Inferno
NÃO
me lembro que nenhuma cidade do Mundo seja assim. Cada cidade
tem os seus ruídos, mas são ruídos toleráveis,
a que a gente pode acostumar-se, dentro dos quais é possível
a vida. Mas no Rio é diferente. No Rio parece que há
uma deliberada campanha contra a sanidade das criaturas, um desafio
de loucos para ver quem é que faz mais barulho.
Pràticamente,
ao lado de cada casa há um prédio em construção;
e por trás dos tapumes, metòdicamente, se organiza
um inferno completo de ruídos intoleráveis - a começar
pelo diabólico estrondar do mexedor de concreto, espécie
de liquidificador gigante, onde em vez de pedaços de frutas
se agitam pedras. E o ruído ao mesmo tempo cavo e estridente
do batedor de estacas - mas, quando se diz cavo ou estridente,
pense-se numa estridência multiplicada por mil - porque
todo adjetivo é fraco para qualificar tal clamor: primeiro
é a pancada surda - búuummm! num ronco
fundo de terremoto, martelada cega nas entranhas da terra - e
depois a repercussão vibrante do choque através
da estrutura metálica do mecanismo, como um sino imenso
mas rachado - dlôoommm! E tôda a vizinhança
treme quando o pêso bruto tomba - Búumm! e depois
há aquela pausa sinistra - e vem o Dllôoomm! que
fica retinindo no ar, feito uma maldição trepidante.
E há a mais todos os ruídos subsidiários
da construção - as cavadeiras, as marteladas no
ferro, as serras cortando metal, as misturadeiras de massa, as
corredeiras de cascalho, com as pedrinhas em cachoeira se atropelando
torrencialmente, interminàvelmente.
E há, completando a orquestra, os incessantes
ruídos da rua - o resfolegar dos carros que engatam primeira
para a subida, os caminhões de escapamento aberto, as buzinas
estrídulas, o apavorante ganido dos freios. E à
noite, quando os operários descansam no que deveria ser
o silêncio, a bendita calma da noite - começa o páreo
diabólico das lambretas, e os carros que continuam acima
e abaixo, ainda mais desinibidos do que durante o dia; sem falar
nos aviões que cortam os céus sem parar, quer de
dia quer de noite, talvez de minuto a minuto, em vôo baixo,
rasante, sempre a levantar ou a aterrissar no Santos Dumont, aqui
vizinho.
E pensar que nós escolhemos casa nesta
rua porque, sem trilhos de bondes, na subida de Santa Teresa,
com seus oitis frondosos, parecia uma promessa de silêncio
e pouco tráfego!
O rádio
do vizinho que toca aos urros, berrando um sambolero, ou gargalhando
sinistro numa novela - some-se no turbilhão de ruídos,
é apenas um acompanhamento musical ao fragor de ruídos
mecânicos que não nos desperta pela manhã,
ao agravar-se, porque já não nos deixou dormir a
noite tôda. E não nos deixa trabalhar de dia, antes
com seus martelos e seus mexedores de pedra, nos levanta a tampa
da cabeça e se instala bem no meio dos nossos miolos nauseados.
Escrevi na primeira linha o nome de inferno,
e vou falando em diabos e demônios a cada linha seguinte
- em verdade é porque se me perguntassem qual é
minha concepção de inferno, eu diria que não
é o fogo nem é o enxôfre, nem é o gêlo
- mas o barulho. Inferno para mim é ruído - ruído
irmão dêste estrondo mecânico que nos desgraça
a vida aqui na cidade. Ai, se de vez em quando não me fôsse
dado um período de repouso no silêncio abençoado
do sertão, acho que eu já teria morrido, ou corrido
doida, entoxicada de barulho. Dizem que no avião a jacto
o principal alívio que se sente é a ausência
de trepidação de motor - e realmente há de
ser uma delícia - porque de tôdas as torturas da
nossa civilização feita de rodas que se atritam
e motores de explosão - a trepidação é
a tortura maior de tôdas.
Amanhecer
naquela tranqüilidade - sabendo que em léguas ao redor
não lateja um engenho mecânico - nem um! - e onde
um cantar longínquo de galo até parece um clarim.
Ouvir pela noite um tinir de grilo - sim, meu Deus, escapar do
pesadelo onde neste instante me afogo, sem um refúgio possível
- a vitrola em frente a gritar alucinadamente “me
dá um dinheiro aí”,
o mexedor de concreto a chacoalhar como as tripas de ferro do
demônio, um caminhão a óleo, de escapamento
sôlto, a escalar a ladeira, uma buzina de jipe a ganir histèricamente,
chamando um retardatário, o rangir rascante do freio de
um carro que quase mata um cachorrinho na curva da Hermenegildo
de Barros, tudo coberto pelo Superconstellation que nos sobrevoa,
a preparar-se para o pouso - e pensar que existe no Mundo um lugar
onde é possível escutar um grilo. Grilos! Já
nem falo em passarinhos - na família de canários
que fêz ninho no pé de jucá ao lado do alpendre;
nem nos galos-de-campina que mariscam no terreiro -, bastava-me
um grilo. E pensando em grilo faço sonhos impossíveis
- chuva a pingar do beiral, um longínquo trovão
a resmungar na serra azul...
Impossível? Falei em impossível?
Impossível era até ontem, quando só se falava
em sêca. Mas aqui está o telegrama, Deus abençoe
quem o assina - choveu no Ceará todo, no mês que
vem já me vou!