Prisão perpétua para o 475 .

Reportagem de E. PACOTE e GEORGE TOROK (do Bureau de São Paulo)
 
Foi o casamento mais espetacular do ano e a lua de mel mais curta de 1955. O noivo era o n° 475 da Casa de Detenção de São Paulo e a noiva, uma loira e irrequieta vedeta do teatro musicado.

Theo Braga conheceu Jorge De Martino na Casa de Detenção. O rapaz (alto, moreno, com pinta de galã de cinema) aguardava o julgamento que o condenaria a 16 anos de reclusão como um dos seis co-autores do brutal crime da Vila Ema em São Paulo, onde perdeu a vida uma menina de apenas 16 anos.

Para que o casamento pudesse se realizar, o Juiz-Corregedor concedeu ao noivo uma licença especial. Às 10 horas da manhã do dia 10 de dezembro de 1955, Jorge De Martino deixava o xadrez (em companhia de dois investigadores de polícia) e, sete horas depois, despedia-se da êsposa.

A multidão que acompanhou todos os lances do original enlace e a imprensa que lhe dedicou manchetes, tinham uma só opinião: - É golpe publicitário!

Durante 1.104 dias e 1.104 noites, Theo Braga e Jorge de Martino ficaram separados.

Finalmente, o bom comportamento do sentenciado garantiu-lhe uma transferência para o Instituto Penal e Agrícola de São José do Rio Prêto e o Diretor Javet de Andrade fêz o resto. Agora, os dois moram numa casinha branca e aguardam a liberdade condicional que Jorge logo conquistará.

Theo Braga não pensa mais em teatro. Suas mãos estão encardidas e cheias de calos, que o trabalho doméstico não é brincadeira. Além de arrumar a casa e de fazer a comida, ela ainda lava a roupa do marido, que ganha apenas 12 cruzeiros por dia mourejando na lavoura.

Jorge de Martino, por sua vez, já não parece mais artista de cinema. Habituou-se à vida de casado, que lhe deu alguns quilos a mais e vários cabelos a menos.

À noite, enquanto os demais reeducandos conversam ou jogam dama, êle fica ao lado de Theo, fazendo planos para o futuro. Aos domingo, vão juntos ver o time de futebol do I.P.A. desacatar os conjuntos famosos da zona.

A outra distração do casal é cuidar de "Brincuda", uma leitoa tratada como se fôsse gente.

Quando chegar a condicional, Jorge pretende montar uma oficina mecânica em São Paulo. Theo Braga vai continuar sua carreira de espôsa.

Aos amigos, Jorge de Martino confidencia:
- Nunca pensei que prisão perpétua fôsse coisa tão boa...

 

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