Zé
Carlos adotou Pelé
Texto
de AUDÁLIO DANTAS Fotos
de RONALDO MORAES
Um garôto
de dois anos, moreninho puxado a jambo, apareceu outro dia na porta
de Dona Raimunda. Sua mãe, sem recursos para mantê-lo
(feijão muito caro), fêz um pedido:
- Dona Raimunda, a senhora não quer ficar como Zé
Carlos?
Dona Raimunda olhou bem para o garôto (magrinho e de grandes
olhos tristes) e foi consultar os seus “meninos”:
- O que vocês acharam?
Os “meninos”
- Pelé, Dorval, Coutinho, Sormani e Zé Maria, da família
do Santos F. C., e que vivem como irmãos na casa de Dona
Raimunda - trocaram olhares. E olharam para os grandes olhos tristes
de Zé Carlos. Pelé, com o seu sorriso de menino bom,
aproximou-se e ganhou um sorriso. Depois, Zé Carlos sorriu
para todos. Houve acôrdo.
- Tá bom, Dona Raimunda. A gente fica com o menino.
Zé Carlos ficou. Ditadorzinho, “escalou”
Pelé para titio.
AGORA, Zé Carlos é um garôto feliz, de grande
olhos alegres. Reina na casa de Dona Raimunda (o “Ninho
dos Cobras”,
como querem os cronistas esportivos). É um reizinho que habita
uma das casas mais famosas da cidade de Santos. Engorgou, aprendeu
a chutar bola (Pelé é um dos professôres) e
a fazer caretas (por conta própria).
Além de Péle e dos outros “Titios”,
Zé Carlos tem os “velhos”
para ditar as suas vontades: Dona Raimunda, “escalada”
para vovó, e “Seu”
Raimundo (ex-campeão de bola-ao-cêsto, atual massagista
do Santos F. C.), dono da casa, que desempenha muito bem o papel
de vovô. Todos transformados em “corujas”,
encantados com as gracinha do menino. E condescendentes com as traquinagens,
que não são poucas.
No “time”
de Dona Raimunda, o dono da bola, do apito, das camisas e do campo,
é mesmo o Zé Carlos: quando êle não quer,
não tem jôgo. Mas, quando quer, todo o mundo tem que
ir para o quintal. Chega com a bola, puxa Pelé pela manga,
arranca Dorval de junto da eletrola (Dorval tem mania por discos),
“convoca”
a casa inteira para o “treino”.
E acontecem coisas incríveis no quintal de Dona Raimunda.
Por exemplo: se Pelé, campeão que faz os estádios
do mundo virem abaixo, insiste em ficar muito tempo com a bola no
pé, Zé Carlos fica bravo, dá o estrilo, esperneia,
chora. O jeito é entregar a bola, deixar que Zé Carlos
faça com ela o que bem entenda. Muitas vêzes, êle
resolve acabar com a “partida”:
agarra a bola, bem agarrada, e sai de “campo”.
E faz beicinho. Não diz, mas a turma entende o que isto signífica:
“Não
há mais jôgo”.
Coutinho, quase tão garôto quanto Zé Carlos,
protesta:
-Mascarado!
O “Ninho
dos Cobras”,
que já era uma casa alegre antes da chegada de Zé
Carlos, está muito mais alegre agora. Até “Mário
Lanza”,
um canário de estimação de “Seu”
Raimundo, passou a cantar mais afinado. Coutinho, menino crescido,
passa horas e horas a trocar caretas com o garôto: Dorval,
muito ciumento de seus discos, acha até graça quando
vê um samba de teleco-teco espatifado no chão. E Pelé,
êste já se acostumou com os líquidos “desrespeitos”
de Zé Carlos. Até a sua farda verde-oliva de passeio
foi devidamente “desrespeitada”...
Zé Carlos, reizinho, ditador de palmo e meio, é mesmo
o dono da bola. Deixa qualquer campeão do mundo na “cêrca”.
Além do prestigío de que goza no “time”
de Dona Raimunda, é admirado pela garotada da vizinhança,
é um “campeãozinho”
da rua.
Apontam-no:
- Aquêle é o sobrinho do Pelé!
- É verdade que êle vai ser jogador de futebol?
- Claro! O Pelé tá treinando êle!
Tanto Pelé como os outros “meninos”
de Dona Raimunda acham que Zé Carlos tem jeito para lidar
com uma bola de futebol. Mas, isso não quer dizer que êle
seja um craque quando crescer. Pelé, muito compenetrado no
papel de titio, dá a sua opinião:
- Se o menino nasceu pra jogar bola, tá certo. Jogador de
futebol tem que nascer pra isso, sabe? O resto é com a sorte.
A verdade é que o futuro de Zé Carlos já preocupa
os “meninos”
de Dona Raimunda. E todos estão de acôrdo em fazer
uma “vaquinha”,
separar dinheiro “pra
pagar os estudos do garôto”.
Mas o ingresso de Zé Carlos no “association”
não está muito longe: êle já tem uma
camisa com o emblema do Santos F. C. e, qualquer dia dêstes,
estreará como mascote.
Zé
Carlos conseguiu impor uma de suas vontades (estava difícil)
quando esta reportagem estava em realização: queria,
a todo custo, acompanhar “Titio”
Pelé ao quartel. E “escalou”
o repórter, bem na hora de Pelé sair para iniciar
o seu turno de sentinela. O jeito foi levá-lo junto. No quartel,
o resto foi com o Cel. Wilson Monerat, subcomandante do 6.º
Grupo de Artilharia de Costa Mecanizado que, gentil e democràticamente,
autorizou a visita:
- Pode trazer o menino.
E o menino transpôs o grande portão do quartel. Recebe-o
o próprio Cel. Monerat. Pelé, muito desajeitado, fêz
a apresentação:
- Êste é o Zé Carlos, meu sobrinho ...
Zé Carlos, que ainda não aprendeu a dizer “muito
prazer”,
cumprimentou o Coronel com a mais amável de suas caretas...
Depois, partiu para uma verdadeira incursão. Tomou tudo de
assalto, brincou até com os sargentos! O Tenente Otacílio
e o Sargento Wellington serviram de cicerones, fazendo as honras
da casa ao “reizinho”.
Quanto a Pelé, não se divertiu nada: os soldados começaram
a chamá-lo de “babá”.
Encabulou, ficou sem jeito. E, além do mais, tinha que ficar
de sentinela. Sabia o que ia acontecer na saída de Zé
Carlos. E aconteceu: Zé Carlos, ditador de palmo e meio,
fêz as suas “visagens”
em volta de “Titio”,
que naquele instante não podia ser nem tio nem o Pelé
das grandes lutas esportivas: era apenas o soldado 203, de sentinela.
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