Texto de Ubiratan de Lemos   -   Fotos de Indalécio Wanderley

Provas de Tenório a caminho da Justiça

HÁ poucos dias, o Tenente Bandeira entregou ao Deputado Tenório Cavalcanti um dossier de fatos e comentários. São retalhos dispersos de suas memórias de cadeia. Mais exatamente tópicos informativos sôbre o processo que o condenou, que Bandeira conhece mais que ninguém. Enquanto, nas ruas livres, se discute se o Tenente é ou não o matador do bancário - lá, no seu exílio entre grades, o ex-oficial da Aeronáutica revê mentalmente o grosso volume que lhe marcou a existência. Sem querer repetir Caryl Chessman, segundo Nelson Hungria, um grande jurista, o Tenente discute os indícios que o condenaram, da mesma forma que apresenta fatos inéditos e graves. Também é verdade que lhe chegam, todos os dias, informações preciosas: a humilde contribuição dos simples, os que acreditam sinceramente na sua inocência. Reproduziremos, nestas páginas, alguns trechos das confissões de Bandeira a Tenório.

1 - O depoimento de Walton Avancini foi prestado depois do meu. Assim foi feito para que certas informações de Avancini (as essenciais) combinassem com as minhas. O caso da roupa que eu vestia, no dia do crime, é típico. Avancini declarou que eu trajava calça cáqui, camisa esporte. Eu havia, antes, descrito êste mesmo traje.

2 - Chamo atenção dos que me acusam para o seguinte fato: Taunay e o motorista Gomes, testemunhas presenciais, descrevem o criminoso de modo diferente. Taunay diz que o assassino vestia calça parda, camisa da Aeronáutica. O motorista afirma que o matador estava de terno completo, com gravata. Qual dos dois fala a verdade? Como, na penumbra da Lagoa Rodrigo de Freitas, Taunay poderia precisar que o criminoso usava camisa de farda de côr bege? Ora, o bege, na penumbra, poderia ser tomado por cinza, azul-claro e outros tons macios. Depois, tanto Taunay como o motorista afirmaram que o criminoso parecia comigo. O motorista, particularmente, que viu o criminoso de uma distância entre 50 e 60 metros, afirma isto sem pestanejar. Eu convido os que descrêem da minha inocência a visitar a Lagoa, à hora do crime (falo com base no que dizem os meus amigos), e a ver se distinguem fisionomias a esta distância, à noite.

3 - A testemunha Gilberto Nogueira Bastos, que afirma ter dado carona a Marina e sua mãe, que pediram a êle que rodassem para o Leblon, onde eu me encontraria à procura de Afrânio, é outra acusação infantil. Nogueira foi trazido meses depois de me envolverem no crime, pelas mãos de Rui Dourado. O mais grave é que Nogueira é amigo de Rui, empregado de um engenheiro que construiu a casa do pai do Comissário. A presença de Nogueira justifica-se pela necessidade de reforçar a acusação contra mim.

4 - Contaram-me que o advogado de Marina, o Sr. Plínio Moreira Lemos, era oficial-de-gabinete do Prefeito João Carlos Vital. Há uma carta sua no processo, em que êle desmente tenha assistido ao depoimento em que Marina me acusou, pois no primeiro e no terceiro depoimento ela me inocentou. O segundo, o depoimento acusador, Marina o prestou sob coação. Ela mesma me disse isso, chorando, pedindo-me perdão. Eu a perdoei e desejo que ela seja muito feliz.

5 - Não sei que mal fiz ao psiquiatra Cláudio de Araújo Lima. Não sei explicar por que êle fêz aquilo comigo. Só sei que êle ficou me observando, quando eu prestava declarações no Distrito Policial. Depois redigiu um laudo, uma peça técnica, configurando o meu quadro psicológico. Deu-me como homem frio, capaz de matar, sem me examinar às direitas, sem testes, sem nada, pois, como disse, apenas me observou por instantes. Esta sua impressão reforçou a acusação contra mim. Ajudou a condenar-me. Foi trunfo na mão da Promotoria. Ninguém disse que o meu exame, na Aeronáutica, diz que sou homem normal, de reações equilibradas etc.

6 - Encontrava-me um dia na casa do Dr. Romeiro Neto, quando o telefone tocou. Era alguém que denunciava outro recurso dos acusadores. Queriam, a todo transe, encontrar uma impressão digital minha no Citroen do bancário. O Dr. Romeiro chegou a denunciar o fato ao Chefe de Polícia, mas esqueceu de abordá-lo por ocasião do julgamento. Acho que êle não o fêz por mal.

7 - Os indícios contra mim, frágeis, forjados, que não poderiam ir nem à denúncia, chegaram à pronúncia, ao Júri e à condenação - fato virgem na história do fôro. Havia mesmo uma linha de condenação naquele Júri cruel. Êles condenaram, naquele mesmo mês, uma velhinha, cuja casa foi assaltada por perigoso malandro, e ela, para defender-se, feriu o bandido, infelizmente matando-o. Até a Promotoria pediu a absorvição, mas o Júri condenou a velhinha apesar disso.

8 - Gostei muito de uma reportagem de David Nasser, na qual o grande repórter cita Nelson Hungria: O Júri não passa de uma encenação teatral. Acrescenta, ainda, que o Júri julga pelo sentimento, fica ao sabor do talento acusatório ou da defesa. Gostei de uma tirada do próprio David: Há juízes que são duros como beiços de sino, ora moles como mãos desossadas.

9 - Quero que saiba que nunca fui homem de briga. Recordo que briguei uma só vez, na minha vida de rapaz. Foi quando eu e outras pessoas, em Fortaleza, fomos agredidos por uma arruaceiro, alcunhado de Cabeleira. Rui Dourado colheu o episódio, no Ceará, à sua moda. Passei de agredido a agressor. Ignoraram a própria carta do diretor do clube (Maguari), onde se deu o incidente, na qual ficou provado que Cabeleira estava proibido de entrar naquela associação, por ser pessoa indesejável, briguenta. Esta carta do Dr. Lauro, o diretor do clube, também não foi comentada. O que se soube e se espalhou foi que eu era homem mau, de temperamento explosivo, capaz, portanto, de matar o bancário.

10 - Sei que Joãozinho, irmão de criação do Comissário Dourado, era amigo intimo das mulheres que me acusaram, especialmente de Lêda e Elda Péres. Estas senhoras, que nas primeiras declarações me inocentaram, passaram a acusar-me depois das visitas frequêntes de Rui ao apartamento delas. Foram Lêda e Elda (mãe e filha) que falaram de um revólver calibre 32, carga dupla, Colt, que seria de minha propriedade, arma que eu teria exibido depois do crime, sob o pretexto de pedir a Marina que a guardasse, pois a Polícia poderia encontrá-la em minha casa. Elas só faltaram declarar o número do revólver, tal a descrição perfeita do tipo da arma. Ora, como é que um criminoso, que tem o problema de esconder uma arma, logo após o cime, vai exibi-la a outrem e pedir que a escondam? Será que no Rio só haveria um lugar para esconder uma arma, precisamente a casa de Marina? Esta história - repito - foi construída por Rui Dourado, condutor dos depoimentos posteriores de Elda e Lêda. E quando Marina confirmou êste detalhe acusador, o fêz no seu segundo depoimento, sob coação de Hermes Machado, Emerson de Lima e Rui Dourado.

11 - Não é verdade que a Justiça togada tenha reconhecido a minha culpa. Ela não entrou, ainda, no mérito da minha culpa ou da minha inocência. O Tribunal pronunciou-se, apenas, sôbre um habeas corpus do Dr. Romeiro, que considerava nulidades, formalidades e irregularidades, jamais o detalhe da minha inocência.

12 - Não sei por que dois jornais atacam tanto a mim e ao Deputado Tenório, o meu bravo defensor. Alguns publicam gritantes inverdades, para que eu continue na cadeia. Eu apelo para a família dos diretores dêstes jornais, para suas espôsas, filhos e mães: não deixem que êles façam isso comigo. Bastaria que êstes jornais publicassem fielmente o noticiário, sem investir contra a esperança de um inocente, de um homem que jura, perante Deus, que nunca matou ninguém. Tenho fé em Nossa Senhora de Fátima, que, um dia, o povo saberá que falo a verdade. Saberá que sou inocente, graças a Deus.

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