Vitória que faltou na Suécia
 
 

Numa tarde cinza e de temperatura abafada, o Brasil obteve sua primeira vitória sôbre a Inglaterra, passando o recibo da conquista da Copa do Mundo, na Suécia. Era uma vitória que estava fazendo falta aos arquivos do futebol brasileiro. O zero a zero do ano passado, em Gotemburgo, e a derrota (4 x 2) sofrida em 56, em Wembley, representavam duas frustrações do futebol campeão do mundo. Por isso é que êsse jogo do dia 13 de maio despertou o interêsse de todo o País. Finalmente a torcida ia conhecer a famosa seleção de ouro e alentá-la para uma vitória frente ao English Team.

Antes de viajar rumo ao Brasil, o jornalista inglês Sam Leitch (Daily Herald) escrevia: Espero que, quarta-feira próxima, lá no Brasil, eu não tenha que falar de um massacre dos inocentes.

Os temores do repórter inglês não se confirmaram e, após o Match, seguramente êle pôde enviar suas impressões sem falar num massacre. Num massacre que poderia ter acontecido não fôsse o desinterêsse demonstrado pelo time brasileiro no segundo tempo da partida. A falta de inspiração de Pelé e alguns erros no plano de jôgo salvaram o Englisg Team de derrota por contagem que poderia ter sido acima de cinco gols. Do início ao fim da primeira fase, a seleção nacional comandou o jôgo. De saída, os brasileiros adotaram o ritmo que melhor lhes convinha, rápido e pontilhado de picardia. Os inglêses, surpreendentemente jogando dentro de um sistema defensivo que ninguém poderia prever, isto é, seguindo os jogadores adversários em seus movimentos em vez de seguir apenas a movimentação da bola, como o fazem tradicionalmente. Aproveitando essa falha da tática inglêsa, os brasileiros chegaram fàcilmente a estabelecer 2 a 0 nos primeiros minutos de jôgo. Ao terminar o primeiro tempo, tinha-se a impressão de que o Brasil ganharia por larga margem. Seria o massacre. Mas, no vestiário, Mr. Winterbotton corrigiu os planos e o English Team voltou ao campo exibindo tôda a sua aprimorada técnica de defender a área. Os inglêses deixaram de acompanhar Henrique e Pelé nos seus deslocamentos e aguardaram, no meio da área, os atacantes adversários. A facilidade com que jogaram no primeiro tempo deu uma idéia errada aos brasileiros do que seria o resto do jôgo. O ritmo veloz das jogadas desapareceu, cedendo lugar a uma lentidão de movimentos que roçou a displicência. Por outro lado, um êrro de planificação foi cometido no jôgo ofensivo dos brasileiros, ao ser deslocado Henrique para a esquerda, com a vinda de Pelé para a direita. Indo para a esquerda, Henrique não se entendeu com Canhoteiro e ficou meio desajeitado nas suas manobras, enquanto Pelé, ao lado de Juninho, também se atrapalhou. A tudo isso pode-se acrescentar a visível falta de inspiração de Pelé, Dino, Henrique, e o abandono em que foi deixado Canhoteiro, na segunda parte do jôgo.

No final, saíram os inglêses satisfeitos por não terem sido massacrados e os brasileiros por terem conseguido sua primeira vitória sôbre os chamados reis do futebol, embora os próprios reis declinem dêsse título, conferindo-o, por enquanto, aos seus vencedores de quarta-feira. Mas a enorme torcida, que deixou no Maracanã quatorze milhões de cruzeiros (renda recorde), retirou-se do grande estádio sem a sensação de ter conhecido, realmente, a seleção de ouro.

 
 
Aos três minutos de jôgo, Julinho assinala o primeiro gol do Brasil (fotos em cima) ao desferir um chute poderoso, emendando uma bola cruzada por Henrique, depois de um trabalho inteligente de Canhoteiro. Dino de braços para cima inicia a comemoração do gol, enquanto o goleiro inglês está caído. Na outra (em cima, à direita) Julhinho pula de alegria e o goleiro inglês, já recuperado, reclama alguma coisa de braços para o ar.
 
Henrique aparece caído após marcar o segundo gol e, outra vez, o goleiro reclama impedimento. Na última foto, o gol de Henrique, em outro ângulo aparecendo Julinho.
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