O caso Bandeira, uma preocupação nacional

O assunto, no bureau do Presidente Juscelino, eram favelas, não do Rio, mas de Caxias. Eis por que Tenório estava lá, ao lado do Ministro Mário Pinotti. Ambos queriam verbas: mais poucos milhões , para terminar a obra que transformou Tenório em sociólogo municipal e o Ministro em apóstolo dos favelados fluminenses. O protocolo do despacho foi quebrado num fim de frase.

Tenório: - Êstes 18 milhões de cruzeiros que V. Ex.a acaba de autorizar, na pasta da Saúde, para que se conclua a construção das mil casas programadas e a demolição das restantes atingidas pela enchente de dezembro, em Caxias, representam o antibiótico de que carecia um doente, para completar a sua cura. Em nome dêste doente, e como representante do povo fluminense, resumo todo o meu discurso em duas palavras: muito obrigado.

Presidente: - Tenório, como vai o caso Bandeira?

Tenório: - Por que pergunta, Presidente?

Presidente: - Porque aqui no Catete, na intimidade, de cada 10 pessoas que me falam, 9 abordam o caso, e com simpatia pela sua campanha.

Tenório: - Realmente, o assunto é grave e entrou na consciência pública do País, como fogo em palha sêca.

Presidente: - Sinceramente me diga, Tenório, Bandeira é mesmo inocente?

Tenório: - Com os documentos de que disponho, posso lhe dizer solenemente, com a minha responsabilidade de representante da Nação e de criminalista que, durante 10 anos, exerceu a sua profissão, que não conheço, na História da Humanidade, êrro judiciário semelhante. Daí, afirmar-lhe com tôda a fôrça de minha robusta convicção: êste oficial é inocente. E ainda mais: é vítima de uma trama arquitetada por um grupo que, conhecendo as fraquezas policiais e as falhas das nossas leis penais, fêz do caso do Sacopã um balcão de traficâncias indecorosas.

Presidente: - Por que, com elementos de que você dispõe, ainda não conseguiu libertar êste homem?

Tenório: - Porque a engrenagem judiciária é complexa. Eu não tenho poder de polícia, para prender e interrogar, a fim de que possa decidir contendas dessa envergadura. O assunto depende de uma série de formalidades a que estamos subordinados, até que se alcance a liberdade de Bandeira. Um exemplo, Presidente: denunciei um criminoso, dando à denúncia a ênfase da minha autoridade de deputado, afirmando que Joventino Galvão da Silva era um dos matadores de Afrânio, sendo, portanto, uma chave importante para abrir o Sésamo dêste mistério. Entretanto, o meu grito ecoou no deserto. Joventino apareceu protegido por defesa poderosa, que conseguiu inclusive habeas-corpus preventivo, para protegê-lo das minhas provas. E com isso foi criada uma cortina de fumaça para encobrir os elementos em meu poder. Observe V. Ex.a o paradoxo em que me encontro. Joventino, o matador, é protegido pela lei. Eu, o acusador do seu crime, maniatado pela própria lei.

Presidente: - Você já falou com o Ministro Armando Falcão sôbre o assunto?

Tenório: - Foi o que primeiro fiz, Presidente. Dei-lhe um resumo verbal do caso, e êle ficou de tomar as providências.

Presidente: - Eu mesmo faço questão de falar com o Ministro Armando Falcão a respeito do caso, e estudar a forma legal de ministrar justiça rápida para o caso. Quais são os elementos novos de que você dispõe para uma revisão criminal?

Tenório: - Seria enfadonho enumerá-los todos numa audiência protocolar, porque incorreria no risco de V. Ex.a supor que estou exagerando.

Presidente: - Como assim?

Tenório: - Sim, Presidente, e porque existiam dois grupos interessados na eliminação do bancário Afrânio. Um dêles, por motivo de ordem privada e pessoal, que só à Justiça cabe apurar. O outro, está na esfera de crime de falsários, que adulteravam documentos bancários e com isso conseguiam dinheiro. Só digo uma coisa, Presidente: o bancário Afrânio foi atraído ao local do crime por um membro da quadrilha, da qual êle próprio participava. Observe V. Ex.a que existima dois interêsses paralelos no assassínio de Afrânio. Joventino servia a um dêles.

(Já a essa altura da narrativa de Tenório, o Presidente Juscelino mostrava-se estarrecido. Passava as mãos na cabeça, tamborilava com os dedos na mesa e metralhava o Deputado com pequenas perguntas, que esclareciam áreas obscuras do caso. O Ministro Mário Pinotti fazia apartes, fortalecendo a história que o Deputado Tenório desfiava pacientemente. O interêsse do Presidente aumentava a cada frase de Tenório, e, a tal ponto, que lhe anotamos algumas exclamações: Êste é o caso mais sensacional do Brasil, seu, Tenório! - É o novo caso Dreyfus! - Isto está empolgando todo o País! - O Ministro Mário Pinotti, que era todo atenção, ajuntou a propósito: Ainda há pouco eu cheguei da Paraíba, e lá é só do que se fala. O Presidente completou: E aqui, no Catete, não se fala noutra coisa.)

Tenório: - Anteontem, estive com o Ministro da Aeronáutica, a quem relatei todos os fatos que estou lhe contando. Disse-lhe que lamentava o fato de a Aeronáutica não ter dado assistência jurídica ao Tenente, antes de sua condenação. Nessa ocasião, informei ao Ministro que, se Bandeira fôsse um sindicalizado, talvez não tivesse ficado tão abandonado, assim como ficou, semelhante a uma casca de noz ao sabor das ondas. Bandeira teria apoio moral e jurídico, e não estaria na cadeia, se não vestisse a farda da Aeronáutica! Farda que o obrigou a uma atitude discreta, rígida, de militar brioso, e que lhe deu, como troca, o calabouço. Ao ouvir estas minhas palavras, Sr. Presidente, o Ministro da Aeronáutica, Major-Brigadeiro Francisco de Melo (e já estávamos ao fim de nossa conversa), acompanhou-me até à porta, colocou a mão no meu ombro, na presença dos repórteres de O Cruzeiro e, com frases confortadoras, prometeu-me chamar o consultor jurídico do Ministério, com quem trocaria idéias, sôbre a possibilidade de instauração de inquérito policial-militar. Também ficou de conversar, a respeito, com o Ministro Armando Falcão.

Presidente: - Fique certo, Deputado, de que também contará com todo o meu apoio.

Tenório: - Bem, Sr. Presidente, se eu, como Deputado Federal, não estou com a razão, que me punam, me processem, que provem que não falo a verdade, se estou do lado certo, que apurem a minha denúncia, investiguem como eu. Só não está certo é deixar a opinião pública exaltada, sim, por ver um jovem oficial lançado a um cubículo, onde sente apagar-se a chama da sua fé no futuro do seu próprio País.
     (O Presidente conversou outros assuntos. Abraçou Tenório, o Ministro e prosseguiu em seus infidáveis despachos, sempre naquela embalagem de sua diamantina simpatia.)

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