Os trinta médicos consultados sôbre o caso de Leci Susana Garcia - que há mais de dois anos dorme profundamente - até agora não encontraram uma explicação satisfatória para o mesmo. Leci chegou a ser desenganada. Alguns facultativos previram mesmo sua morte em quinze dias. O mistério, do ponto de vista científico, permanece insolúvel e todos os esforços para acordar a jovem e bela Leci foram em vão. Tudo começou no dia 21 de novembro de 1957, quando Leci Susana Garcia retornava do Colégio Mãe de Jesus, em Londrina (Paraná) , à sua residência. Apanhara um resfriado e sentia-se sonolenta. Queixou-se de dormência no braço direito. Depois sentiu a perna esquerda insensível. Deitou-se e dormiu o maior sono de que se tem notícia nos anais da medicina. Teve início, então, a sua peregrinação pelos consultórios médicos. Viajou para São Paulo e Curitiba, sem resultado. A primeira conclusão foi de que se tratava de encefalite-a-vírus. O tratamento, neste sentido, foi iniciado, com resultados animadores.

O Dr. Ascêncio Garcia Lopes, que se encontrava na Rua Minas Gerais n.º 1492, onde reside a família de Leci, quando lá estivemos, disse-nos: - O quadro clínico orientava-se inicialmente para o diagnóstico de encefalite, ou então, de tumor cerebral. A paciente foi enviada a São Paulo, a um neurologista que, diante de exames subsidiários, confirmou a segunda hipótese diagnóstica, das mais pessimistas. Retornando Leci a Londrina para morrer, a evolução da moléstia foi contraditória. Inicialmente em coma e com funções vegetativas comprometidas, teve paulatinamente melhoras nas funções vegetativas (respiração, deglutição) e discretíssima melhora nas funções superiores, do córtex, com pequena recuperação dêste tecido nervoso. Hoje, ela tem vida vegetativa normal. Prognóstico difícil com esperança de recuperação incerta.

Leci Susana era professôra de acordeão e normalista. Atualmente tem 19 anos. Ia casar. O noivo foi liberado do compromisso, pelo pais de Leci.

Bonita, alegre, gostava de equitação. A irmã mais môça (que se chama Branca Garcia) no ano passado foi eleita Rainha do Jubileu de Prata de Londrina. Leci não pode ficar muito tempo deitada na mesma posição. Muitas vêzes, é levada para o quintal, em cadeira, para que apanhe sol. A alimentação é difícil, embora ela não tenha perdido o sentido gustativo. Recusa os alimentos de que não gosta, e vive quase exclusivamente de caldos. Reagiu à luz do flash, quando fotografada, e os médicos consideraram isso um indício favorável à sua recuperação. Atividades cerebrais superiores paralisadas, Leci mantém-se imóvel a maior parte do tempo. Uma vez ou outra, executa movimentos lentos. O tato manifesta-se através de quase imperceptíveis contrações. Ouve só junto ao ouvido. Está pálida, magra, olhos sempre cerrados, a bôca semi-aberta; respiração normal.

O oftalmologista Romão Sessak, após demorados exames, constatou que Leci está com atrofia do nervo ótico direito e as condições do nervo ótico esquerdo são más. Durante os primeiros meses do longo sono perdeu os cabelos, mas agora já os recuperou. No início da enfermidade, alimentava-se apenas com sôro.

O drama de Leci Garcia já se tornou conhecido, principalmente nas esferas científicas do País. As opiniões divergem no que diz respeito à sua recuperação. Muitos afirmam que o caso é perdido. Outros acreditam ser possível fazer Leci retornar à vida. Mas, enquanto nem uma coisa nem outra sucede, o mistério desafia os homens de ciência e empolga a população do norte do Paraná. Leci Garcia já é conhecida como a Bela Adormecida da Rua Minas Gerais. Em seu sono profundo, parece aguardar, não o príncipe encantado da história, mas o milagre que a fará viver.

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