Brigue,
mas fale, Capitão
AGORA
que Chateaubriand está na tenda, lembro-me com certo remorso,
da última vez que brigamos. Êle se zangara com outro
artigo, naturalmente sôbre Juscelino, e me pediu que fôsse
a sua casa da Avenida Atlântica, entre coqueiros e o mar.
Estava-se vestindo, o Velho. A noite era de Natal e êle
me interrompera a Ceia. Sentei-me ao pé da cama e fiquei
a espera da tempestade, enquanto êle desdobrava uma camisa
nova, tirando os alfinêtes. Não dizia uma palavra.
O silêncio do Velho era mau prenúncio. Em oportunidades
assim, a melhor tática não deixava de ser a da brigada
ligeira. A iniciativa do ataque.
- Capitão,
sabe quem nasceu hoje?
Levantou os olhos espantados para mim. Não tinha a menor
idéia.
- Nosso Senhor Jesus Cristo.
- E daí?
A VÁLVULA
se abriu. Sentado na cama, agitou os braços e começou
a falar. Eram torrentes de amor a Juscelino, ao seu govêrno,
à sua obra, à sua inteligência, à sua
visão. Três Marias. Furnas. Brasília.
Todo mundo fala sôbre Brasília, só você
teima em ignorá-la, miserável.
- Todo mundo, também, fala sôbre a morte, mas ninguém
quer ir pra lá, Capitão.
FINGIU não me
ouvir e a elegia a Juscelino lhe saia dos lábios como um
hino selvagem e espontâneo. Todo mundo pode ver, gritava
êle, todo mundo, menos você, pedaço de turco,
só vocês insiste em ser do contra, por teimosia,
por oposição, por vaidade. Só você,
com o seu maldito pessimismo. Por que não muda de idéia?
Por quê?
- Porque tenho a minha
opinião.
- Opinião? Se você quer ter opinião, compre
uma revista.
- Se quiser um jornalista sem opinião, bastará procurar
um de salário-mínimo, Dr. Assis.
- Quer dizer que você vai demitir-se?
- Não. Já me demiti.
- Por causa do Juscelino?
- Não é bem por êle, mas pelo desgaste que
essas discussões em tôrno do Govêrno trazem
à nossa amizade.
- Mas, meu filho, vai deixar o meu serviço por causa daquele
doido do Juscelino?
Parei no umbral.
- Doido? Ainda há pouco era um gênio.
- E é. Mas falhou redondamente no seu caso. Não
sei como não tentou comprá-lo.
- Não estou à venda. O senhor pensa que era só
chegar, oferecer e me levar pelo cabresto?
A alma nos olhos, Chateaubriand me encarou bem e lançou
a dúvida:
- E se êle o convidasse para Embaixador?
JÁ
vestido, impecável no seu traje prêto, deu uma espiada
final no quarto. Só então recomeçou a falar
sôbre o que lhe parecia “uma
atitude injusta”
de minha parte. Enquanto descíamos a escada, frisou a situação
difícil em que “o
mais indisciplinado dos seus tenentes”
o colocava. Recusava-se a discutir, agora, o meu direito de opinião
sôbre o Govêrno. O Govêrno era, para êle,
apenas um homem. O homem seu amigo, Juscelino devia ser, portanto,
algo intocável, espécie de território proibido,
onde as incursões dos exploradores políticos não
seriam permitidas.
- Você
escreva tudo o que quiser. Tôda crítica. Derrame
todo o fel. Extravase sua opinião, a meu ver completamente
errada. Depois, chame a sua família e leia para ela. Publicar,
nunca. Se você não quer ver em mim o amigo de Juscelino,
veja ao menos o seu Embaixador. Estamos conversados.
Sua voz perdeu o tom marcial. Com a mão no meu ombro, acrescentou:
- Estou-lhe pedindo por favor.
SAÍMOS
até a calçada para esperar o carro do Galdeano,
em casa de quem êle passaria o Natal. O Natal não
o interessava pròpriamente como festa. Nem Ano Novo, Carnaval,
Semana Santa. Gostava apenas de ver gente, de estar com gente,
em qualquer oportunidade. A casa do Galdeano deveria estar cheia,
e êle iria até lá, para ouvir e falar, centralizando
o auditório, contando histórias de jagunços
e princesas, rememorando velhos políticos, citando datas,
lembrando vinhos, generais, mulheres, restaurantes, arquiduques,
ruas, um certo episódio do Recife, um amigo morto, um discurso
de Borges de Medeiros, certa frase de Vargas. Tôda a sua
vida, feita de amizades e mágoas, nós a poderíamos
juntar, se pudéssemos lembrar todos os almoços,
tôdas as chegadas, tôdas as partidas, tôdas
as viagens, tôdas as brigas.
CHATEAUBRIAND sempre
existiu mais na vida dos outros que em sua própria vida.
Quase não dormia, como se quisesse poupar os minutos. Certa
noite o encontrei sentado no meio-fio de uma rua. À espera
do auto, cochilava. Levantou-se apressado, dizendo que se ia encontrar
com o Marechal Lott. Àquela hora, o Marechal estava dormindo
o sono de patriota, do qual só acordou, que eu saiba, uma
vez, antes do amanhecer. Além do mais, o Marechal Lott
não freqüenta o Sacha's.
HOMEM vaidoso da obra
que construiu, sabe Deus como, graças aos inimigos e apesar
dos amigos, Chateubriand, antes, vivia na multidão, rodeava-se
de gente, convidava trinta, quarenta pessoas para almoçar,
mas muitas vêzes me parecia um homem só. Numa noite
em que saiu comigo do jornal, não sei por que mandou o
carro parar numa rua de Botafogo, e fomos caminhando entre casas
antigas. Gostava de solares velhos, tristes, sérios, fachadas
cinzentas, jardins rasos. De uma janela veio uma valsa de piano.
Deteve-se junto à grade e ficou quieto, escutando até
o fim. As mãos que deviam estar tocando, eram certamente
as mãos de uma senhora tão antiga quanto a valsa
e a casa. No entanto, êle começou a imaginá-la.
Para tocar uma valsa assim, numa casa assim, só podia ser
uma mulher linda. Queria entrar, visitá-la, beijar-lhe
as mãos. Dizer-lhe que tocava divinamente. Não foi
fácil a tarefa de demovê-lo. A lembrança daquela
valsa, da casa velha, do jardim raso e sobretudo do beijo que
queria dar nas mãos supostamente divinas daquela Guiomar
Novaes de bairro, daquela senhora que assassinava muito bem ao
piano uma saudade qualquer, deu-me pela primeira vez a idéia
diferente de um Chateaubriand sentimental e humano, cheio da música
de infância, de ternura e de saudade. Outro Chateaubriand.
NA noite em que pela
última vez, antes da doença, extravasou sôbre
mim a sua fúria gloriosa em defesa de um amigo comum, nessa
mesma noite santa, Galdeano se demorava, e, no portão,
víamos os homens passarem com embrulhos de festas debaixo
dos braços. A calçada estava ficando vazia e todos
os apartamentos já acendiam as luzes. Um senhor bem vestido
passou carregando um pinheiro vivo na lata. Chateaubriand olhava
a tudo sem dizer nada. Passara a sua vida fugindo do Natal. Por
cima do ombro espiou através dos coqueiros. A luz do quarto
de sua própria casa estava apagada. Contou-me, então,
que, outrora, fôra homem sossegado, do lar.
QUANDO leu
a incredulidade na minha face, relatou a história de uma
cama de ferro. Era uma larga e generosa cama de metal amarelo,
roliça, onde êle gostava de dormir, esparramando
o seu corpo pequeno. Era uma cama feia. Devia ser dessas camas
de fazenda, amplas e graves, onde as mulheres recebem a graça
do parto, onde as crianças se enrolam no inverno, onde
os senhores de engenho morrem. “-
Minha mulher não gostava da cama. Queria a todo custo mudá-la
por algo mais condizente com a Avenida, com a nossa posição
social, com a casa. Foi, também, por isso que nos separamos.”
NÃO sei por
onde andará a cama de ferro do môço Assis,
a cama feia que lhe mudou a vida, se êle a vendeu ou a deu,
e por que só o fêz depois. A cama de ferro, o piano,
a valsa, a casa, tudo isto me deu a impressão de que era
um homem voltando para casa. Impregnado de Pernambuco. Trazendo
através da vida, a rolar em suas veias, as águas
do Capiberibe, embora muitas vêzes - até quando ainda
éramos estranhos - quisesse parecer-me um mar tormentoso
de Biscaia. Velho marinheiro da água doce, queria parecer
pelos anos abaixo um pirata sanguinário, quando tudo o
que tirava, tirava de si mesmo, dando aos outros o que conseguia
juntar com a sua maneira impudica de tratar os avarentos. Êle
tem sido, em sua vida, distribuidor de riquezas. Riquezas que,
às vêzes, permaneciam estagnadas, numa rotina lusitana,
e que punha a ferver, a viver, nos grandes empreendimentos. Muitas
vêzes, punia os audaciosos que queriam atravessar a couraça
de neve que escondia o sentimentalismo tropical que o dominava.
Fingia horror à instituição da família
- e a adorava em cada senhora gorda que empurrava um carrinho
de bebê, em cada luz acessa que via, adivinhando a mesa
posta. Se o cheiro do jantar atravessava a janela e vinha até
a rua, êle parava. Ah, se o cheiro era de feijão,
êle quase entrava. Adorava feijão-prêto. Dizia
que o feijão-prêto, a Igreja Católica e o
Exército Brasileiro são os fundamentos da República.
AGORA, êle está
na tenda. Os seus olhos vivos, ágeis, lúcidos, o
seu corpo de menino, tudo permanece confinado dentro de um mundo
de plástico que deve ser, para êle, uma prisão
horrível. As máscaras dos amigos, que até
ontem revelavam pessimismo, mas agora trazem esperança,
aparecem como mensagens silenciosas através da tenda. O
velho trava a sua batalha decisiva. Sabe que do outro lado, apenas
o assistimos, imaginando o que se passa naquele cérebro
todo energia que luta contra a morte do corpo.
NÃO
tive até agora coragem de vê-lo assim. Não
que tenha perdido a fé em sua resistência e na sua
capacidade de reerguimento. Sei que há de se levantar,
inteiro, sòzinho, um dia, andando com as suas pernas, gritando,
escrevendo, viajando, sonhando, bebendo Dom Perignon na Toca do
Leão, olhando para as mulheres lindas com a mesma adoração
de sempre, como se tôdas as mulheres lindas fôssem
rainhas da Inglaterra, entrando na sua velha sala do “O
Jornal”
- e já o imagino chamando por mim:
- Turco miserável,
quando eu estava doente, você se aproveitou para escrever
novamente sôbre o Juscelino. Não gostei daquela história:
“Brasília
é igual à morte: todos falam nela, mas ninguém
quer ir pra lá”.
Beduíno de uma figa!
TODOS nós queremos
ouvir outra vez a sua voz. De minha parte, se isto acontecer,
prometo ir a Brasília, visitar o porta-aviões, elogiar
o Juscelino.
Brigue, meu velho Capitão,
mas fale outra vez.