Os órfãos de pais vivos

Texto e fotos de LUCIANO CARNEIRO

ESTA é a semana em que os jornais e revistas falam da criança. Dia 12 de outubro está aí. Antigamente, era um dia que lembrava sobretudo Américo Vespuccio e sua descoberta. Hoje, o dia 12 é muito mais o Dia das Crianças que o abstrato Dia das Américas. Não é, garotada?

Claro, muita gente condena tais festas. O Dia das Crianças, como o do Papai, o da Mamãe e o Dia dos Namorados, não passaria de um abuso - de mera promoção comercial, das lojas de roupas e brinquedos. Mas para saber se há de fato abuso, ou se o abuso deve ser coibido, é preciso fazer um inquérito entre as crianças. Só elas podem dizer se os presentes do dia 12 são de mais ou de menos. Na realidade, para se acabar com as festas à primeira vista abusivas ou ilógicas, seria preciso mudar muita coisa neste mundo. Para começar, os homens grandes teriam de celebrar o Dia do Trabalho não como agora, repousando, mas trabalhando mais. Não é, garotada?

Êste ano, nossa reportagem do Dia das Crianças não mostra, como nos anos anteriores, o desamparo em que a maioria delas vive. Nem ensina como tratá-las melhor; ou diz como as famílias ricas cuidam de seus nenens. Êste ano, visitamos o Educandário Vista Alegre, em Alcântara, a casa-grande dos filhos de hanseníanos no Estado do Rio. São êles órfãos de pais vivos, mas vivem uma infância feliz porque determinadas pessoas respeitam uma velha lei de moral, anunciada há séculos - a responsabilidade não é apenas de Deus; o homem é responsável pelos irmãos que precisam de ajuda.

NO Educandário, a primeira coisa que nos chama a atenção, afora os jardins e as instalações, é o bom-humor das crianças. O fato de a mesma moléstia ligar o destino de seus pais, e mantê-los segregados de si e do mundo, em nada afeta a sua infância. O repórter foi até lá, sem aviso prévio. Não disse sequer à diretoria que ia fazer uma reportagem. E quando empunhou a sua Leica, para bater estas fotos, não teve qualquer dificuldade em fixar imagens de pura alegria. Porque as crianças sabim rir. Na sala de aula, sim, tinham uma disciplina a obedecer e obedeciam. Mas, fora, viviam tão à vontade como se estivessem em sua casa - e estavam. Fora das horas de aula, refeição ou repouso, se perdiam no extenso pátio, e brincavam de pés no chão, alma livre como de passarinho.

Se o destino das crianças depende realmente da infância, então o futuro daquelas crianças parece bem resguardado. A presunção é científica:

- Só podemos ensinar uma criança a cuidar de si mesma, se permitirmos que ela o tente. Os erros que ela cometer cimentarão o seu aprendizado na vida.

Disse uma professôra ao repórter.

ESSAS crianças devem sua boa situação, primàriamente, a D. Eunice Weaver, presidente da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros. Foi ela quem espalhou pelo Brasil inteiro os antigos preventórios, que hoje têm o nome, mais correto e mais humano, de Educandário. Mas com quem elas privam dia a dia e de quem recebem uma afeição direta, é uma senhora de Niterói. D. Edina Lellis Leite. Eleita presidente da Sociedade Fluminense de Assistência aos Lázaros. D. Edina tem sido nesses dois últimos anos o Anjo Bom do Vista Alegre. Apoiada, em tôda linha, por seu espôso, Sr. Heráclito Lellis Leite, D. Edina fêz grande reforma no Educandário, liquidou dívidas avaliadas em um milhão e 400 mil cruzeiros, e se deixou enternecer por 200 filhos adotivos. Luta com enormes dificuldades, mas não se arrependeu de ter aceito o encargo. Faz um bem tremendo à alma da gente, disse.

WALDIR tinha apenas um dia de vida, ao chegar. Mal nasceu, teve de ser afastado de sua mãe, a exemplo do que sucedera a quase todos os meninos que o receberam no Educandário, diante do repórter.

Quando completar seis anos de idade, êle terá permissão de ir conhecer os pais. E dêsse dia em diante os visitará três vêzes por ano - no dia do papai, no dia da mamãe e no Natal - e poderá acenar-lhes de longe, contar suas histórias e de longe tomar-lhes a benção. (De longe - até que o progresso da medicina traga a notícia definitiva, tão esperada, aquela que permitirá abraços e beijos de perto, e o sonho de um convívio comum.)

Quando a diretora do Hospital, D. Maria W. Thomsen, acomodou Waldir no berçário, uma jovem de 17 anos, que também chegara com aquela idade, pediu licença e pregou no véu do berço uma rosa apanhada no jardim. Era mais um gesto de boas-vindas ao novo irmãozinho.

 

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