Ninguém
conhece ninguém
JOSÉ
AMÁDIO apresenta JANGO GOULART
DIZEM que latim de mineiro, riqueza de paulista
e valentia de gaúcho, só a gente conferindo. Pouco
sei do latim das alterosas ou do ouro da paulicéia.
Mas no caso do gaúcho da fronteira, confiram para ver uma
coisa.
Desafôro
& Adaga
Jango é
homem do pampa, do sul, da geada, do minuano (que detesta). Descende
de gente que nunca, ou quase nunca, levou desafôro para
casa. Gente que até pouco tempo fechava compromisso com
fio de barba e ainda aposta carreira (de cancha reta) sem “casar”
dinheiro. Gente de um quadrante onde palavra é documento
assinado (e passado em cartório), onde não se chama
homem de bôbo e não se olha atravessado para ninguém
sob pena de adaga no lombo ou sete palmos de cova num bucólico
cemitério e colina. Vocês não acreditam? Pensam
que é farofada? Que é gauchada?
Pois dêem um pulinho até lá
e confiram.
História & Galpão
João
Belchior Marques Goulart cresceu sôlto no campo, feito potro,
e aprendeu a história (cinematográfica) do Rio Grande
do Sul num galpão de fazenda. Os mais velhos reunidos,
chimarrão correndo a roda, tição de fogo
dando vida a cigarro de palha, calor da imaginação,
foi ouvindo as aventuras de Garibaldi, as proezas do extraordinário
Pinto Bandeira, as façanhas de Zeca Netto, as manobras
de Borges de Medeiros. Degolar - verbo comum. Mandar surrar -
brincadeira de salão. Maragatos. Chimangos. Lenços
Vermelhos. Negrinho do Pastoreio. E havia uma figura maior ainda
para êles - Getúlio Vargas, já todo-poderoso
na zona. Que fazia; que acontecia. Que mandava; que desmandava.
Jango cresceu e tornou-se amigo de um dos heróis da sua
infância.
Essa amizade talvez tenha afetado os destinos
do Brasil.
Carreira
& Escada
Há
histórias que não têm início. Outras
acabam antes de começar. Sei vagamente que havia um velho
no ostracismo. Um velho cheio de sabedoria, de malícia,
de experiência e de amargura. Jango, garotão, era
seu companheiro de silêncios, de madrugadas em lombo de
cavalos. Amizade não se sabe como começa: vai nascendo,
vai brotando, vai se enraizando, espicha na primavera e quando
menos se espera é árvore ampla, de sombra e frutos.
Amizade entre homens: coisa que tem ampla dignidade. Quando Jango
viu, era deputado estadual, deputado federal, secretário
do interior (RGS), presidente nacional do PTB, ministro do trabalho,
líder dos trabalhadores (de verdade), presidente do senado,
vice-presidente da república. O acaso, nas coxilhas levemente
onduladas dos pampas, construiu-lhe uma escada.
Ainda não parou de subir.
Novesfora
& Oposição
Novamente
candidato a vice no próximo 3 de outubro, convém
que vocês conheçam um pouco do seu “outro
lado”
- como é, como não é, como pensa ser e como
eu penso que seja. Quando o vejo, sempre imagino um relógio
adiantado - não me perguntem por que: não saberia
explicar. Tem voz macia. Olhar que passeia pelo interlocutor como
que sondando emboscadas. É môço de 44 anos
e jamais perderá o sotaque gaúcho. Até decorar
as tabuadas políticas e interpretar os novesfora da oposição,
deve ter apanhado bastante. Em política, o que menos corre,
voa.
Um descuido da perdiz e lá vem carga
de chumbo.
Dupla.
Campo & Política
Em 1946 engajou-se
na candidatura Dutra a pedido do Velho. A luta política
era aberta no Rio Grande - estado mais brigão desta república.
Lá, como no nordeste, desavenças de família
e desacertos políticos passam, de avô para neto.
Sem saber bem como nem por que, Jango viu-se eleito deputado estadual.
Tinha 28 anos. Exerceu apenas um têrço do mandato
pois era o chefe da casa e da fazenda. Queria largar tudo para
cuidar do seu campo e do seu gado.
- Preciso de ti.
Quando Getúlio pedia, ninguém
sabia dizer não.
Volta & Eminência
O resto,
vocês devem saber. Resumindo: surgiu a campanha do “Êle
voltará”.
Jango elegeu-se deputado federal. Tomou conta da secretaria do
Interior - uma das fases mais duras da sua vida. Getúlio,
já eleito, chamou-o ao Rio. Acabou na direção
do PTB. Como quase morava no Catete, era tido como eminência
parda e dono do famoso “superministério”.
O govêrno Vargas era difícil, a oposição
impiedosa, surgiam reivindicações de todos os lados.
Viu-se no Ministério do Trabalho.
Diz que envelheceu 10 anos em 8 meses.
Crise & Renúncia
Revolucionou
a política ministerial. Deu vida à casa dos trabalhadores,
abriu portas, quebrou tabus, freqüentou sindicatos, tomou
cerveja com operários, recebeu comissões em seu
apartamento de hotel (Regente). Claro: logo o tacharam de agitador,
de comunista, embora fôsse atacado pelo próprio partido
comunista. Recebia no lombo o impacto da tremenda e impiedosa
campanha, que se fazia contra Vargas. Quando surgiu o Memorial
dos Coronéis, percebeu o que estava escondido em tudo aquilo.
Procurou o presidente:
- Há uma crise militar em marcha.
Estou aqui como seu amigo. Estou servindo de pretexto para atacarem
seu govêrno. Ofereço-lhe o ministério. Queime-me
Vargas recusou. Êle insistiu. Vargas concordou, contrariado.
Mas os ataques continuaram. Jango era pretexto mesmo.
Qualquer coisa seria pretexto.
Assim amanheceu o 24 de agôsto.
Derrota & Reconhecimento
De novo no
sul, candidatou-se ao senado em 1955. Nunca imaginou perder. Ninguém
imaginava que perdesse. Perdeu. Mas tinha amigos entre os trabalhadores
de todo o Brasil e houve um movimento de sindicatos para fazê-lo
presidente da república. Sentindo não ter condições,
preferiu unir fôrças para derrotar o 24 de agôsto.
Juscelino já se lançara candidato. Conversaram.
JK tivera para com êle uma atitude corajosa. Nunca esqueceu:
quando ministro do trabalho, debaixo de pau, massacrado pelos
jornais, foi a Belo Horizonte e as entidades patronais publicaram
nota violenta para que o povo mineiro não recebesse o agitador.
JK (que era governador) não só o convidou a jantar
em palácio como compareceu ao seu comício.
Isso decidiu tudo.
Barco & Tempestade
Os políticos
consideravam perigosa a sua presença na chapa, embora eleitoralmente
boa. O então general Teixeira Lott disse-lhe, quando foi
procurar conselho:
- Melhor será que o senhor conduza o barco sem entrar nêle.
Respondeu:
- Em hora de tempestade é muito difícil conduzir
um barco sem entrar nêle. Além disso, já entrei.
Não posso mais sair. É questão de honra,
de dignidade pessoal.
Lott entendeu. Falou:
- Estou apenas dizendo que o ideal seria que o senhor não
fôsse candidato. Isso acalmaria a tempestade. De qualquer
modo, farei tudo para manter a situação. Precisamos
atravessar a onda e chegar às eleições.
Depois daquele empossa não empossa que vocês já
conhecem, a tempestade de fato acalmou. O povo entendeu que Jango
não era comunista coisa nenhuma, nem agitador - tanto que
hoje tem livre trânsito no PSD e é entendido mesmo
por uma ala da UDN.
E o agora Marechal está com êle
no mesmo barco.
Inflação & Angústia
O início
do govêrno JK foi difícil, como se sabe. Ameaças.
Emissões. Obras de grande vulto que não traduziam
realidade imediata. Custo de vida subindo. Metas que só
há um ano o povo veio a compreender e reconhecer. Creio
que se o “agitador”
quisesse, teria pôsto fogo na classe operária.
Botou água fria.
Cavalo & Poesia
Se não
estivesse tão profundamente mergulhado na política
e nos problemas nacionais, trocaria tudo, hoje mesmo, agora, pela
solidão do pampa e pela fazenda. De coração
nunca saiu de São Borja, ereto. Gosta muito de cavalos
e se considera grande cavalheiro. Tocou violão em outras
épocas (tinha um tio bamba) e até hoje se defenderia
no dedilhado se preciso fôsse. Se gosta de poesia? Nunca
teve tempo para gostar. Aprecia os poemas regionalistas de Vargas
Netto. Chegou a decorar alguns.
Seu predileto: o Quero-Quero.
Tempo & Contratempo
Quem manda
em sua casa é dona Maria Theresa. A primeira coisa que
ela fêz, depois do casamento, foi acabar a fogueira dentro
da sala principal da fazenda, cujo chão era de terra batida.
Um negócio meio bárbaro. Jango dirige automóvel
desde os 12 anos. Gosta de dirigir, principalmente quando sai
com os filhos (João Vicente e Denise). Acredita dirigir
bem. Fuma muito. Antes de casar era freqüentador de boites
e não desprezava um bom whisky. Ainda não despreza.
Considera-se grande bailarino de tango. Música, só
as da fronteira. Gosta de dormir quando tem tempo, mas não
tem tempo para sonhar. É o que diz . Não tem tempo
para nada.
Creio que não tem tempo para não
ter tempo.
Frio & Anedota
Claro que
prefere o frio ao calor, pois é homem do Rio Grande. Detesta
vento (principalmente o que assobia). Irrita-o. Não se
julga romântico; admite ser sensível. A quê?
A certos impactos. Que impactos? Sei lá. Foi guri arteiro
e adolescente brigador. Para concluir o curso ginasial, passou
por cinco escolas - ou era expulso ou se expulsava. Não
se considera organizado, principalmente em política. Não
gosta de falar em televisão nem de fazer discurso. Prefere
conversar e, a falar, ouvir. Gosta de anedotas.
Tem mêdo de dentista.
Gafe
& Bruxas
Se já
cometeu alguma gafe? Inúmeras, diz. Principalmente quando
se mete (ou é metido) no café-society. É
católico (praticante quando tem tempo). Mas encontra compensação
no céu porque sua família é tôda religiosa.
Agora mesmo, quando estava em Genebra, deu um pulo à Alemanha
para encontrar com sua velha mãe (73 anos) que fôra
assistir ao Congresso Eucarístico da Baviera. Sua maior
figura humana, depois de Vargas: Oswaldo Aranha. O livro de Alzira
Vargas, está lendo (ainda não teve tempo de terminar).
É grande amigo de Maneco Vargas. Para crença em
fantasma, há uma resposta clássica no Rio Grande,
que também é sua:
- Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay.
Las habrá?
Futebol & Colorado
Vejam vocês: foi craque de futebol, tendo mesmo substituído
jogadores do primeiro time do Internacional de Pôrto Alegre.
Era center-half.
Distribuía o jôgo.
Carta & Amizade
E a carta? Creio que seu depoimento é histórico.
E História não é propriedade exclusiva de
ninguém. Não se pode falar em Jango e omitir Vargas.
Compreendam: eram amigos. E um amigo é para o outro, está
no outro, coisa de misturar sorrisos e lágrimas. Pouca
gente entende isso, porque ser amigo de fato é dom, é
capacidade, é talento. Sei que já falei nisso antes,
mas o problema aqui não é dêles: é
de todos nós. Aquêles que traem a amizade, quase
nunca são culpados: são apenas infelizes. Jango
acha que o original da carta (que Vargas deixou na sua mesinha
de cabeceira) está em poder de dona Alzira.
A cópia que êle recebeu de Vargas
está guardada em São Borja.
Suicídio & Decisão
Passou os
dias 22 e 23 de agôsto (1954), fase aguda da crise, ao lado
de Vargas. Depois da célebre reunião ministerial,
Vargas lhe disse:
- Daqui só sairei morto, pois sou o presidente eleito da
nação e a mim ninguém vai desmoralizar. Tome
êste documento (era a cópia da carta), vá
para o sul e só abra o envelope lá.
Jango pensou que fôsse alguma missão especial. Não
queria ir. Achou que aquêle “só
sairia morto”
era sinal de que Vargas estava disposto a lutar. Resolveu lutar
junto. Se invadissem o palácio, daria um tiro na cara do
primeiro que aparecesse, levaria outro, e pronto. Disse o Maneco:
- O Dr. Getúlio está insistindo. Vou dizer que vou,
mas não vou.
Na aurora de 14 de agôsto, tudo estava mais calmo. Pelas
sete da manhã, foi em casa, sentou-se para mexer em sua
mala; pegou no sono. Hora e tanto depois foi acordado por seus
amigos Doutel de Andrade e o general Aloísio.
- Jango, que barbaridade, você já soube?
Sabia de nada. Pensou que tivesse começado a briga.
Um dêles disse:
- O presidente se suicidou.
Entrou num carro feito doido. Foi freado por uma árvore
do palácio. E quando fala nisso, senhores, eu vos afirmo
(porque vi), faz fôrça para não chorar.
Personagem & Candidato
Assim é,
ou assim me parece ser, o cidadão João Belchior
Marques Goulart. O personagem é meu. O candidato, como
todos os outros, é do Brasil.
A decisão é vossa.