Ubiratan de Lemos e Indalécio Wanderley
 

Os Repórteres Ubiratan de Lemos e Indalécio Wanderley, ao lado do Deputado Tenório Cavalcanti, num roteiro impressionante que vem comovendo todo o Brasil: a libertação do Tenente Bandeira.

Bandeira ganha uma corajosa testemunha

Os ecos da opinião pública nacional, que respondem à denúncia do Deputado Tenório Cavalcanti, já romperam as fronteiras paulistas de Araçatuba. Joventino Galvão da Silva, que Tenório apontou ao País como autor do crime do Sacopã, perdeu a ginga do cinismo, a fleuma chucra das negativas, já não fala em ritmo de piadas, com estribilhos de gargalhadas sonoras. Joventino começa a desconfiar do seu sucesso de farsante sanguinário. Ao volta ao xadrez tonteou o jagunço frio. A procissão de seus crimes, na Paraíba, gelou o coração de aço do bandido. A verdade, embora em marcha lenta, avança contra o bandoleiro que fuzilou o bancário Afrânio, na certeza da impunidade de mais um homicídio. O facínora que ganhava o pão de cada dia com o assassínio empreitado, cujo salário dependia da peixeira traçoeira ou do trabuco certeiro, está com mêdo das provas do Deputado fluminense. Os médicos dizem que Joventino foi acometido de excitação psíquica, síndrome disenteriforme e dor precordial de etiologia a ser esclarecida. Em outras palavras, apavoramento, impacto emocional, raiz cúbica de mêdo, sentimento subalterno incompatível com uma consciência que se proclama pura, ausente de culpa, de alguém que nunca derramou o sangue do irmão. Joventino está doente de remorso, está com mêdo de sua verdadeira história. Eis por que se prega a uma idéia fixa: não quer vir ao Rio, não quer voltar à Paraíba, onde já o aguarda um Tribunal Popular. Deseja, sim, para a sua alma em pânico, o sedativo rural de Araçatuba, o aconchego dos lençóis de um hospital. Teme o confronto pessoal com as testemunhas do Deputado, êle que se contradiz a cada minuto. Estas páginas esfriarão ainda mais o sangue do matador. Êle estremecerá quando souber que João Amâncio dos Santos, chefe de Polícia da Central do Brasil, seu chefe naquela autarquia, tem encontro marcado com a verdade. Suas pernas tremerão quando souber que o seu comparsa, Walton Avancini, está sendo desmentido por 4 testemunhas idôneas, 4 homens simples e verdadeiros. A convocação dos homens de bem desta República, que nesta reportagem já tomam posição, causará calafrios ao pistoleiro. Êle talvez já esteja convencido de que esta caminhada de Tenório só terminará com a liberdade de Bandeira.

Êste é um dos trunfos fortes do Deputado Tenório Cavalcanti. Um dos documentos, do seu cofre de segredos, que o encorajam a esta afirmação: Bandeira é inocente, Joventino é o matador do bancário Afrânio Arsênio de Lemos. Os leitores que nos acompanham, nesta jornada pela libertação de Bandeira, verão, já nesta reportagem que o Deputado Tenório Cavalcanti não está fazendo sensacionalismo, não está querendo cartaz, tampouco estaria criando suspense. Estava, isto sim, poupando suas provas - provas de grande proveito para a camarilha que financiou a condenação do jovem Tenente, provas que servirão para instruir futuros depoimentos de Joventino, um pistoleiro veterano, que faz retiro espiritual num hospital, na cidade paulista de Araçatuba. É principalmente em atenção ao público que quer documentos, quer o prêto no branco, que o Deputado Tenório exibe algumas provas do seu arsenal de convicção. Não tôdas as provas, é claro, mas sim uma parcela mínima, o dedo do gigante, pois a massa arrasadora de seus documentos êle a reserva para quando Joventino estiver no Rio, em frente ao Juiz. O Deputado fluminense é prudente. Não deseja queimar todos os seus cartuchos agora, com Joventino longe, respirando o oxigênio de uma liberdade hospitalar. Não seria hábil - entendam os nossos leitores - jogar todos os trunfos nestas páginas, estando o matador sob a manipulação inteligente - e por que menosprezá-la? - dos seus dois advogados.

O Deputado Tenório Cavalcanti apresenta um diálogo seu com João Amâncio dos Santos, chefe da Polícia da Central do Brasil, ao tempo do crime do Sacopã. Adverte, entretanto, que omite talvez a parte mais substancial das revelações de Amâncio. É necessário que seja assim, porque a liberdade de Bandeira depende, antes de tudo, de uma revisão criminal, a ser instruída por elementos que devem permanecer intactos, protegidos contra a escamoteação da gang que, ainda hoje, opera no sentido de defender o matador e conservar o inocente na cadeia.

Tenório e Amâncio

Éramos 4: êstes repórteres, Tenório e João Amâncio dos Santos. O último é um homem forte, sorriso manso, dúctil, com 20 anos de Central do Brasil. O resto vocês saberão no curso dêste pingue-pongue de perguntas e respostas.

Tenório: - Amâncio, acho que já é tempo de darmos um pouco do que conhecemos sobre o crime do Sacopã. O povo precisa saber que as minhas palavras não são de vento. Há muitos mistérios entre o Céu e a Terra e principalmente no crime do Sacopã.

Amâncio: - Deputado, V. Ex.a sabe que pode contar comigo. Aliás, já lhe disse isso várias vezes, na sua casa. Pode ficar certo de que não o deixarei mal.

Tenório: - Então, repita para todo mundo saber: como foi que Joventino chegou à Central do Brasil, e por ordem de quem foi admitido para o Serviço Secreto daquela ferrovia, da qual você era e ainda é chefe do policiamento?

Amâncio: - Joventino veio da Paraíba, se não me falha a memória, em fins de 51.

Tenório: - É possível você informar, com precisão, a data da chegada dêle ao Rio e o seu ingresso na Central do Brasil?

Amâncio: - É problema fácil. Basta verificar as fôlhas de pagamento dos secretas da Central. A assinatura de Joventino, nas ditas fôlhas, responderá a esta pergunta.

Tenório: - Então êle chegou ao Rio e foi logo nomeado para a Central?

Amâncio: - Ora, êle poderia já ter chegado ao Rio contratado para o Serviço Secreto da Central.

Tenório: - Como assim, Amâncio? Não lhe parece esquisito êste processo a priori de nomear, sem levantamento da vida pregressa de um homem que, afinal de contas, seria guardião da sociedade?

Amâncio: - Não me compete opinar sôbre um assunto que é da competência privativa do Diretor. Era e sou ainda simplesmente chefe do policiamento, para cumprir ordens, e quem tem a noção de cumprir ordens, não as discute.

Tenório: - Eu tenho provas de que a identidade de Joventino, como quase tôdos os papéis por êle assinados, foram queimados por você. Fale sôbre isto, Amâncio, e fale com a mesma franqueza com que você sempre me falou.

Amâncio: - Deputado, êste detalhe eu o reputo de grande importância. E eu preferia que êle fôsse reservado para uma resposta, em Juízo. A menos que o Sr. queira contar, de uma vez, tôda a história!...

Tenório: - É verdade que, 3 ou 4 dias depois do crime do Sacopã, você recebeu instruções para afastar Joventino da seção de polícia da Central, para uma outra, fora do Rio? É verdade que tal medida decorreu de indiscrições de Joventino?

Amâncio: - É verdade. Os detalhes eu guardarei para Juízo. Do que sei não negarei nada à Justiça.

Tenório: - Amâncio, diga-me ao pé da letra, quem lhe transmitiu esta ordem?

Amâncio: - Quem podia transmiti-la. O meu chefe.

Tenório: - Joventino serviu sempre à sua disposição ou servia à disposição de mais alguém?

Amâncio: - Logo que foi contratado, ficou a meu serviço. Tempos depois, recebi instruções para passar Joventino à disposição do Gabinete. Cumpri estas instruções.

Tenório: - Amâncio, tenho informações seguras, segundo as quais Joventino confessou a você o crime do Sacopã. Sei também que você não denunciou o fato, porque estava sob coação irresistível. Você temia perder o emprêgo e talvez a vida. Que é que me diz a respeito?

Amâncio: - Deputado, o Joventino quando bebia, contava as suas aventuras criminosas a quem estivesse presente. E o fazia com orgulho, gabolice, descrevendo a forma pela qual praticava os crimes. Estranho que V. Ex.a pergunte isto a mim, quando é do seu conhecimento que Joventino era dado a contar pabulagem. Descrevia, com detalhes, todos os crimes que praticou na sua vida, no Norte do País. E, com relação ao Sacopã, Joventino não fazia segrêdo. V. Ex.a mesmo conhece várias pessoas com que êle se abria. Deu tanto com a língua nos dentes, que foi parar com os costados em São Paulo. E também me consta - e V. Ex.a sabe disso - que lá em São Paulo êle andou se portando bem. Tanto assim que não durou muito tempo lá.

Tenório: - Amâncio, você me disse, há meses, que Joventino tinha sido assassinado em Campinas, onde morava com o nome trocado, e até os jornais de São Paulo publicaram sua morte. Eu, colhendo informações, apurei que o homem estava vivo. E mais ainda: que você foi quem o mandou para Campinas. Explique êsses fatos, Amâncio!

Amâncio: - Sim, eu o informei de que êle estava morto, porque o próprio irmão dêle me confidenciou êste fato. Não o nego que o tenha levado para São Paulo, na própria camioneta da Central, e de lá para Campinas, êle viajou de trem, sòzinho, com passagem paga por mim. Recordo que dei até um dinheirinho para a sua viagem, pouco sim, mas dei.

Tenório: - Você agiu por conta própria?

Amâncio: - Que é isso, Deputado? V. Ex.a quer me embrulhar neste caso? Tudo o que fiz, foi em cumprimento de ordens recebidas.

Tenório: - Você acha que se Joventino falar, no Rio, pode comprometer alguém?

Amâncio: - Ah! Deputado, nem fale nisso. Se Joventino abrir a bôca, vai muita gente para a cadeia. Uma coisa eu lhe garanto: Joventino não falará com facilidade. Uma ocasião, na Paraíba, arrancaram-lhe tôdas as unhas de um pé, e êle não confessou nada.

Tenório: - Que você sabe sôbre um Chevrolet verde que, após o crime, entrou pela rampa da Central e foi recolhido à garagem? É verdade que a pintura dêste carro foi mudada de verde para preta?

Amâncio: - Deputado, V. Ex.a quer saber muita coisa. Isto é assunto que V. Ex.a sabe melhor do que eu. Por que não pergunta ao pessoal da garagem?

Tenório: - Eu sei de tudo, inclusive que a placa do carro foi mudada. Em seguida, venderam-no em Belo Horizonte. Amâncio, você podia me dar mais uma informaçãozinha: quem era o chofer da camioneta que transportou Joventino para São Paulo?

Amâncio: - Deputado, êste homem já morreu. Vamos deixá-lo em paz.

Tenório: - Você tem conhecimento de que Joventino tentou matar uma pessoa em São Paulo, pouco depois de você deixá-lo ali?

Amâncio: - Joventino é homem exaltado. Fui informado dêsse fato, mas não lhe dei muita importância.

Tenório: - Amâncio, você têm mêdo de morrer se falar coisas mais graves sôbre êste caso?

Amâncio: - Mêdo de morrer, Deputado, não. Sertanejo só morre quando Deus quer. Eu tenho mêdo é de matar e passar o resto da vida na cadeia.

Tenório: - Você tem recebido alguma ameaça?

Amâncio: - Há uns, consta, aí de cocorés, mas isso não me amedronta.

Tenório: - Amâncio, vamos entrar num desvio?

Amâncio: - Que é isto, Deputado?

Tenório: - Mudar de assunto, homem! Você estêve comigo, numa visita demorada a Bandeira. Qual a sua impressão sôbre o Tenente?

Amâncio: - Aquela, Deputado, que eu sempre lhe disse: Bandeira é inocente.

Tenório: - Você disse a Bandeira que tudo faria para tirá-lo da cadeia. Há sinceridade nisso?

Amâncio: - Na hora, V. Ex.a saberá. Estou aguardando que o caso chegue à Justiça, onde contarei tudo o que sei - produto de um trabalho de 5 anos, na qualidade de seu informante.

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