Quatro personagens que transformaram o Tenente Bandeira no prêso do cubículo 21

EIS outra janela do Sacopã. Uma personalidade coletiva, que temos tocado de leve, sem revelações mais profundas: o 2.º Distrito Policial, com sede em Copacabana. Pois lá, entre muitas paredes brancas - principalmente da sala do Delegado para a do cartório - que se construiu o processo condenador de Bandeira. 500 páginas de acusações que não convenceram, até agora, a opinião pública, foram dactilografadas naquele palco de vedetes, despidas aqui, moralmente, pelo Deputado Tenório. Ali começou o capítulo de 15 anos de prisão para Bandeira. Ali bateram testemunhas, umas autênticas, outras sob medida, autoras de confissões à moda da casa. A história daquela Delegacia daria um livro grosso. Por enquanto publicaremos, apenas, um tópico dêste volume negro. Um capítulo da grande luta dos poderosos indícios que selaram o destino do homem do cubículo 21. Um pouco da biografia do velho casarão da Rua Hilário Gouveia, onde se levantou um muro contra os farejadores da Imprensa. Um quase nada de fatos. Um flagrante do que viveu a Delegacia, nos idos de abril de 1952. Sôbre êste fato, Tenório fêz um diálogo.

UBIRATAN: - Sabe alguma coisa sôbre o que se passou no 2.º DP, por ocasião do inquérito em tôrno do crime do Sacopã?

TENÓRIO: - A Delegacia de Copacabana, ao tempo do Sacopã, foi um mundo de fatos. Foi lá que se fabricou o inquérito que jogou Bandeira na cadeia. Recordo que, no dia seguinte ao do crime (8 de abril de 52), o Tenente Bandeira estêve naquela Delegacia, para indagar por Marina. Tinha visto o retrato da môça nos jornais, e foi saber o que havia acontecido com ela. O homem que seria escalado para matador de Afrânio, cujo crime Walton Avancini teria presenciado, apareceu no Distrito Policial, tranqüilo, em trajo civil, para perguntar por sua namorada. Não se preocupou com Avancini, que poderia ter deixado o Citroen de Afrânio, não para viajar para S. Paulo (como declarou o farsante), mas para denunciar o criminoso, o homem que assassinara o seu amigo, o bancário. Bandeira procurou o DP de Copacabana sem receio, sereno, porque estava inocente, jamais supunha que o fôssem envolver no assassínio de Afrânio. Ou um criminoso procuraria a Polícia, sabendo da existência de uma testemunha de vista do seu crime, amiga da vítima? Na mesma tarde Bandeira não só tomou banho de mar com Marina, como dançou, à noite, tal era a sua despreocupação.

UBIRATAN: - Mas quem transformou Bandeira em matador? Você poderia dar nome aos bois, Tenório?

TENÓRIO: - O povo está cansado de ler o nome dêles. Falarei, mais uma vez, dêste elenco ilustre. São atôres de uma peça sinistra, que lutam, ainda hoje, para estrangular o grito da consciência. Não posso acreditar que esta gente posso viver feliz, com Bandeira inocente amargando sua desventura num cárcere. Veja, Ubiratan, o Sr. Hermes Machado, o Delegado, amigo e confidente de Gregório Fortunato e Pandiá Pires, ambos da guarda pessoal do Catete, na época. O segundo, uma espécie de sombra do Delegado, que êle teleguiava, sugerindo diligências, descobrindo testemunhas, negociando francamente dentro do inquérito a condenação do Tenente. Veja, meu amigo, aquêle Pandiá de cabelos brancos, um Dom Juan do século 18, a quem deram a missão de vigiar de perto o Delegado, instruí-lo nos objetivos condenatórios. Pandiá parecia um corpo estranho nas diligências. Pouca gente sabia do seu verdadeiro papel, como homem de ligação entre a Polícia e o grupo de autores materiais (e intelectuais ) do assassino do bancário. Como de outra maneira se explicaria a sua presença continuada nas diligências, as noites que perdeu dentro e fora do 1.º DP, êle que não era policial, nem autoridade a quem pudesse interessar o processo? Rui Dourado, o comissário de má reputação, era a vedete do show rocambolesco. Foi e é amigo incondicional de uma figura ilustre desta República, a cujo gabinete serviu, como prêmio pelo seu sucesso. De Rui falaria horas a fio . Foi, por excelência, o aliciador de testemunhas, um infatigável construtor de provas. Temos um Cincinato Gonzaga, chefe dos escrivões do Distrito de Copacabana. É amigo de Rui e Hermes. Homem cujo padrão de vida, nestes dias inflacionados, é superior ao de qualquer Ministro do Supremo, que não deve possuir Cadillac, como Gonzaga, nem dar automóvel de presente a genros. Barreto e Iná, escreventes do cartório, são feijão do mesmo saco, peças da mesma máquina corrutora. Idem o Detetive Drumond, provàvelmente os oficiais de diligências.

UBIRATAN: - Você pode revelar algum fato importante relacionado diretamente com o 2.º DP?

TENÓRIO: - Posso sim. O que não posso é revelar o nome da testemunha em que me firmo para fazer esta revelação. Se o fizesse, estaria, por certo, criando problemas para a minha testemunha, atirando. Conta-me a testemunha que, por ocasião de vexame, o Sr. Hermes Manèzinho, João Lacerda Filho e outros. Não arriscarei mais uma testemunha, mas nem por isso deixarei de adiantar para você alguns fatos que comprovarei em Juízo. Exemplo: Marina, sob o impacto da coação sofrida na Delegacia, desmaiou certa vez no gabinete do Delegado. Conta-me a testemunha que, por ocasião do vexame, o Sr. Hermes Machado afastou do local as pessoas presentes, para que não vissem o quadro em todo o seu comprimento. Uma das pessoas afastadas pelo Delegado foi comprar, na esquina, um refrigerante para a môça. Alguém foi buscar um médico. Ficará também provado, na Justiça, que Hermes e Rui pediram, pelo amor de Deus, que êste fato não fôsse comentado na rua.

UBIRATAN: - Sabe informar se alguma testemunha foi recusada, na Delegacia, em virtude de não ter acusado o Tenente?

TENÓRIO: - Esta pergunta será suficientemente respondida. Houve um casal que viu os lances do crime de uma distância de 10 metros, podendo identificar os autores. Os policiais que foram buscar o casal, para depor, dirão, na Justiça, do vexame sofrido pela dupla de testemunhas. Motivo: o casal não acusou a Bandeira. Aludiu a 3 personagens, que, já nesta altura dos acontecimentos, serão identificadas. Talvez eu fale delas, com segurança e provas, já na próxima reportagem de O Cruzeiro.

UBIRATAN: - Você me disse, há pouco, que o pessoal de Hermes Machado examinou a possibilidade de rasgar o processo e iniciar um outro. Você confirma isto?

TENÓRIO: - Confirmo com tôdas as letras. Rui, Emerson e Hermes reuniram-se para estudar esta possibilidade. Temeram, a certa altura do fatos, serem desmascarados. Sentiram que não conseguiriam, por mais que fabricassem testemunhas, encurralar Bandeira com seus indícios francos. Rui tivera até um atrito com um seu auxiliar, que se recusou a falsificar um documento a ser usado contra o Tenente. Pois bem: após a reunião dos 3 grandes da farsa-Sacopã, ficou decidido que Bandeira continuaria como indiciado. Rui argumentou que o Júri absolveria o Tenente, e o caso terminaria sem grandes conseqüências. Não supunham pudesse Bandeira ser condenado, o que seria um desastre para êles. Eis porque, no relatório do Delegado, êste escreveu que lavaria as mãos como Pilatos, caso aparecessem outras pessoas envolvidas no crime.

(Tenório fêz revelações mais graves, que deixaremos de publicar, nesta edição. Na próxima, quando provàvelmente algumas testemunhas importantes já tiverem prestado declarações à Justiça, prosseguiremos na devassa do 2.º DP. Narraremos, então, uma história límpida, sem rodeios. Uma história fartamente testemunhada.)

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