Tenório estranha que Avancini, sendo testemunha do crime,
fôsse escondido pelo seu advogado num casebre.

Neste capítulo contaremos uma história que aborrecerá Walton Avancini e Hélio Vinagre, duas personagens centrais do crime do Sacopã. Avancini é a testemunha falsa, a figura que disse ter visto Bandeira assassinar o bancário a tiros, dentro do Citroen negro, em abril de 1952. Hélio Vinagre, personagem extraprocesso, é companheiro de Avancini, seu parceiro em muitos ilícitos penais. Ambos são marginais, segundo documentos da Polícia do Rio e São Paulo. Avancini, como testemunha presencial, foi a chave da condenação do Tenente, embora não tenha sido com êste acareado. Êle temia ser desmascarado, no confronto com o homem que acusava, o jovem que definha no cubículo 21 da Penitenciária Central do Rio.

A diligência do Deputado Tenório e dos repórteres de O Cruzeiro teve como palco a Fazenda da Grama, além da cidade fluminense de Passa Três. Tenório tivera informação de que os dois malandros, logo após o assassínio do bancário, esconderam-se naquele sítio discreto, por iniciativa do peculário Leopoldo Heitor, então advogado de ambos, senão empresário da trama que jogou Bandeira na cadeia.

Comprovada a mentira de Avancini

Quem acompanha esta novela sem fim do Sacopã deve recordar que Walton Avancini, logo no seu primeiro depoimento no Segundo Distrito Policial, declarou que, após o crime, viajou para São Paulo. Apareceu, 3 meses depois, para denunciar Bandeira, descrevendo com detalhes o crime da Lagoa Rodrigo de Freitas, segundo êle praticado pelo Tenente. Pois bem: Tenório teve a sorte de localizar 4 testemunhas, cujos depoimentos verbais desmentem Avancini. Uma delas é Antônio Steter, homem simples do campo. Está disposto a depor em qualquer Juízo. Recorda-se, com minúcias, de que Avancini e Vinagre foram ocultados, pelo espaço de 8 dias, no barraco de sapê do lavrador João Pedro Gonçalves, num pé de serra, cujo único acesso é uma trilha de cabritos. Quem quiser visitar o barraco, terá de ir a pé ou a cavalo, rompendo mato e subindo serra. O barraco de João Pedro Gonçalves, longe da estrada e perdido na mata, era realmente um lugar ideal para ocultar alguém. Antônio Stelter pinta Avancini e Vinagre com detalhes. Apenas acha agora Avancini um pouco mais gordo. Definitivo também é o depoimento do próprio João Pedro Gonçalves. Êle declara que o seu patrão, Sr. Severino Campos de Oliveira, proprietário da Fazenda da Grama, pediu que êle escondesse, em seu barraco, os dois marginais. Pedro argumentou que, casado, com era, pai de 9 filhos, não poderia deixar a sua família a sós com os dois homens, enquanto trabalhava na roça. Severino contra-argumentou, garantindo que Avancini e Vinagre eram homens de confiança, incapazes de perturbar a paz do lar pobre de João. Com a aquiescência do lavrador, Severino providenciou camas e cobertores da Fazenda da Grama. Os dois malandros ocuparam a melhor dependência do barraco, a sala. Passavam o dia ou lendo jornais, trazidos pelo próprio Leopoldo Heitor, ou caminhando pelo mato. Jamais se arriscaram a caminhar até a estrada. Êles recebiam comida da própria Fazenda da Grama, uma da primeiras providências de Severino.

O roceiro João Pedro Gonçalves afirma não ter relacionado os malandros com o crime do Sacopã. Sabia que se escondiam por algum motivo forte, mas desconhecia as verdadeiras razões de Avancini e Vinagre. Também contou ao Deputado Tenório que viu, certa vez, o peculatário Leopoldo Heitor, hoje foragido da Justiça, experimentar a sua pontaria num gato magro. Lembra-se que Leopoldo usou o revólver de Avancini, um 32 duplo niquelado. Como Antônio Steter, o lavrador João Pedro Gonçalves está disposto a contar o que sabe a qualquer autoridade. Alega não temer a verdade, colocando-se à disposição do Deputado Tenório, sejam quais forem as conseqüências. Outro com quem Tenório falou foi o administrador da Fazenda da Grama, Manoel Ribeiro de Andrade. Êste repetiu o que já foi escrito aqui. Genésio José Santana, trabalhador em obra de construção, confirma igualmente a história, como quase a maioria dos moradores antigos da Fazenda da Grama.

O Deputado Tenório Cavalcanti comentou o caso para os repórteres. Se a presença de Avancini e Vinagre, no casebre do lavrador, foi registrada imediatamente após o crime do Sacopã, está evidente que o depoimento do primeiro é totalmente falso, na parte que se refere à ida da testemunha de Leopoldo Heitor para São Paulo, logo depois do assassínio do bancário. Se, por outro lado, os dois marginais por lá estiveram, 3 meses após o crime, isto é, semanas antes de Avancini aparecer na Polícia, ao lado de seu advogado, para depor contra Bandeira, o fato assume aspecto mais curioso ainda. Como se compreenderia a necessidade de ocultar, com tanto cuidado, uma simples testemunha, que, afinal de contas, nada teria com o crime? Como se explicaria a presença de Vinagre junto a Avancini, no barraco do lavrador? Isto é tanto mais esquisito - diz Tenório - quanto é sabido que, em seu primeiro contato com a Polícia, Leopoldo Heitor não falou em testemunha, mas sim em criminoso, o autor da morte do bancário. Deu entrevista exclusiva a um jornal (vendeu a exclusividade), na qual anunciou que o matador do bancário estava com êle, era seu constituinte. Dias depois, mudou de orientação: não era mais o criminoso o seu homem, mas sim uma testemunha de vista, nada mais, nada menos, que Walton Avancini. De qualquer modo, as 4 testemunhas de Tenório (arrolará muitas mais, se desejar) servirão para explicar fatos obscuros da posição de Avancini e Vinagre, em relação ao crime do Sacopã.

Tenório fala de Joventino

O Deputado Tenório Cavalcanti escreveu alguns itens sôbre Joventino Galvão da Silva. Adverte que não se trata de um exame rigoroso, antes de observações salteadas, tomadas ao sabor dos acontecimentos.

1 - Apuramos que, em Andradina, para onde se deslocou após o crime do Sacopã, Joventino passou a usar o sobrenome de "Barros". Para alguém mudar o nome deve exisitir motivo forte. Não seria um despistamento para o povo de Andradina, caso o seu verdadeiro nome fôsse citado no noticiário? Ou Joventino tem uma explicação melhor para o fato?

2 - Joventino anuncia um alibi. O Sargento Félix, a pedido de seu pai, escreveu-lhe uma carta, na qual lhe pedia que viajasse para Andradina. Isto teria acontecido antes do crime. O fato da carta não quer dizer, necèssariamente, que o pistoleiro tenha atendido ao pedido de seu pai. Por outro lado, Joventino não conseguirá eliminar provas da sua presença no Rio, na época do crime. Há, contra êste alibi ridículo, provas tanto testemunhais como documentais, que serão usadas durante o processo de revisão criminal.

3 - Joventino afirma que é solteiro. Entretanto, a sua verdadeira espôsa, que reside em Recife, disse a seu respeito poucas e boas. Foi mais uma mentira do bandido.

4 - Notem que o depoimento de Joventino, na polícia de Araçatuba, foi espontâneo. Ninguém o interpelou sôbre o crime. Êle mesmo ditou o que quis - eis o fato. Pois, ainda assim, as contradições estão aparecendo, a cada momento. Leiam, a propósito, a reportagem de Audálio Dantas e Ronaldo Moraes. Vocês se lembram quando Joventino negou os crimes praticados na Paraíba? Recordam também que, dias depois, forçado pelos fatos, êle passou a admitir tais crimes. Notaram igualmente que êle já remendou a versão que deu do atentado contra a vida do Deputado Federal Luiz Bronzeado?

5 - Vejam o que diz o farmacêutico Josafá Cerqueira, de Araçatuba. Na época do crime do Sacopã, êle residia em Monte Castelo, perto de Andradina. Declara que era voz corrente, naquelas bandas, que Joventino se escondera, pelo espaço de 3 meses, na casa de seus pais. Todo mundo do lugar sabia disso.

6 - Posso garantir que a posição de Joventino é insustentável. Êle não conseguirá esconder, por muito tempo, o crime cometido. Seja na Paraíba, seja no Rio, êle confessará a sua participação na morte do bancário. As provas o esmagarão. As suas próprias contradições arrasta-lo-ão inapelàvelmente para a verdade.

O outro Bandeira recebe um apêlo

Em nossa última reportagem nos referimos a outro Bandeira. Êle existe. Chama-se Carlos Leão de Souza Bandeira. Como Jorge Franco, está inocente no rumoroso affair do Sacopã. Seu papel na história será, porém, melhor definido depois que êsse oficial da Aeronáutica puder conversar com o Deputado Tenório Cavalcanti. Êle poderá fazer algo pelo seu companheiro de farda. O Tenente Bandeira lembra-se dêsse seu colega. Foi quem o escoltou no dia do julgamento e procurou acalmar os ânimos acirrados dos amigos do bancário Afrânio. Venha aliar-se a nós, Capitão (ou Major) Carlos Leão de Souza Bandeira.É o que lhe pede o Deputado Tenório. Apenas isso.


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