: Senhor do Bonfim.

 
 
 
Oscar Omstein
Diretor-artístico do Copacabana Palace

O fim do mundo não é o fim de tudo, para os que têm fé. Dessa forma, o pânico não se apossaria de mim. Mas nem por isso deixaria de tomar providências para minha última alegria na Terra. Faria virem o meu irmão e minha irmã que residem em New York e Londres, respectivamente. Como é lógico, não teria ânimo para pensar em futilidades. Com a família reunida, rezaria até o último minuto. Morreria rezando. Morreria conformado. O fim do mundo não é o fim de tudo para os que têm fé.

 
Fernanda Montenegro
Atriz

Antes de mais nada, me sentiria muito honrada em participar dêsse espetáculo monumental. Nas últimas 24 horas não decoraria nenhum papel de televisão. Lutaria comigo mesma, para me livrar dos meus rancôres. Calçaria saltos baixos e andaria 24 horas que, para mim, seriam infinitas. Pertinho do fim, subiria a uma montanha para ter a visão panorâmica da festa.

 
 
 
Dr. Pedro Geraldo Escosteguy
Médico e poeta

Se tentar transcender o alógico, creio que me reuniria simplesmente com sêres, reminiscências e objetos que me alertaram para uma possibilidade de infinito. Ante tal situação, é evidente que os valores habituais atingiriam estranha hierarquia. Na escolha, a escala seria cada vez mais afim entre as essências da vida. Reduzindo à extrema opção, levaria comigo o que distingo de forma tão definitiva, que nem o tempo poderia destruir. Tudo mais faz parte das inautenticidades circunstanciais. Nestas últimas 24 horas algo se salvaria.

 

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva