Cadeia
para os "gangsters"
É
em ocasiões como esta que o repórter sente a pobreza
do nosso vocabulário. Porque não há palavras
exatas para definir o que era na realidade essa nauseante “imprensa
marrom”.
Aliás, nem a denominação de “imprensa
marromӎ
correta. Isso que circulava por aí, em forma de revistas
como “Escândalo”,
“Indiscreta”,
“Código
Secreto”,
“Moral”
e outras, nunca foi imprensa. Dom Hélder Câmara disse
bem, ao afirmar que “Confidencial”
e sua coirmãs não passavam de simples caso de Polícia.
Não eram impressas a tinta, mas a lama. Representavam,
nas mãos dos seus donos, o mesmo papel do pé-de-cabra
nas mãos do ladrão, e do revólver nas mãos
do assaltante. A chantagem era a grande fonte de renda. Pela chantagem
conseguiram os “gangsters”
da pena arranjar bons empregos. Pela chantagem lançaram
o opróbrio sôbre pessoas de tôdas as classes
sociais. O achaque persistente, insistente, desesperante, abrangia
desde as coristas da Praça Tiradentes até o lar
de ministros. E nem Dom Hélder Câmara escapou de
ameaças de escândalo. A história da nomeação
dêsses abutres para polpudos cargos na administração
da Gunabara, quando ainda éramos Distrito Federal, é
vergonhosa demais para ser contada ao público. Mas êste
repórter pode dar a fonte onde, quem quiser saber, poderá
ter tôdas as informações sôbre como
êles foram nomeados. É só conversar com os
jornalistas credenciados na ex-Câmara de Vereadores do Distrito
Federal. Êsses piolhos da imprensa bateram fotografias de
determinada figura da administração pública,
em situação comprometedora com determinada senhora,
e propuseram: ou o emprêgo ou a publicação
da foto. E dizer-me que ninguém, até hoje, havia
ainda aplicado, a êsses malandros, o castigo que mereciam.
É verdade que certa vez Freddy Daltro quase foi morto na
barra da Tijuca, por ter injuriado famosa cantora de rádio.
Mas a lição não lhe valeu. Continuou por
aí, impunemente, atassalhando a dignidade de meio mundo,
e o que é pior, mantendo ligação estreita
com elementos da Polícia, que eram seus informantes. Possuíam
porte de arma, concedido a mando da chefia do Gabinete. E os próprios
policiais, denunciados como amigos e protetores dos abutres, justificaram-se
dizendo que tinham mêdo dêles! Até parece que
essas revistas - que poderiam ter sido fechadas com uma penada,
por atentaram contra o decôro público -, representavam
um império de fôrça, que amedrontava meio
mundo. Ainda agora, quando o Governador Sette Câmara ordenou
a formação de uma comissão de inquérito,
para sacudir no ôlho da rua os piratas marrons, houve um
diretor de administração do Estado da Gunabara,
um certo senhor Byron, que teve o peito de vir a público
dizer que êles, lá dentro, eram bons funcionários.
E quando a comissão de inquérito deu seu parecer,
deixando a porta aberta à exoneração pelo
Governador Sette Câmara, surge outro cavalheiro, um certo
senhor Barçante, para torcer as conclusões do inquérito,
protegendo os crápulas. Chego a pensar que a covardia,
ou o comodismo de muitos, é que favoreceu a proliferação
das revistas de chantagem. Freddy Daltro, Alberto Conrado (A.
Cordeiro), Waldemiro Barbosa da Silva, Delorme Amaral, Hercules
Woyames (ex-comunista) enfrentavam, com desfaçatez incrível,
a sociedade brasileira, os homens públicos, e até
o fim de sua carreira de “gangsters”
continuavam arreganhando os dentes, fazendo ameaças, prometendo
voltar com outras revistas, outros jornais, para cobrir de lama
o nome daqueles que os combateram e os castigaram. E a essa altura,
aparece um Romeiro Neto, com aquela conhecida babinha no canto
da bôca, para defender os escroques. Dou parabéns
ao criminalista Evandro Lins - meu adversário no caso de
contrabandista de Corumbá, Carivaldo Salles - , porque
achou indigno demais defender criminosos dessa espécie.
E parabéns também ao presidente da Ordem dos Advogados,
por ter se manifestado no mesmo sentido. Dou até parabéns
ao Wilson Lopes dos Santos, por estar como auxiliar da acusação
contra os vermes marrons, contratado pela família de Elzevir
Pereira da Silva, o môço que se suicidou, de pavor
da “gang”.
Só Romeiro Neto é que topou defender os monstros.
Que triste sina está marcando o fim de carreira daquele
que foi um mestre da tribuna, um criminalista que a gente admirava
porque não podia deixar de admirar.
Os
marginais já estão na rua. Sette Câmara sacudiu-os,
com um decreto, à sarjeta, o lugar de onde vieram, e de
onde nunca deveriam ter saído. Poque o “habitat”
dêles é o bueiro. Que coisa repugnante era a presença
dêsses ratos humanos no funcionalismo da Guanabara. Sua
função era dar pareceres sôbre processos.
Imagine-se o que deveria estar acontecendo lá dentro. “Gangsters”
fazendo relatórios de processos! E ainda havia lá
o certo senhor Byron, que dizia serem êles, bons funcionários.
Mal assinavam o ponto e ganhavam 25 mil cruzeiros por mês,
enquanto muitos “pracinhas”,
tuberculosos ou na miséria, comparecem diàriamente
ao mercado para apanhar restos de verduras, ou frangos mortos,
jogados fora. Se êles já estão na rua, a missão
da imprensa sadia, a verdadeira imprensa, e a dos homens públicos
que se aliaram nessa operação-limpeza ainda está
longe de ter terminado. Só se encerrará quando os
Freddys Daltros e A. Cordeiros cruzarem os portões da cadeia.
Nos Estados Unidos, diretores de uma revista semelhante, que também
vivia da chantagem e do atassalhamento da honra alheia, estão
cumprindo 30 anos de prisão. Aqui, êles mereciam
pena igual porque causaram a morte do cinegrafista Elzevir, tantas
foram as ameaças de chantagem e escândalo que lhe
fizeram. Por outro lado, é chegada a hora de se fazer uma
revisão geral nos registros dos jornalistas de todo o Brasil.
Há pasquins circulando por aí que só diferem
de “Confidencial”
e “Escândalo”
no nome. Os Sindicatos de Jornalistas e a Associação
Brasileira de Imprensa precisam fazer uma limpeza em regra nos
seus quadros. Não é justo escroques dêsse
jaez estejam agindo por aí, de pistola em punho, enlameando
o bom nome de uma classe. É necessário que se crie
no Brasil a Ordem dos Jornalistas, como existe a Ordem dos Advogados,
para fiscalizar a conduta dos profissionais da imprensa - antiga
idéia do veterano Carlos Eiras. E o público tome
nota: se algum dia aparecer um dêsses “gangsters”
- o que não acredito - pedindo dinheiro, ou com ameaças,
agarre-o pelo colarinho e leve-o, imediatamente, ao Distrito Policial
mais próximo. Mesmo que depois apareça o Romeiro
Netto para defender o bandido.