CARLOS LACERDA: "Você é um árabe generoso mas desconfiado"

 

David NasserResposta a David Nasser

Para dar agasalho à resposta que em tom altivo e cavalheiro o Senhor Carlos Lacerda escreveu ao artigo "Elogio ao Adversário", o nosso companheiro e diretor adiou para ainda antes das eleições a apreciação sôbre a candidatura Tenório. Aqui está, na integra como a ética impõe, a carta-resposta do Sr. Carlos Lacerda, reservando-nos o direito de comentá-la, no próximo número.

Meu caro David Nasser:

COMO é difícil conhecer as pessoas! Nós nos conhecemos há tanto tempo, já trabalhamos juntos e no entanto você mistura o que sabe com o que dizem de mim e faz êsse artigo de O Cruzeiro desta semana, misto de generosidade e de severidade, de entusiasmada esperança e de sarcástico cepticísmo. Sinal dos tempos, resíduo de sucessivas decepções com os homens, a sua atitude é a de milhares de criaturas, hoje. A atitude de quem quer confiar mas se recusa a ser novamente enganado.

POIS aqui estou, David, para dizer-lhe as reações que o seu artigo provocou neste jornalista a quem responsabilidades acumuladas acabaram por atirar na política. Começo por dizer que detesto a política e que a faço com certo desprêzo por ela, embora consciente da sua grandeza. Mas, vejamos a sua análise.

SEM amigos, eu? Mas, David, creio que sou neste País quem mais numerosos e melhores amigos possui. Não sòmente na multidão, amigos anônimos, amigos desconhecidos, que me têm dado todos os amparos, sobretudo os do confôrto moral e do estímulo da sua solidariedade. Também amigos de infância, amigos de colégio, amigos de escola, amigos de jornal, amigos de sempre.

O QUE o leva a julgar-me homem sem amigos é a circunstância, esta sim, realmente rara e difícil, de ter sido um homem que se decidiu a perder os amigos para conservar aquilo que justifica a Amizade. Não é uma frase, David, é uma experiência dolorosa e profunda. Quando me afastei dos comunistas, junto aos quais passei grande parte da minha adolescência, vi-os voltar a cara, deliberadamente, por ordem do Partido Comunista, odiarem-me por ordem superior, passarem a me difamar, a inventar versões que até hoje periòdicamente reeditam, tôda vez que pretendem destruir as idéias que defendo e os princípios que represento. Amigos de infância, companheiros de profissão, colegas, por imposição de disciplina partidária, por decisão de órgãos superiores do Partido Comunista, passaram a difamar-me, a mim e à minha própria família. É claro, não lamento a perda dêsses amigos que não o eram. São êsses os mesmos que fazem a conspiração do êxito de semiliteratos, de uma côterie literária, artística, jornalística aos interêsses, à linha do comunismo.

OUTROS amigos que perdi são os que têm da amizade uma concepção confusa que os leva a confundir a amizade, sentimento viril, com a camaradagem, sentimento equívoco e piegas. Certa vez Joaquim Nabuco rompeu com Oliveira Lima porque êste entendia que ser amigo era dizer verdades ao outro sôbre os seus erros, o seu temperamento etc; Nabuco retrucava que isso era o papel dos inimigos. O do amigo era estimular, ajudar, confortar, ser - em suma, um amigo e não um censor. Tinha razão Joaquim Nabuco - mas tenho também razão ao pensar que amizade não é um sentimento capaz de justificar o silêncio e a cumplicidade quando o amigo erra. Não o êrro da vida privada. Para êste se fêz a amizade, que consola, que anima e que perdoa. Mas, o êrro da vida pública, que prejudica inocentes, milhares, milhões de inocentes, vítimas do êrro dêsses que se perdoam tudo entre si porque encobrem as suas complacências recíprocas, com o forte e doce nome de Amizade. Isso não é amizade. Tem outro nome. Chama-se cumplicidade.

PERDI, sim, amigos nessas condições. Mas, neste caso - seriam mesmo amigos?

O TERCEIRO fator, David, é o de uma certa - como dizer sem lhe parecer vaidoso? - certa frustação de alguns diante do que julgam um êxito na vida que êles me atribuem e do qual como que se ressentem. Aqui esta resposta talvez tome um tom difícil de confissão. Mas, a sua sinceridade me obriga a retribuí-la. Dentro em mim não me envaideço de êxito algum, não me sinto capaz de suscitar inveja. Mas, nem todos pensam assim; de vez em quando sinto adejar em tôrno de mim as asas escuras dos que me consideram, não sei bem por que, invejável.

HAVERÁ outras razões para perder amigos? Sim, há uma de que me penitencio. Sou distraído, muitas vêzes, nas minhas amizades. Não cumpro certos deveres imediatos, que animam, como os pequenos presentes, as amizades que assim se entretêm. Aqui, outra confissão que pode causar-lhe riso, David. Sou um tímido. Tenho pela vida um encantamento geral, um deslumbramento permanente, que muitas vêzes me impede, com a agravante da timidez, de forçar a porta dos outros, de - por exemplo - fazer visitas, comparecer a aniversários, alimentar a convivência social que, nos acasos imprevistos, tanto estimo. E gosto de preservar um pouco de solidão - porque a solidão também é necessária.

IGNORAR o próximo como indivíduo para servi-lo como a uma fração da comunidade, diz você que é uma de minhas características. Deveria ser, talvez, para definir o homem público ideal? Creio que não. Em todo caso, compreendo que seja essa a aparência. A realidade porém, é bem diversa. Poderia citar-lhe mil e um exemplos. Poderia invocar testemunhos. Mas, há um pudor invencível nesse tipo de confissão. Prefiro que você possa, um dia, por si mesmo, reformar o seu julgamento nesto ponto.

PASSIONAL, sim. Mas, não apenas no passado. Até hoje - e graças a Deus creio que morrerei com essa capacidade de me apaixonar, sem a qual a vida se transforma num deserto de cálculos e ambições. O que tive, o que vier a ter na vida, será sempre sem cálculo. Recebo o que Deus me dá, sem Lhe pedir senão a graça de merecer. Sou um homem desprevenido. Tenho feito mesmo questão de manter, ao longo da vida, essa reserva de boa fé freqüentemente desapontada mas que uma simples, uma única confirmação, de vez em quando, basta para renovar.

QUANTO à vocação totalitária, embora com a ressalva de que não seria nunca um fascista, como você reconhece, creio que é ainda uma confussão o que o leva a êsse pronunciamento. No Brasil. David, até repórteres e observadores como você, com a sua crescente ascensão de um repórter de fatos para o intérprete dos fatos, o analista de temas e personalidades, confundem a democracia com a bagunça e o líder democrático com uma espécie de Macunaíma político.

PENSE nos líderes democráticos, que ninguém aqui iguala, mas que são, por assim dizer, os paradigmas, os modelos. Veja Lincoln, veja Roosevelt, veja Armando Sales, veja o Brigadeiro, veja Nabuco - o abolicionista, veja Adenauer - o grande líder democrático que surgiu depois da guerra; e de propósito menciono alguns ao acaso. Em Jânio Quadros, por exemplo, há quem veja uma tendência autoritária exatamente onde êle é mais democrático: no respeito ao pôsto de representante do povo, no sentimento de que há uma hierarquia na Democracia - a hierarquia dos valores morais.

ALGUÉM tira farinha com um verdadeiro líder democrático? Alguém bate na barriga dêle? Não se deve confudir o popular com o populista. Nem o democrático com o demagogo. O que não tenho, ou se tenho luto por extirpar do meu ser político, é algum traço de vocação para demagogo. Na medida em que o consiga, chegarei a ser, se até lá não acabar antes da hora, um verdadeiro líder democrático. Isto é: um líder e não um chefe. Mas, um líder que, por ser líder, não se vulgariza, não se abastarda, não degrada a sua liderança.

ENTRE recomendações que me animam e me confundem, você julga que tenho o plano de fazer da Guanabara trampolim para o salto maior. Não, David, até porque não creio que fôsse capaz de trocar o Rio, a esta altura da vida, por Brasília. Pelo menos é o que sinto hoje.

E ISTO nos leva a outro ponto, que você apenas aflora. O das minhas alegadas incoerências. Poderia dizer-lhe, e seria fácil demais demonstrá-lo, que Ruy Barbosa também foi assim acusado. Mas, prefiro repetir o que dizem de mim dois amigos muito queridos, Pereira Lima e Nestor Duarte: o que êles temem ou lhes desagrada, talvez, em mim, é exatamente o excesso de coerência.

SE mudam as soluções para levar à prática os princípios que defendo, adoto as novas soluções e não mudo os princípios. Seria incoerente mudar de princípios para servir às soluções diversas que se impõem a uma consciência verdadeiramente livre, aberta às retificações do tempo e da experiência. É isto, no meu entender, a coerência. O contrário disto é apenas a teimosia...

HÁ pessoas que continuam comunistas porque temem ser chamadas de incoerentes. Ou não mudam de tom porque entendem que o tom está indissolùvelmente ligado ao modo de ser de cada qual. Sou dos que pensam - e sentem - que os meios não justificam os fins, mas não devem substituir os próprios fins e sim, apenas, servirem para atingi-los. Os meios mudam. E devemos mudá-los, para atingir os fins, que não devem mudar.

OS meus fins são invariáveis. Procurei, na adolescência, através do que me parecia ser uma revolta generosa, defender a liberdade e a justiça. É o que até hoje procuro. Mas, os meios eram maus - e eu rejeitei-os. Procurei, na oposição a maus governos, atingir êsses fins. Hoje, procuro chegar ao govêrno, também pelos mesmos fins. Mudam os meios. Os fins permanecem. Sacrifico amizades, tempo, descanso, fortuna, tudo o que tenho e o que poderia ter, tudo o que fôr necessário, para não perder de vista êsses fins. Para êles, retifico constantemente os meus erros, suprir as minhas deficiências. Presto-me a ser mal julgado, mal querido, silencio em vez de explicar - por uma certa ponta de orgulho, talvez, defeito que anda muito enrolado na timidez.

DETESTO as confissões do tipo da que lhe estou fazendo. Mas, o que há de generoso na sua ferocidade, o que há de esperança na voz rouca e áspera com que você compôs o seu Elogio ao Adversário exigem de mim esta explicação.

ANDAMOS muito chão nesses anos que nos separam do dia em que uma entrevista que você fêz, e que eu publiquei, me levou a renunciar ao meu pôsto nos Diários Associados para não comprometer nem o nosso Capitão nem a você - ambos ameaçados pela irreverência de sua entrevista com um dos poderosos daquela época.

VEJO, com alegria que não disfarço, que ao longo dêsses anos todos você pode me julgar mal sob aspectos essenciais - que afinal me interessam muito mais do que o seu voto - mas considera que, nas minhas mãos, o povo estará bem servido.

NÃO se dará o caso de você não ter querido parecer que fêz um artigo de elogio? Isto acontece, David. Também há um pudor de parecer conformista, de perder a periculosidade, de ser, afinal, o que realmente você é: um árabe generoso, mas desconfiado da sua generosidade.

CORDIALMENTE, seu colega.

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