Brasília:
Cidade humana
A
MUDANÇA da capital é uma obra infinitamente revolucionária.
Revolucionário também é tudo que tem relação
com a Nova Capital: homens, planos, urbanismo e arquitetura. Edifícios
de construção arrojada, estradas amplas, ruas bem
calçadas, com os infalíveis “trevos”,
completam um sistema de trânsito perfeito. O clima é
dos mais saudáveis, água em abundância, luz
elétrica, telefone, rêde de esgotos, tudo como exigem
os tempos modernos em que vivemos. “Mas”,
disse-nos o Sr. Ernesto Silva, diretor da NOVACAP, “para
se fazer uma cidade, não basta dar-lhe um traçado
perfeito, construir edifícios modernos, pontes e estradas.
Ela não terá espírito nem vida se não
houver as escolas, hospitais, postos de higiene e igrejas, diversões,
campos de esporte, enfim, os elementos indispensáveis à
felicidade e o bem-estar do homem.”
Foi com êsse
espírito e com a indomável vontade de dotar Brasília
de todos os fatôres imprescindíveis, que um grupo
de homens idealistas não mediu esforços para realizar
o mais completo plano educacional e médico-sanitário.
O Dr. Ernesto Silva foi obstinado e tenaz. Êsse entusiasmo
talvez decorra do constante contato em sua vida com estudantes
e doentes. Foi professor no Colégio Pedro II, chefiou o
Serviço de Pediatra do Hospital São Zacarias, ministrou
cursos de pediatria e puericultura na Escola de Voluntárias
Ana Nery.
SISTEMA
EDUCACIONAL DE BRASÍLIA
Em outubro
de 1957, por solicitação do Dr. Ernesto Silva e
em cooperação com êste, o Dr. Anísio
Teixeira, diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos,
elaborou o plano do sistema escolar público de Brasília,
aprovado pelo Ministro de Educação e Cultura. O
novo sistema visa, primeiramente, a romper a rotina do que vem
sendo feito até hoje, proporcionando à criança
e ao adolescente educação integral. Procura distribuir
equitativa e equidistantemente as escolas no Plano Piloto, de
maneira que a criança percorra o menor trajeto possível
para freqüentá-la. A educação na futura
capital ficará dividida em elementar e média. A
elementar compreende: Jardim da Infância, Escola-Classe,
Escola-Parque. Os Jardins da Infância são destinados
às crianças de 4 a 6 anos de idade. As Escolas-Classe,
para educação intelectual de menores de 7 a 12 anos.
As Escolas-Parque complementarão a tarefa das Escolas-Classe,
mediante o desenvolvimento artístico, social, físico
e recreativo do aluno.
O Plano Pilôto
divide a futura capital em várias quadras residenciais.
O número aproximado de habitantes de cada quadra é
de 3.000. Para melhor distribuição foi calculada
a população escolarizável nos níveis
médio e elementar, ficando estabelecido o seguinte:
1) Cada quadra
um Jardim da Infância, com 4 salas, para, em dois turnos
de funcionamento, atender 200 crianças. Uma Escola-Classe
com 8 salas para atender a 480 meninos.
2) Cada grupo de quatro quadras uma Escola-Parque, para atender
(dois turnos) cêrca de 2.000 alunos em atividades de iniciação
ao trabalho, nas Oficinas de Artes Industriais (tecelagem, tapeçaria,
cerâmica, costura, bordado etc.), nas Promoções
Artísticas, Sociais e Recreativas (música, teatro,
pintura, educação física etc.) .
Dessa maneira, o aluno terá o maior contato
possível com a cultura. Receberá diàriamente
quatro horas de educação intelectual nas Escolas-Classe
e outras quatro de atividades nas Escolas-Parque.
Os cursos
de nível médio serão ministrados nos Centros
de Educação Média, compreendendo diversas
oportunidades educacionais, oferecidas a jovens de 11 a 18 anos.
Êstes centros atenderão a 2.700 alunos em um Núcleo
Residencial de 45.000 habitantes, provenientes de 12 Superquadras.
Cada Centro de Educação Média terá
um conjunto de edifícios destinados a:
a) Cursos Técnicos, Acadêmicos e
Científicos.
b) Centro de Educação Física.
c) Biblioteca, Museu, Auditório e Grêmio.
d) Administração.
e) Restaurante e Serviços Gerais.
CENTRO
DE ASSISTÊNCIA E ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL DA
NOVACAP
A construção
da Nova Capital tem atraído trabalhadores de tôdas
as partes do Brasil e até mesmo do estrangeiro. Isso passou
a constituir um problema para os diretores da NOVACAP. Normalmente,
nessas grandes aglomerações de homens vindos de
tôdas as direções, aparecem surtos de epidemias.
Um doente poderia contagiar todos os seus companheiros de trabalho.
Dêsse modo, ao mesmo tempo que construía Brasília,
a NOVACAP teve que erguer um Centro de Assistência e Orientação
Profissional e um Departamento de Saúde, que contam com
a colaboração do Ministério da Saúde,
representado pelo Departamento Nacional de Endemias Rurais, Serviços
de Lepra e Tuberculose. No Centro de Assistência e Orientação
Profissional são recebidos os migrantes que chegam em busca
daquilo que sempre foi escasso no Norte e Nordeste e que é
um dos maiores benefícios que trouxe a mudança da
capital, o trabalho. Ao cruzarem os limites da cidade, são
imediatamente batizados com o apelido regional de “candango”
e vão direto ao Centro. São submetidos a um processo
de higienização (banho, corte de cabelo, barba)
juntamente com tôda família. São levados à
vacinação contra a varíola, tifo, paratifo,
febre amarela (feita pelo Departamento de Saúde da NOVACAP)
, à abreugrafia e BCG (pelo S. N. T. ), ao exame de pele
(pelo S. N. L.), ao exame de tracoma, e filariose (pelo Departamento
Nacional Endemias Rurais), recebendo então a Carteira de
Saúde, sem a qual não obterá emprêgo
em lugar algum. Depois vão à polícia para
o cadastro policial e exame psicotécnico. Finalmente são
hospedados pelo I. N. I. C., que se encarrega da colocação
no trabalho. A refeição é fornecida pelo
S.A.P.S. e a assistência social é supervisionada
pelo Conselho de Bem-Estar de Brasília.
O Centro é constituído de vários
pavilhões: de administração, de solteiros,
de famílias, de hospitalização, creche, refeitório,
depósitos e casas para funcionários. Poderá
abrigar até 400 migrantes.
DEPARTAMENTO
DE SAÚDE DA NOVACAP
Na chefia
dêsse Departamento está o Dr. Jairo de Assis Almeida,
auxiliado pelos Drs. Rodrigo Otávio Silva, Quintino Rodrigues
de Castro e José de Magalhães Barros. Mantém
em sua sede os serviços de vacinação antivariólica,
antitífica, salk, tripice e outras. Existe um ambulatório
para atendimento dos funcionários da NOVACAP e indigentes,
proporcionando-lhes também o fornecimento de medicamentos
com aplicação de injeções e pequena
cirurgia. Possui uma equipe de 22 fiscais sanitários da
Seção de Higiene e Profilaxia, que procura manter,
na medida do possível, em condições profiláticas,
os hotéis, bares, restaurantes, padarias etc. Até
o momento, o Departamento de Saúde da NOVACAP vacinou um
número de 104.000 pessoas. Foram expedidas 8.000 carteiras
de saúde. Como Brasília tem uma população
aproximada de 80 000 habitantes, chega-se logo à conclusão
de que até mesmo as pessoas que foram por lá de
passagem foram vacinadas, e isso dá uma idéia do
imenso trabalho que têm tido êsses homens.
DEPARTAMENTO
NACIONAL DE ENDEMIAS RURAIS
Chefiado pelo Dr. João Leão da
Mota, foi o primeiro serviço federal instalado em Brasília.
Aplica vacinas obrigatórias de febre amarela, varíola,
poliomielite etc. Procede a exames de tracoma, malária,
filariose, doença de Chagas e outras. Promove a desinsetização
de tôdas as casas e alojamentos. Controla o bócio
endêmico, dosando o iodeto no sal de cozinha, nas fontes
de produção. Faz exames de sangue para descobrir
e tratar a malária e a filariose.
SERVIÇOS
DE TUBERCULOSE E LEPRA
Com duas
equipes de abreugrafia, percorre tôdas as coletividades.
Dispõe de um dispensário, para atendimento indiscriminado,
exames necessários e medicação gratuita.
Há um abrigo de emergência para isolamento de tuberculosos,
mantido pela NOVACAP, numa colaboração que é
recíproca. O índice de suspeitos da doença
é de 1,3 % . Até o momento foram feitas 50.556 abreugrafias
e foram aplicadas vacinas BCG num total de 56.400.
O Ministro
Mário Pinotti não faltou com o apoio nessa grande
empreitada, o que aliás é um gesto já peculiar
ao Mata-Mosquitos N.º 1. Após a sua posse no Ministério
da Saúde foi feita ampla pesquisa da tuberculose, realizada
pelas Unidades Sanitárias Aéreas, ao fim da qual
foi instalado o Serviço Nacional de Tuberculose e Lepra
e ampliado o Departamento Nacional de Endemias Rurais. Para a
construção do Hospital Distrital tem o Ministro
Mário Pinotti distribuído as verbas necessárias
à sua edificação, numa colaboração
digna de maior louvor.
REDE
HOSPITALAR DE BRASÍLIA
O planejamento
hospitalar de Brasília, elaborado e desenvolvido pelos
Drs. Ernesto Silva e Henrique Bandeira de Mello, visa a popiciar
a todos os habitantes da cidade uma assistência de alto
padrão, procurando atendê-los no próprio bairro
a que pertencem. Termina com o sistema hospitalar das autarquias,
que só atende aos seus associados, obrigando os beneficiários
a deslocaram-se, por vêzes, a grandes distâncias.
O plano, que obteve todo o apoio do Ministro Pinotti, tem a seguinte
esquematização:
1) Hospital
de Base, que tem um papel de suma importância. Situado numa
área central, com cêrca de 50.000 metros quadrados,
contando com uma unidade de administração e vinte
de hospitalização (compreendendo 470 leitos), além
da unidade de centro cirúrgico e de serviços gerais.
Ali estarão concentradas tôdas as especialidades
e equipamentos, facilitando uma assistência de máxima
eficiência (cirurgia toráxica, nervosa, plástica,
cancerológica etc.) .
2) Hospitais
Distritais, que abrangerão uma área de 32.000 metros
quadrados, com 260 leitos. Cada três Unidades de Vizinhança,
com um total aproximado de 45.000 habitantes, terá um hospital
dêsse tipo. Êle é dotado de instalações
e pessoal qualificado para dispensar assitência médica,
cirúrgica e obstétrica, além de incorporar
atividades de socorro de emergência e unidade de saúde.
3) Hospital Rural para atender às zonas
suburbanas, com características idênticas ao Distrital.
4) Unidades
Satélites, que gravitam em tôrno dos Hospitais Rurais.
Esta unidade tem a finalidade precípua de atender às
populações mais afastadas do Município Federal.
O sistema, por fim, exigiu, por circunstâncias de ordem
médica e social, a criação de denominada
Colônia Hospitalar, a qual é integrada pelas seguintes
unidades: Hospital de Doenças Mentais Crônicas, com
1.850 leitos; Hospital de Tuberculose, com 425 leitos; Hospital
de Convalescentes e Crônicos, com 750 leitos; Centro de
Reabilitação, com 70 leitos.
Dessa maneira, esperamos ter respondido às
mais variadas perguntas sôbre êsses setores tão
importantes na vida de uma cidade. Esperamos ter levado a tranqüilidade
e a segurança aos pais de que seus filhos terão
o melhor dos ensinos no melhor sistema educacional já elaborado.
Para melhor compreensão, especificaremos que com a mudança
da capital estará em pleno funcionamento, a partir de 21
de abril de 1960, para atender à população
de Brasília o seguinte:
No setor
educacional - Ensino Público: - Quatro Escolas - Classe
para 2.560 alunos, dois Jardins da Infância para 400 crianças;
uma Escola-Parque para 2.000 crianças; um Centro de Educação
Média para 2.700 rapazes; treze Escolas Primárias
disseminadas por tôda a área da cidade, dos acampamentos
e das cidades satélites, com capacidade para cêrca
de 4.000 alunos; uma Escola Profissional para 250 alunos; uma
biblioteca e discoteca com mais de 4.000 volumes e 300 discos
(Biblioteca Visconde de Pôrto Seguro).
Ensino Particular:
- Dois ginásios (dos padres Salesianos e Lassalistas) com
capacidade total para 900 adolescentes de curso médio e
750 de curso primário. Vários colégios católicos
e protestantes para crianças de curso primário,
totalizando 1.240 lugares.
No setor
Médico-Hospitalar: - Hospital Distrital com o funcionamento
do ambulatório, centro cirúrgico, pronto socorro
e 90 leitos devendo ficar totalmente pronto em agôsto de
1960; Pôsto de Saúde, onde funcionam os serviços
de vacinação; Hospital do IAPI com 70 leitos. Hospital
de Taguatinga, com 20 leitos, construído e mantido pelas
Pioneiras Sociais; Ambulatório Central dos Acampamentos,
com 12 leitos para casos de emergências. Isolamento para
tuberculosos com 20 leitos. Pequenos Ambulatórios situados
em diversos acampamentos (necessários para a descentralização).
Hospital de Planaltina, com 12 leitos.