Ninguém
conhece ninguém
JOSÉ
AMÁDIO apresenta JORGE AMADO
A
HISTÓRIA de hoje terá canela, cravo e Gabriela também.
Terá saveiros, vento, mulatas, exotismo, brancas praias
de areia-talco, candomblé, cana-de-açúcar,
pimenta, azeite-de-dendê, acarajés agressivos. Terá
sol e gôsto de mar; sal e gôsto de terra. Terá
sinos, e amôres, e nuvens, e cacau, e luares quase fantasmagóricos.
Terá poesia, política, inteligência, autenticidade,
fôrça criadora.
Porque o cabra se chama Jorge Amado.
Terra
& Gente
Veja você:
um menino nasce como qualquer outro, feioso, chorão, franzino,
cabeçudo, as orelhas de abano. Anda, vira, remexe e quando
menos se espera é nome internacional com livros traduzidos
em 30 diferentes idiomas. Amado, Jorge, baiano, é homem
de muitos mares, de muitas colinas e de muitos horizontes. Cidadão
do mundo, nascido na zona do cacau, aprendeu a fotografar a terra
como coração. Sempre andou com os problemas dessa
terra no bôlso. Conhece rostos na multidão. É
um homem de massas, intérprete de sentimentos e anseios
coletivos. Quem o ensinou a entender gente? Onde aprendeu a pegar
um pretinho qualquer, bronco, e tirar dêle braçadas
de poesia, jarras de simplicidade? Quem já o leu sabe disso:
três linhas e o tipo vive, arfa, palpita, deixa rastro,
cheiro e gôsto.
Um escritor.
Gabriela
& Fuga
Gabriela
já é instituição nacional. Caudalosa,
transbordou as margens do romance e está-se espraiando
pelo País. Deixou de ser personagem para ser gente. Creio
mesmo que já a encontrei desfilando para os velhinhos da
Gonçalves Dias, trêfega, soltando chispas da mais
autêntica feminilidade. Compreendo agora porque Agrippino
afirmou ser ela a mulher que mais tem rendido a um romancista
nacional. Gabriela é de todos nós, juriti de segunda
plumagem em cujo sucesso o autor não confiava muito (acha
lenta a primeira parte do livro). Depois que o editor Martins
soltou os primeiros 20.000 exemplares, a diaba escapuliu do livro
e invadiu o grande público. Os outros personagens, talvez
algo enciumados, também tentaram se libertar. Na semana
do lançamento, o árabe Nacib foi citado por um comentarista
político. Walter leu o livro. Gostou. Recomendou a Mário.
Mário leu. Gostou. Recomendou a Milton. Milton leu. Gostou...
Era o livro que se estava esperando.
Comes
& Bebes
Literatura
é vício, como amor, rapé e cocaína.
Vamos deixar êsses azares de lado para enfrentar o outro
lado do cidadão Jorge Amado, bom baiano de olhar meio nebuloso
e cabelo já sôbre o grisalho. No rosário de
nadas e circunstâncias que compreendem o seu mundo (mundo
grande) percebe-se que gosta muito de mambembe e de bater papo
com amigos (papo simples, sem compromissos ou preocupações
literárias). Ama a Bahia acima de tudo, ou de quase tudo.
Também gosta de Paris, das velhas canções
francesas, da cerâmica popular, dos bons vinhos. Não
se considera grande bebedor mas topa conhaque e pisca ôlho
para uma boa cachaça. Trata o whisky com certo desprêzo.
Não sabe nadar. É incompetente para qualquer espécie
de exercício físico. Não teme a morte, mas
a considera muito chata, pois acha formidável estar vivo.
Sente necessidade de solidão, às vêzes. Tem
muitos amigos e alguns prováveis inimigos. É comilão
de quitutes baianos. Espera mudar-se definitivamente para a Bahia.
Lá é amigo do rei.
Chaplin
& Zizinho
Considera
Charles Chaplin a figura n.º 1 da humanidade atual. Picasso
(de quem é amigo) é a sua figura n.º 2. Gosta
de futebol (América), mas torce mesmo por jogadores e não
por times. Sempre foi grande torcedor de Zizinho, de Didi e agora
de Garrincha. Fuma três maços de cigarros por dia
(e mais quando está escrevendo). Gosta de teatro. Não
vai ao cinema para ir ao cinema, mas pela categoria do filme (tem
que ser de bom para cima). Aceita um cowboy de quando em quando.
Seus livros já foram traduzidos em islandês, francês,
sueco, espanhol, inglês, italiano, albanês, russo,
chinês, tcheco, hebreu, persa, alemão, lituano, ucraniano,
romeno, iidíche, húngaro, cervocroata, esloveno,
holandês, mongol, grego, eslovaco, polonês, árabe,
dinamarquês, norueguês e finlandês. Acha, modestamente,
que deve seu grande sucesso no exterior ao caráter tipicamente
brasileiro da obra. Quando o elogiam de cara, perde o jeito, encabula.
Dos seus livros, gosta mais de Mar Morto. Mas
a preferência é sentimental e não literária.
Já quebrou o dedão do pé.
Obá
& URSS
Jorge Amado
é pai-de-santo. É um obá. Sabem o que é
isso? Obá é uma das dignidades no candomblé
de Xangô. É uma espécie de ministro (da mão
direita) com direito a voz e voto. O maior pôsto na hierarquia
civil do candomblé, mas sem autoridade religiosa. Está
ligado aos terreiros há mais de 20 anos e é amigo
íntimo de Senhora, a mãe-de-santo n.º 1 do
Brasil. E agora, saltando da Bahia para a Oropa (com escalas na
França), informo que Jorge Amado já estêve
10 vêzes na União Soviética e 2 vêzes
na China Nacionalista. Também percorreu o Paquistão,
o Ceilão, a índia, tôda a Europa e América
do Sul. Acha que viajando o escritor amadurece e adquire traquejo.
Afirma que ninguém pode ser indiferente à experiência
soviética (ou se é contra ou a favor) e a considera
uma das coisas fundamentais do nosso tempo.
Teve atividade política durante muito tempo, como homem
e como escritor.
Agora prefere escrever.
Coqueiros
& JK
Em môço,
percorreu o Brasil inteiro e está querendo repetir a façanha.
Agora mesmo voltou de Pernambuco, depois de passar cinco semanas
na praia de Maria Farinha, entre os coqueiros e o mar, sem rádio,
sem jornais, sem fumaça a não ser a do cigarro.
Achou bom. Sentiu-se bem. Pescou, andou de jangada, falou com
os pescadores e alimentou a gravidez de seu próximo livro.
Juscelino já leu Gabriela e achou notável (por causa
do livro estão consertando o pôrto de Ilhéus).
Jorge se confessa fã incondicional da administração
de JK. Se não fosse inconstitucional, votaria pela sua
reeleição. Acha que Juscelino foi o maior presidente
que o Brasil já teve e que seu Govêrno é bastante
democrático. Diz isso com tranqüilidade, pois nunca
precisou de Juscelino. Nunca lhe pediu favores.
Nem eu.
Irritação
& Criação
Jorge detesta
gente chata (ou auto-suficiente), calor, chá, avião
(tem mêdo de andar em). Se lambe todo com caju, manga e
sapoti. Sua fala é mansa, sua conversa embrulhada, na base
do “e
tal e coisa”,
“aquêle
negócio”,
“aquêle
cara”
. Ninguém reconheceria em sua prosa recortada o maior romancista
vivo do Brasil. Rumina seus livros durante meses. Quando chega
a hora de passá-los para o papel se dinamiza e vira bicho.
Chega a ser estúpido, com os que o rodeiam. Nada mais o
interessa a não ser a obra. Sua velha máquina (21
anos) resfolega e seus dois indicadores quase desaparecem na velocidade.
Início de livro é sempre torturante para êle.
Escreve, reescreve, rasga. Depois toma embalagem e pronto: quatro
horas de trabalho nos primeiros dias, oito horas na metade, dezesseis
nos capítulos finais. Gastou vários meses imaginando
Gabriela e escreveu-o em apenas dois (quando já atingira
a página cento e tantos, rasgou tudo e começou de
novo) . Ao terminar um livro, está esgotado.
E entra numa espécie de vácuo.
Táxi & Luxo
Perguntam-lhe
se teme o sucesso de Gabriela. Poderá escrever outro livro
melhor? Bobagem. Como esperar que cada livro de um escritor seja
melhor do que o anterior? Se houvesse tal receio, o lógico
seria parar de vez. Mas como? Jorge precisa escrever. Vive disso.
É o seu ganha-pão. Pasmem: Gabriela já lhe
rendeu cêrca de quatro milhões de cruzeiros. Seu
pai é fazendeiro no sul da Bahia. Cacau. O negócio
de Jorge é mesmo literatura. Propostas para novas edições
estão sempre chegando e isso o obriga a manter correspondência
constante com o mundo inteiro. Tem até secretária.
Diz que seu único luxo é andar de táxi. Possui
automóvel. Não sabe dirigir nem quer aprender. Sua
espôsa (D. Zélia) é a motorista da família.
Isso deixa Jorge em preocupação constante: ela pode
morrer ou matar alguém. É má companhia para
automóvel.
Dá palpite ao motorista.
Ficção
& Realidade
Dizem que
existe, de fato, uma Gabriela. Jorge afirma que nunca viu tal
senhora. Aconteceu um caso em Ilhéus que foi o ponto de
partida para o romance. E só. Personagem de livro nunca
pode ser figura real, mesmo quando a história é
baseada na realidade. Os personagens quase sempre são auto-suficientes
e depois das primeiras páginas passam a andar com os próprios
pés. Ocorre que às vêzes fazem exatamente
o oposto daquilo que o autor desejaria. É no livro que
adquirem realidade própria e personalidade. Pergunto-lhe
como imagina Gabriela fisicamente. Responde dizendo que já
recebeu três Gabrielas (dois quadros e um desenho), tôdas
diferentes entre si e mais diferentes ainda daquela que vive em
sua imaginação. No seu modo de ver, um escritor
não deve descrever os tipos, mas marcá-los. O público
que se encarregue do resto. Um leitor quis saber por que Mundinho
não casou com a neta do coronel. Não soube responder.
Mundinho não casou porque não quis.
Êle, Jorge, não tem nada com isso.
Defeitos
& Idéias
Entre os
seus defeitos mais marcantes está a preguiça e uma
certa tendência para a irritabilidade repentina. Fogo de
palha: dois minutos depois dos maiores esbregues é capaz
das maiores ternuras. Acha que os defeitos se modificam com a
idade e agora, quarentão, considera-se ponderado. Detesta
conferências e declamações. Quando vê
baratas pode até dar tiros. Seus planos? Está amadurecendo
uma história de vagabundos (cujo esbôço foi
publicado na revista SR) . Tem fé nesse livro (se chegar
a escrevê-lo) . Também planeja um grande painel do
Nordeste, cujo personagem principal será um chofer de caminhão,
que é o grande herói romântico daquela zona.
Será coisa grande, para daqui a quatro ou cinco anos. Um
“romance
do candomblé”
também passeia no seu cérebro.
É grande fã de papagaios.
Paloma
& João
Amado, Jorge
e baiano. Levou os filhos Paloma e João ao Nordeste para
ensinar-lhes o que é bicho, fruta, vento, terra e gente.
Não acredita em infância pré-fabricada. Quer
que os meninos sejam criaturas humanas e que guardem em si aquêle
“sentido
da terra”
de que nos fala o mestre Nietzsche.
O sentido que êle próprio canta.