Ninguém
conhece ninguém
JOSÉ
AMÁDIO apresenta MARECHAL TEIXEIRA LOTT
As grandes
coisas exigem silêncio, ou que delas falemos com grandeza.
Grandeza significa: cinismo e inocência. Claro está
que Nietzsche, mestre incandescente que já iluminou minhas
auroras, não emprega o têrmo cinismo na sua acepção
comum. O cinismo dêle está incrustado no medalhão
de uma corrente filosófica. Significa desprêzo às
convenções. Cínico, assim, sempre fui.
Tentarei ser inocente.
Marechais
& História
Lott é
o meu terceiro marechal nesta galeria. Não que eu morra
de amôres por militares. Ou que os deteste. Um homem é
um homem (ou não) independente de como conseguiu se aninhar
na existência. Acontece que os meus três marechais.
(Dutra, Denys e o atual) têm ajudado (por vontade própria
ou não) a escrever a história do Brasil e por isso
sou compelido a escrever a história dêles. Tenho
gostado. Nunca foi preciso que eu fizesse posição
de sentido. No meu batalhão não existem soldados
ou coronéis, mas criaturas humanas, cujo “outro
ladoӎ
o pretensioso objetivo destas páginas. Coisa que raramente
tenho atingido, pois ninguém conhece ninguém.
Muito menos eu.
Impressões
& Economia
Quem vê
o marechal Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott em fotografias,
ou analisa alguns de seus atos em instantes de convulsão
nacional, pensa que, fìsicamente, êle é tão
grande quanto seu nome. Equivoco: qualquer descuido e seria baixinho.
Como descrevê-lo? Forte, de tronco amplo moldado pela ginástica,
ereto, diria de porte elegante, dá a impressão de
ter acabado de sair do banho. Tem fisionomia boa de se olhar.
Não sugere raposismo. Encontro-o em trajes civis, limpíssimo
e bem passado: lembraria um anúncio de whisky escocês
se lhe pusessem bigodões brancos (imagem certa de um lado
e errada de outro, pois descende de escoceses e detesta bebidas).
De relance, parecerá sêco.
Porque economiza sorrisos.
Casmurrice & Mineirismo
Vida é
habito, às vêzes. E isso explica muito: o marechal
tem, digamos, a civilidade (com divisas e estrêlas) de um
militar que passou quarenta e tantos anos na caserna e que de
quando em quando ainda sente ânsias de ordem unida. É
bem educado, e mais não se poderá exigir. Seria
até inadequado que depois dos 60 anos fôsse representar
para as platéias dêste país. Quando o acusam
de casmurrão, defende-se: não nasceu para brincar
com todo mundo. Gosta de gracejar (às vêzes) com
seus parentes, com seus amigos mais íntimos, mas seus primeiros
contatos são, invariàvelmente, sóbrios. Afinal,
tem sangue inglês e holandês.
E ainda por cima nasceu em Minas.
Autenticidade & Simpatia
Na realidade,
parece-me que o marechal gosta de fazer continência a si
mesmo. Mais importante ainda: é fiel a si próprio.
Não se preocupa com a opinião alheia (embora não
se julgue melhor ou pior do que ninguém), e aí está
uma qualidade que admiro. E muito. Êle não faz da
simpatia um chamarisco pessoal. Com o marechal o negôcio
é na base do toma-lá-dá-cá. Coisa
rara, hoje, é ver-se uma pessoa em sintonia consigo própria.
Sem estática mental. Sem viver em função
dos outros. Ninguém é o que é, mas o que
deveria ser. Não sei se sob o ponto de vista político
o método da autenticidade dá certo.
Mas sob o ponto de vista humano, dá.
Candidatura & Diálogo
Sendo de
temperamento retraído (embora nada tímido), era
o caso de alguém perguntar: por que um homem com tais dimensões
interiores se candidata à Presidência da República?
Um dia, matei a curiosidade.
- O senhor foi meio instado a aceitar sua candidatura, não,
marechal?
Ampliou o olhar azul:
- Meio, não! Inteiramente.
- E por que aceitou?
- Se Jânio Quadros não fôsse candidato, eu
também não o seria de jeito nenhum.
E fêz uma direita volver.
Ritmo & Trituração
Tendo sido
ministro da guerra de três presidentes (Café, Nereu
e Juscelino), sentiu de perto o atropêlo que é a
vida de um primeiro magistrado. Detestando vida social, reuniões,
banquetes, coquetéis, fazer e ouvir discursos, conversa
fiada e, principalmente, política (embora entenda mais
do que muita gente pensa), topou a parada porque julgou estar
sendo útil (mais uma vez) à nação.
E afirma que, quando topa uma parada, vai até as últimas
conseqüências. Desta vez, modificou por inteiro seu
ritmo de vida, revolucionou a mecânica dos hábitos
(era homem de dormir entre 8 e meia e 9 horas; hoje, quando consegue
deitar à meia-noite, dá-se por muito feliz). Sua
campanha tem sido árdua. Há pouco viajou 4.000 quilômetros
pelo sul do país, a geada o acompanhando, severa. Ainda
tem as mãos rachadas. Na semana passada voou 40 horas em
4 dias.
- Você não sabe como tenho sofrido.
Mas o marechal não se sente vítima.
Topou, topou. As contingências da campanha estão
triturando sua maneira de ser.
Mas não sua vontade.
Licores & Netos
Não
fuma, não joga, não bebe. Considera champanha detestável;
amarga, a cerveja. Se tivesse alguma inclinação
para o álcool, optaria pelos licores, mais acha que a vida
tem coisas muito mais gostosas.
- O que, por exemplo?
- Meu lar.
O lar e seus 20 netos (mais 3 tortos, pois é casado em
segundas núpcias). Suas metas depois de cumprido o mandato
(se eleito, é claro) são essas: sombra, água
fresca.
E muito sossêgo.
Golpe & Ditadura
Ninguém
discute, creio, sôbre a honra ou a lisura de princípios
do marechal. É um homem correto. Democrata. Nacionalista
de verdade. Depois do 11 de novembro, em que deu um golpe no golpe,
recebeu muitas cartas sugerindo que se transformasse em ditador.
Teria podido, se quisesse. Estava com a faca, o queijo e a goiabada
nas mãos. Repeliu a idéia, mas ficou espantado com
alguns nomes ilustres que assinavam tais missivas. Já não
somos mais uma república de bananeiras e quarteladas. O
têrmo ditadura chega a ser malcheiroso.
Fere fundo as narinas do marechal.
Vitória & Apelo
Perguntei-lhe
certa vez se estava convencido da sua vitória. Respondeu:
- Não posso empregar tal palavra porque a considero muito
forte. Não estou convencido. Mas creio que vou vencer.
Abordamos depois um assunto que dá muito bem uma idéia
de como é o marechal por dentro. Algo que considero importantissimo
dentro desta história. Perguntei-lhe:
- O apoio de Juscelino vem ou não vem, marechal?
Respondeu:
- Não quero ser eleito com o prestígio de outro.
Ou querem que eu seja presidente, ou não querem. Desejo
ter autoridade própria. Não pretendo ser reflexo
de ninguém. Isso poderá parecer orgulho ou vaidade,
mas não é uma coisa nem outra. O presidente Juscelino
não precisa dizer mais do que tem dito: que fui seu auxiliar,
que cooperei com lealdade e dedicação. E não
está dizendo nada demais, porque esta foi a verdade.
Seus adeptos, porém, não se conformam com isso.
Falam em compromissos. Em traição. Esbravejam. Se
queixam de falta de dinheiro para a campanha.
O marechal permanece inalterável.
Comunismo & Nacionalismo
Gosta de
dizer o que pensa. Faz isso sempre. Mesmo quando sabe que suas
palavras talvez não lhe atraiam votos. Foi assim no Recife,
ao afirmar que era contra o comunismo e contra as relações
do Brasil com a Rússia. Não é homem de meios-têrmos.
Faz questão de não ser político sob tal aspecto.
Raciocina assim:
- Sendo nacionalista, não posso ser internacionalista.
E o comunismo, afinal de contas, é uma orientação
internacionalista. Se não quero sujeitar meu país
a outro, econômicamente, como vou sujeitá-lo politicamente?
Seria falta de coerência.
Coragem êle tem.
Mato & Mar
Voltemos
ao outro lado do marechal: gosta de estar junto ao mar e ao mato.
Tem um sítio em Teresópolis, onde se refugia para
descansar, despachar correspondência e inspecionar suas
árvores. Gosta de bichos; prefere plantas. Já enxertou
duas mil laranjeiras no sítio do sogro. Em menino queria
ser ou fazendeiro ou militar. Como não tinha fazenda, acabou
marechal do Exército. Devorava romances de capa-e-espada.
Fantoches de Madame Diabo foi um dos livros que coloriram
sua infância. Quando a chuva miúda ou a garoa impediam
que se soltasse no mato, lia. E em francês. Hoje fala fluentemente
o francês, o inglês, um pouco de alemão (lê,
inclusive). Entende o espanhol e o italiano. Já estêve
em missão na Dinamarca, na França e nos Estados
Unidos. Conhece tôda a Europa. Vultos históricos
de sua preferência: Caxias, no Brasil; Napoleão,
no mundo. Nunca se meteu em revoluções (exceção
do 11 de novembro) e sempre foi contra elas. Opôs-se à
de 30 e, paradoxalmente, à de 32. Jamais conspirou. Em
1940, quando comandava manobras no Vale do Paraíba, o avião
de Getúlio fêz um pouso de emergência. Aproximou-se
do homem e disse:
- O senhor está prêso porque desceu em campo inimigo.
Vargas libertou uma de suas famosas gargalhadas.
Murros & Poesia
De temperamento
explosivo, suas primeiras reações são violentas.
Agora, consegue dominar-se (quase sempre). Na mocidade, não:
brigava pra valer. E muito. Apanhava às vêzes, pois
metia-se com inimigos mais fortes. Até hoje faz exercícios
todos os dias, mesmo quando em viagem. No Exército praticou
esgrima (sabre), equitação, barras, paralelas, argolas.
Aprendeu jiu-jtsu. Jogou futebol (para exercitar as pernas) mas
nunca foi craque. Torceu muito (olalá!) pelo Botafogo.
Ainda torce. De quando em quando vai a cinema ou teatro. Prefere
filmes naturais ou cômicos. A missa vai todos os domingos
e dias santos, mesmo agora. Come pouco (sopa de cereais e legumes).
Gosta muito de banana. Seu doce preferido: pé-de-moleque.
Em môço, não gostava de poesia. Agora gosta.
- Já fêz algum verso, marechal?
Espantou-se:
- Isso não! Êsse crime não cometi.
Programa
& Espaço
O Conselho
Superior das Classes Produtoras apresentou ao marechal um questionário
cujas respostas, de certo modo, espelham sua plataforma, bem como
a orientação que dará a seu govêrno,
se eleito. Perguntas e respostas foram enfeixadas num pequeno
volume “Harmonia
da Iniciativa Privada com a Valorização do Trabalho”.
Vocês devem lê-lo. É preciso que o eleitor
saiba por que vai votar em determinado candidato. Não posso
aqui discutir o programa do marechal: 1) por falta de espaço
2) porque fugiria aos objetivos da página.
Quero dizer, porém: é um grande
candidato nacionalista.
Prévia
& Discórdia
O marechal
não concordou com uma prévia publicada na semana
passada nesta revista, dando a vitória ao senhor Jânio
Quadros por pequena margem. Acha que num país como o nosso
é impossível fazer-se previsões. Sabe que
há um núcleo de elementos apaixonados: êsses
são janistas, lottistas, adhemaristas, não se discute.
Mas considera flutuante a grande massa do eleitorado brasileiro.
Diz que o imã de Jânio para atrair
votos não é tão imã assim.
Urso
& Ministério
Lott tirou
o primeiro lugar em todos os cursos que fêz. Dizem que jamais
alguém o viu dando abraços na rua na base eufórica
do “olá,
como tem passado”.
Mas o que tem de sóbrio, tem de franco. Querem ver? Pergunto-lhe
se, em caso de vitória, formará um ministério
civil ou militar. Responde:
- Ainda não pensei nisso. Não gosto de contar com
a pele do urso antes de ver o urso morto.
É provável que as pastas militares fiquem com militares.
Sei que, em relação aos partidos que o apóiam,
foi bem claro: não aceitaria a indicação
de ninguém. Êle próprio escolheria seus auxiliares
diretos dentro de tais partidos.
Personagem & Candidato
Assim é,
ou assim me parece ser, o cidadão Henrique Baptista Duffles
Teixeira Lott. O personagem é meu. O candidato, como todos
os outros, é do Brasil.
A decisão é vossa.