Reportagem de ADÁULIO DANTAS e RONALDO MOARES
 

Trocou o riso pelo Rosário

Uma semana depois de sua apresentação à Polícia de Araçatuba, o pistoleiro Joventino Galvão da Silva continua negando participação no crime do Sacopã. Não é, porém, o mesmo homem frio e sorridente. O sorriso desapareceu no momento em que foi recolhido ao xadrez pelo próprio Delegado que ficara encarregado de zelar por sua segurança, em virtude da precatória enviada pelo Juiz da Comarca de Areia (Paraíba), solicitando sua prisão por crimes cometidos naquele Estado. No xadrez, Joventino transformou-se por completo. Desapareceu a aparente segurança que demonstrava nas respostas que dava às perguntas que lhe faziam, pois os crimes que negara terminantemente, a princípio, vinham relatados no documento expedido pelo Juiz de Areia: homicídio contra a pessoa de Nilo Ferreira Borges, tentativa de homicídio contra o Deputado Luiz Bronzeado e lesões corporais em Antônio Honorato. As contradições foram aparecendo e Joventino começando a ficar nervoso. Fechou-se como um caracol e, três dias depois de recolhido ao xadrez, seus advogados conseguiram-lhe uma situação bem mais cômoda: internação na Santa Casa local. O pistoleiro descansa num leito muito branco, vigiado por dois atentos policiais. Seu mal principal, segundo laudo dos médicos que o examinaram: Psiquismo exaltado, que seria uma conseqüência de sua situação de recluso. Há outros males assinalados pelos médicos: Síndrome disenteriforme e dor precordial.

A precatória enviada pelo Juiz da Comarca de Areia, Dr. Rivaldo Silvério da Fonseca, foi como uma resposta à declaração feita por Joventino no dia em que se apresentou à Polícia de Araçatuba: - Apelo para a Justiça do País para que aponte qualquer crime de morte por mim cometido. Recolhido ao xadrez, o pistoleiro aposentado teve que admitir que mentira ao negar a autoria de crimes na Paraíba. Daí por diante, foram surgindo, uma atrás da outra, as contradições.

A solicitação do Juiz Rivaldo Silvério da Fonseca foi enviada ao Ministro da Justiça e, por ordem dêste, retransmitida ao Delegado de Araçatuba pelo Cel. Crisanto de Miranda Figueiredo, Chefe de Polícia do Distrito Federal.

De acôrdo com a solicitação, Joventino deveria ser removido de Araçatuba. Seus advogados logo se movimentaram no sentido de impedir que isso acontecesse. Alegaram que a precatória não era válida, pelo fato de que fôra enviada à autoridade policial e não ao Juiz de Direito. Com tal argumento conseguiram que o Dr. Macedo Costa, Juiz da Comarca de Araçatuba, transformasse a precatória em diligência. Vários radiogramas foram expedidos, inclusive ao Ministro da Justiça, pedindo confirmação da autenticidade do radiograma enviado à Delegacia local pelo Chefe de Polícia do D.F.

No xadrex, em tempo de espera, Joventino não falava tanto quanto antes. E quando falava era para cair em contradição em relação a declarações anteriores. Por exemplo, havia declarado (dia da apresentação) que ia passando por Lagoa do Remígio e sem querer foi envolvido num conflito, ocasião em que trocara tiros com o Deputado Luiz Bronzeado. Agora, já admite que foi àquela localidade com 9 capangas para acabar o comício.

Sôbre sua saída do Rio para Andradina, havia declarado que recebera carta de seu pai, chamando-o, e que a carta era acompanhada de 3 mil cruzeiros para as despesas de viagem. No dia em que foi prêso (sábado dia 5), recebeu a visita de um irmão de criação, Claudio Guedes, que, em declarações aos jornalistas, disse que a quantia fôra apenas Cr$ 1.700,00. Dois dias depois da prisão, Joventino já não falava no dinheiro enviado pelo pai: dizia que João Amâncio dos Santos, chefe do policiamento da Central do Brasil, forneceu-lhe um passe para São Paulo, onde permaneceu 4 ou 5 dias, sem dinheiro. Então, Amâncio foi ao seu encontro, ocasião em que lhe deu a passagem para Andradina e 400 cruzeiros em dinheiro.

Quanto à data de sua chegada à Andradina, diz não se lembrar com certeza; sabe apenas que foi em fevereiro de 1952, mas, ao mesmo tempo, não sabe se saiu do Rio em dezembro de 1951 ou janeiro de 52.

Legião Pró-Joventino

Os dois advogados de Joventino, homens hábeis e inteligentes, trabalham sem cessar em favor do pistoleiro. Não só pelos meios jurídicos, mas também no sentido de influenciar a opinião pública, tentando, assim, conquistar simpatias e evitar a remoção de seu constituinte para o Rio. Alegação: Joventino sempre viveu em Araçatuba como homem pacato, um tipo considerado bonzinho, paciente e trabalhador. Sua remoção - alegam os advogados - seria o mesmo que entregar um cordeiro (atualmente) a lôbos vorazes. Os lôbos, no caso, seriam a Polícia do Rio e os interêsses políticos.

Desde o dia da prisão de Joventino, quando os seus advogados tentaram conseguir um segundo habeas-corpus em seu favor, começaram a circular na cidade rumôres segundo os quais estaria sendo preparado um movimento popular no sentido de ser impedida a remoção do pistoleiro. Até comício em praça pública foi anunciado. Ninguém sabia, entretanto, quem eram os promotores de tal manifestação. A onda aumentou quando se anunciou que a Câmara Municipal e o clero apoiaram uma campanha de esclarecimento sôbre a situação de Joventino e que vários grêmios estudantis levariam o movimento para as ruas. Mas o anunciado movimento não foi além da onda. Ficou nas conversas de esquina, mesmo porque não encontrou ressonância na opinião pública. Pelo contrário: grupos de populares começaram a organizar-se no sentido de protestar contra qualquer manifestação em favor de Joventino. A cidade não pode acobertar assassinos. Não houve comício. O pistoleiro continuou no xadrez, aguardando a decisão da Justiça.

Oração para Joventino: o bom ladrão

Os advogados de Joventino conseguiram, piedosamente, que um sacerdote, Monsenhor Mazzei, fôsse atender ao pedido de confôrto espritual feito pelo pistoleiro aposentado. E no dia seguinte à sua prisão, domingo, Joventino recebeu em sua cela a visita do sacerdote. Fêz queixas, ouviu conselhos. Não foi pròpriamente uma confissão, mas a atitude contrita era a de um beato. No fim da visita, Monsenhor Mazzei deu-lhe um têrço e recomendou que rezasse.
- Você sabe a oração de São Dimas?

Joventino respondeu afirmativamente e o sacerdote recomendou que a rezasse diàriamente. E êle cumpriu: reza a oração de São Dimas, o bom ladrão.

Têrça-feira, dia 8, Joventino começou a queixar-se, a demonstrar que a visita do sacerdote não lhe devolvera a tão esperada calma. Estava nervoso e sentindo dores. Depressa, os advogados foram ao Juiz de Direito, solicitar autorização para que uma junta médica o examinasse, o que foi autorizado. Três médicos fizeram os exames e concluíram que seria mais adequado o isolamento hospitalar, onde paciente poderia ser mais convenientemente tratado. No mesmo dia, com ordem do Juiz, Joventino trocou o xadrez por um leito da Santa Casa. Quinta-feira, dia 10, chegou a Araçatuba a confirmação pedida pelo Juiz de Direito, Dr. Macedo Costa, pela qual fica determinada a extradição de Joventino para a Paraíba. Isso se verificará logo que seja concedida alta ao pistoleiro.

Dessa forma, antes de responder às acusações do Deputado Tenório Cavalcanti - que o aponta como o matador do bancário Afrânio de Lemos -, Joventino Galvão da Silva deverá responder na Paraíba pelos crimes que cometeu.

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