O dilema

Nessa história de escolha dos candidatos à Presidência da República, só tem falado, ao que me conste, o pessoal das chamadas cúpulas - quer dizer os lá de cima, os donos de partido, ou donos de outras coisas melhores ainda que partidos. Por isso, pensei que fôsse bom pedisse a palavra um simples eleitor - por exemplo, eu, eleitora - pois, afinal, temos o direito de falar, somos dezenas de milhões, enquanto os senhores da cúpula não se contam nem por dúzias. São tão poucos, êles, realmente, que não deveriam funcionar sequer como minoria, com direito a representação...

Assim, como simples eleitor, em nome de alguns milhões de simples eleitores, pergunto: por que nos impõem êste ou aquêle candidato, quando a gente sabe que nenhum dos dois é bom? Por que imposições e questões fechadas, quando sabemos que, sem compulsão nenhuma, está à nossa disposição um que é ótimo - o candidato Juraci Magalhães? Bomo como pessoa e homem de bem, bom como político honrado, com trinta anos de passado limpo atrás de si, bom como realizador no plano estadual ou nacional, bom como chefe de imenso prestígio dentro do País, bomo como capacidade de se fazer conhecido e amado da massa popular, - conforme tão bem o mostrou a sua triunfal e recente eleição ao govêrno da Bahia. Bom, boníssimo como administrador, bom de penetrante sagacidade política, como o mostrou como presidente do seu partido. Realista sem ser chapa-branca, inteligente sem ser velhaco, hábil sem ser rapôsa.

Dirão que é um pau-de-arara. E será isso uma tara, uma jaça? Então não sabem que pau-de-arara, mais que nenhum outro é capaz de sentir o nacional, pois êle está acostumado a enfrentar em estado agudo os dramas de que padece o Brasil em estado crônico ou intermitente? Os problemas de miséria e de analfabetismo, a tragédia dos transportes, o atraso político, o tubaronato, por lá é que os temos bonitos e, como os sentimos na nossa carne, sem o disfarce da relativa prosperidade, melhor os identificamos quando deparamos com êles, em qualquer parte do Sul, do Centro ou do Norte.

* * *

O Sr. Jânio Quadros é talvez um grande candidato, mas a verdade é que a gente tem mêdo dêle. Muito messias, muito salvador, muito sôbre o Joana d'Arc - sem os santos. Um homem que se governa e nos governaria pelos arrancos da inspiração, que é, sabidamente, uma deusa erradia. Novo-rico da política, com tôda a arrogância, os personalismos, o anseio de originalidade de todo novo-rico. Homem sem amigos, só tem fé em si mesmo, - o que seria muito bom para um tirano, mas o que não parece bom para um governante democrático, que por si só não é nada e só vale na medida em que serve de denominador comum para os demais. Sim, temos mêdo dêle. Aliás - nem seria bom falar em mêdo, porque mêdo mesmo quem faz é o outro, por definição homem de guerra, armado até os dentes, senhor de todos os tanques, espadas, aviões e morteiros. Saravá!

Juraci - êsse não é nenhuma incógnita envôlta nos sete véus da excentricidade e da astúcia, e muito menos é uma ameaça cheirando a pólvora. Já foi govêrno duas vêzes, em períodos de paz e de crise; já administrou muito, já teve mandato legislativo, tem sido oposição e tem sido conciliação e, por onde andou, deixou o mesmo rastro de serenidade, de respeitabilidade, de visão ampla, de coragem e dignidade funcional. Satisfaz aos moralistas - porque é um rígido moralista êle próprio, um fidagal inimigo de ladrões privados e públicos. E ao mesmo tempo é um político credenciado por trinta anos de vida pública, conhecedor de todos os truques, rico de excelente e provada experiência. Não trará surpresas - sim, justamente, não fará surprêsas, é quantidade conhecida e provada, fará precisamente o que já tem feito nestas três décadas de fiel atividade a serviço do País.

* * *

O Exu das encruzilhadas aparentemente nos tinha encurralado no encontro de dois caminhos, ambos desconhecidos, ambos ameaçadores. Mas há outro caminho, meus irmãos, há outro caminho! Trilhado, e por isso desejável, participante das vantagens dos outros dois e sem oferecer nenhum dos seus defeitos. Tal como o promete um dêles, Juraci também seria o regenerador, que viria restaurar no Govêrno as normas da honradez e da moralidade administrativa e política. Quanto ao outro, não lhe leva vantagem sequer na farda, pois farda Juraci Magalhães também a tem - embora muita gente se esqueça disso, porque êle jamais foi homem para usar as suas prerrogativas do verde-oliva fora dos muros do seu quartel.

* * *

Ninguém precisa estar dentro dos altos segredos políticos para saber que a esta altura, partido nenhum está satisfeito com os seus escolhidos, mais ou menos impostos. Tiveram que optar dentro do dilema - ou espada ou vassoura - e optaram resmungando, suspirando, violentados nas suas preferências e aspirações.

Mas por que nos deixamos prender na garra dupla dêsse dilema, que até parece um ferrão de lacraia? Por que a escolha: - espada ou vassoura? Pois nós queremos ambas, a espada e a vassoura, que ambas têm a sua serventia. E Juraci Magalhães tem espada e tem vassoura. Uma para podar as ervas más, a outra para varrer o terreiro, - e o manter limpo.

 

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva