Gastão

Recebo carta amiga contando a morte de Gastão Cruls: ... êle se foi, sabendo que era o fim, lúcido e firme até a última hora. Junto alguns recortes de jornal com palavras bonitas e comovidas, escritas por seus amigos em louvor dos talentos e virtude daquele que entre nós tinha um lugar de príncipe, - a grande flor flamenga - no dizer daquele inimitável inventor de definições que é Gilberto Amado, citado por outro grande - Carlos Drummond.

Penso que, nesta obrigação semanal de escrever, também tenho o dever de dar um depoimento de elogio e saudade - mas depois fico pensando: que adianta? Sim, que adiantam palavras, agora que êle está debaixo do chão? A gente se habitua à displicência e muitas vêzes se chega à desatenção enquanto o amigo nosso vive. Não se escreve, não se telefona, não se comemora. Dão-se por garantidos aquêles talentos e virtudes lembrados acima - talvez porque, para nós, são ponto pacífico, e não padecem portanto discussão nenhuma. Mas, aí nem sempre o amigo sabe daquele alto juízo que a gente fazia dêle. Muitas vêzes precisou de uma palavra de fé ou de animação, muitas vêzes gostaria de receber um testemunho - oh, meu Deus, a terrível insegurança de quem escreve para os outros lerem. Aquele vácuo em que parece cair o livro depois de publicado, a ansiedade de saber uma palavra daqueles que importam para nós. Não é o louvor que se quer, ou pelo menos não é apenas o louvor. O que mais se deseja dos amigos, daqueles que sabem o que queríamos fazer, é principalmente a certeza de que se foi lido e compreendido. Que o esfôrço, o suor frio, a angústia de encher aquelas resmas de papel não foram perdidas, atiradas como um folheto de propaganda à indiferença geral. Que os amigos leram, deram importância, discutiram, gostaram mais disso, gostaram menos daquilo - sim, acima de tudo que os amigos reconhecem realmente sua existência, dão fé de você.

E é isso justamente - a certeza dessa platéia pequena e escolhida, essa platéia de câmara, que tão raramente nós damos aos amigos.

E o pior é que a falta não é no simples trato profissional. No plano puro da amizade ela continua constante. Podia se ter visitado naquele dia especial, - e não se visitou. Podia se ter mandado um cartão, uma flor, um presente, - e se esqueceu. Na hora em que relíamos um livro dêle - aquela observação ou frase que nos pareceu tão deliciosa e perfeita - que custava pegar no telefone, ainda na flor da sensação recebida - meu caro que palavra linda, como me comoveu, como você escreve bem! - Mas qual, deu preguiça o leve esfôrço, ficou-se omisso, calado.

E tratando-se justamente de uma pessoa como Gastão Cruls, tôdas essas omissões cotidianas da amizade ainda parecem mais graves, porque êle não as cometia nunca. Amizade para êle não era uma palavra à-toa, era um dom, um compromisso definitivo. Aquêle grupo de escolhidos que, em grau maior ou menor, gozávamos da graça de ser chamados seus amigos, recebíamos dêle, com pontualidade afetuosa, tôdas as demonstrações indispensáveis de que o amigo estava ali, lembrado e fiel, atento, bem humorado, condescendente. Imagino a saudade com que todos estão recordando aquêles convites para a Rua Amado Vervo, na pequena casa decorada com lembranças da viagem ao Amazonas, o sorriso enternecidoà lembrança de suas brincadeiras, que tinham um perfume de meninice, de primeiro-de-abril antigo - os presentinhos anônimos, os cartões disparatados que deixavam risonhos e intrigados os seus destinatários.

Na véspera de embarcar do Rio, fomos visitá-lo, já na casa de saúde. De pijama, abatido, muito pálido, guardava aquela suprema correção de postura, no corpo e na alma, que era o seu traço inviolável. Tentamos falar no seu caso - êle vivia ás voltas com achaques, insônias, colites - mas aquela doença aparentemente não o interessava como as outras, talvez fôsse a primeira que realmente lhe fizesse mêdo. Discutiu brevemente a operação que sofrera, como se se tratasse de uma terceira pessoa, e estranha. Evidentemente não estava com esperanças. E quando uma pessoa da sua intimidade começou a animá-lo ruidosamente, exigindo-lhe que comesse, que andasse, que reagisse - que o mal dêle era pessimismo! - êle apenas sorriu, muito de leve, e se não fôsse a sua gentileza essencial, talvez até houvesse demonstrado impaciência. Mudou de assunto depressa, quis saber da nossa viagem, pediu para se obter uma informação solicitada por um amigo comum, interessou-se em nos recomendar a sua nova marca de cigarros que não irritava o pigarro de fumante, disse uma piada, esboçou o gesto de se soerguer na cadeira para a despedida. A última lembrança que nos ficou dêle, já da porta, foi o sorriso um pouco trêmulo, enquanto a mão, também trêmula, enfiava na piteira o infalível cigarro.

Já o meu primeiro encontro com êle faz muitos, muitos anos. Aliás não pessoalmente, mas com os seus livros, através de minha mãe, sua leitora fiel. Aqui na fazenda. Um livro de contos - Coivara - mamãe lendo, eu menina, menina não sei como consegui que me deixasse ler também duas das histórias (pelo menos só lembro de dua; os outros teriam sido censurados? Decerto.) O primeiro tinha por título quatro letras maiúsculas: G. C. P. A., e durante muito tempo tive arrepios ao recordá-lo de noite. Era uma história sinistra de defuntos e necrotério que aquela sigla queria dizer, em jargão de hospital: Guardo o cadáver para autópsia. O outro conto era A noiva de Oscar Wilde. Eu nem sabia ao menos quem era Oscar Wilde, e fiquei atormentando minha mãe a indagar quem era o homem, qual a sua targédia sugerida nas entrelinhas, se a noiva existira mesmo, se era mesmo tia do autor, que eu sei! Muitos anos depois, quando conheci Gastão em pessoa, êle riu quando lhe contei que minha amizade já era herança de mãe para filha, desde Coivara e Elsa e Helena. Comoveu-se decerto com aquele leitora antiga e distante, pois nunca mais se esqueceu de perguntar por minha mãe e lhe mandar seus livros novos. Quando a perdi, da mesma maneira brutal e da mesma doença que o mata agora, foi dêle que recebi a demonstração que mais me calou, da parte dos amigos, naquele estupor de mágoa em que me afundava: trouxe uma plantinha em flor para eu levar para lea. Não flor comprada, não flor comercial, mas plantada por êle no seu pequeno jardim do Alto da Boa Vista.

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Assim era Gastão Cruls, o fino escritor, o perfeito erudito, o amigo inimitável que se foi embora em poucos meses - e para nós, que estamos longe, quase de repente. E pela primeira vez, nos longos anos do nosso conhecimento, chega a dar a impressão de que quase nos fêz uma descortesia. Sem se despedir, ir embora, sem avisar da partida, êle que o fazia semrpe, até mesmo nas curtas viagens para Angra dos Reis, seu refúgio à beira-mar. A última palavra que nos disse no quarto do hospital foi: Quando voltam? E você, Gastão, quando volta - ou por que não disse à gente que você sim, estava de viagem certa e não tencionava voltar?

 

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