Cacareco
agora é Excelência
Cacareco,
um pacato rinoceronte, virou candidato de um bairro paulista que
cresceu demais: Osasco. A história de uma autonomia (negada)
e as 100.000 células para vereador.
Texto
de NEIL FERREIRA Fotos de GEORGE
TOROK
(Do Bureau de “O
Cruzeiro”
em São Paulo)
Dos
540 candidatos que “ofereceram
suas vidas em holocausto ao bem-estar público”
concorrendo às 45 cadeiras da Câmara Munipal de São
Paulo, sòmente um - Cacareco - conseguiu empolgar, de maneira
espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer
nada (êle não pode prometer: não sabe nem falar),
sem partido politíco definido - sua legenda poderia ser objeto
de confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda
acabaria sem visto de saída para países da banda de
cá do mundo - enfim, com sua candidatura lançada sòmente
alguns dias antes do pleito, sua eleição está
garantida. A soma de seus votos é um recorde nas eleições
municipais de São Paulo, pois Cacareco, sozinho, totaliza
muito mais do que a legenda mais poderosa. A média do seu
eleitorado mantém-se firme, com 20 a 30 votos por urna, em
todos os bairros, do mais pobre ao mais rico. Aliás, o fenômeno
político encarnado por Cacareco é algo que sòmente
poderia ser explicado por algum sujeito muito entendido em dialética:
sua candidatura ganhou corpo no seio da massa, de maneira espontânea,
conquistou o restinho da classe média que ainda não
morreu de fome e atingiu as mais altas camadas da burguesia. Ainda
assim, tudo foi tentado contra êle: as “forças
ocultas que tentam combater as correntes populares”
investiram, pelos jornais, rádios e TV, numa campanha ruidosa,
com o objetivo precípuo de evitar o ingresso do “elemento
perigoso ao regime”
na versão paulista da Gaiola de Ouro. Tal campanha ficou
sem resposta. Cacareco não tinha acesso às fontes
de divulgação. Em compensação, êle
também não se aborreceu: continuou sua vidinha de
“playboy”
pobre (o tal que não joga damas de nenhum andar, mas come
e dorme e não faz nada). O seu comitê eleitoral continuou
funcionando no Jardim Zoológico de São Paulo, e Cacareco
sòmente se desnorteou quando um dos seus mais ferrenhos oponentes
dedicou todo um editorial à sua candidatura, no jornal mais
conservador da capital paulista. Depois Cacareco se zangou quando
foi intentada (e conseguida) uma solução extralegal
e antidemocrática para sua candidatura: a altura dos acontecimentos
em que eleitor do Cacareco se portava como torcedor do Santos F.
C. - peito estufado e ar de “já
ganhou”
- as “forças
ocultas”
conseguiram que o candidato popular fôsse “exilado”,
dois dias antes da eleição, para o Rio de Janeiro.
O “golpe”
consumou-se na calada da noite, mas a coisa não foi tão
calada assim: sem mais aquela, enfiaram-no num caminhão.
Aí, sim, êle se danou. Ficou perigoso. Não só
para o regime, mas (e principalmente) para quem estava por perto.
Mas o “Povo”
e as “Classes
Oprimidas”
foram magnificamente à forra e concederam, aproximadamente,
cem mil votos a Cacareco. Êsse movimento orginal surgiu, agora
se sabe, num bairro dos mais populosos de S. Paulo: Osasco. Êsse
bairro crescera e desejava agora a sua autonomia. Um típico
caso de gigantismo. Houve um legítimo movimento em prol da
emancipação de Osasco. Com a proximidade das eleições
paulistas, já subiam a 300 os candidatos do famoso bairro.
Acontece que o Supremo Tribunal repudiou as pretensões dos
cidadãos de Osasco. Daí a reação original:
100 mil cédulas foram impressas e tôdas com o nome
do popular “Cacareco”,
como candidato. Afirma-se agora que o movimento da gente de Osasco
atingiu outras ruas e outros bairros. Virou candidatura nacional.
Com isso, Cacareco virou “excelência”.
Pode ser que êle não chegue a tomar posse, mas se transformou
no vereador que mais come (sem aspas) no mundo. E quando Cacareco
voltar do “exílio”,
o PC (Partico do Cacareco, repetimos) “terá
reservada para êle não uma simples vereança,
mas uma cadeira de deputado”.
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