O drama do açúcar

Reportagem de EDMAR MOREL - Fotos de EDGARD MEDINA

OS lusitanos mandaram buscar os negros da África para levantar os alicerces da economia do Brasil-Colônia, tão querido do Reino de Portugal...

Na verdade, o elemento nativo, o índio bravio que teve as suas terras invadidas pelo branco colonizador, logo demonstrou a sua incapacidade física para suportar as canseiras do trabalho sob o chicote do senhor. E daí ter sido o negro cativo o principal agente na faina de enriquecer um país em formação, sobretudo no chamado Ciclo da Cana de Açúcar.

As grandes levas de africanos ergueram os primeiros engenhos e disto dá notícias Frei Gaspar da Madre de Deus.

A cana de açúcar originária da Ásia, foi importada para o Brasil e explorada pela primeira vez no Engenho do Governador, em São Vicente, fundado por Martim Afonso de Sousa, que mandou vir da Ilha da Madeira a planta de canas doces.

Isto ocorreu em 1533. Tempos depois, o surto econômico estendeu-se pelo litoral, sobretudo nas capitanias do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Pernambuco.

E aqui diz Gilberto Freyre:
- Os rios menores, porém mais regulares, docemente se prestaram a moer as canas, a alagar as várzeas, a enverdecer os canaviais, a transportar o açúcar, a servir aos interesses e às necessidades de populações fixas, humanas e animais, instaladas às suas margens, aí a grande lavoura floresceu.

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Após quatro séculos da fundação do engenho de açúcar, em São Vicente, em São Paulo, passei um dia numa usina dêste produto, no interior fluminense, justamente em Campos, que tem um solo privilegiado à cultura da cana.

Surpreendo uma multidão de homens, mulheres e crianças, na derrubada dos canaviais. É o trabalho em plena safra, que começa de madrugada e acaba ao cair do crepúsculo. O serviço é árduo e por cada 1.500 quilos de cana cortada, o trabalhador ganha 15 cruzeiros. Raros são os que atingem aquela cifra. Nesta safra, as mulheres tomaram o lugar dos maridos no corte da cana. E a explicação é esta:
- Um homem com mulher e filhos não pode trabalhar onze horas para ganhar 15 cruzeiros, quando um quilo de carne custa Cr$ 8,00.

Por isto, ùnicamente por isto, os homens procuram trabalho na indústria e deixam as suas mulheres e filhas no campo, empunhando amolados facões, na derrubada dos canaviais.

No campo, a despeito do Brasil ser considerado um país essencialmente agrícola, ainda não chegou a assistência social do govêrno, nem do particular.

Vejo grupos de mulheres maltrapilhas, descalças e desnutridas, ao sol e à chuva, cortando uma tonelada e meia de cana para perceber, cada uma, 15 cruzeiros. Outras, as que trabalham sob empreitada, ganham, apenas, Cr$ 9,00. Em compensação, quando morrem, têm o reino do céu. Só numa estrada, dentro de uma fazenda, contei quatro capelas.

Ao contrário da lavoura do cacau, do milho, do arroz, da uva, a da cana é de profunda melancolia. Basta ouvir o gemido dos carros de bois, que em procissões cortam os canaviais, rumo às margens do caminho férreo. O seu cântico é uma toada pungente, levado ao sôpro do vento. E ao longo da planície verdejante, escuto o poema da minha infância:

- Carro de boi do meu sertão
Sempre cantando, na mesma calma
Que até pareces assim ter alma!
Que até pareces ter coração.

Deixemos esta literatura suburbana que não enche o estômago de ninguém e falemos do padrão de vida dos lavradores de cana de outros recantos do país. É preciso ressaltar que depois de São Paulo, é o Estado do Rio de Janeiro o que paga melhor ao trabalhador rural. Na Bahia, por exemplo, o salário médio, é Cr$ 3,50, contra Cr$ 5,00, em Sergipe. Isto quer dizer que um homem ganha por dia uma quantia equivalente a meio quilo de carne. Já em Minas Gerais, o padrão atinge a cifra de Cr$ 4,50. Partindo do princípio de que o homem é aquilo que come, o camponês brasileiro, orgânicamente, não vale nada. Populações inteiras de camponeses vivem em alarmante estado de deficiência alimentar.

Vasconcelos Tôrres, num interessante estudo, aponta as quatro principais razões para as desgraçadas condições de vida do nosso trabalhador, que segundo os técnicos de nutrição, necessita de 3.000 calorias.

1.ª - O salário baixo; 2.ª - A falta de gêneros indispensáveis a uma alimentação racional; 3.ª - o elevado custo dos gêneros utilizados habitualmente e por fim, a inexistência de conhecimentos sôbre o valor da alimentação.

Consumindo em grande escala a mandioca, o fubá, o charque e raramente alimentos como açúcar, leite, ovos, manteiga e legumes, o trabalhador rural brasileiro, em média, apresenta um "deficit" calórico que ultrapassa a 60%.

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A usina onde pernoitei foi inaugurada por D. Pedro II, em 1878, e é uma das melhores do Brasil e a sua assistência social é proclamada em livros e inquéritos realizados pelo Govêrno.

Retomando o fio da reportagem, interrompida quando os cortadores deixam o produto no carro de boi, com capacidade para 4.000 quilos, vejo agora a cana ser trasladada para a grade, vagão em forma de uma gaiola, sem teto, serviço que é feito pelos próprios carreiros, com o auxílio dos negrinhos de pastoreio. Quando os vagões estão cheios, a locomotiva conduz a carga para a usina, onde o trabalho humano consiste em fazer funcionar botões elétricos e manivelas de contrôle. A usina, pelo seu maquinário moderno e de grandes proporções, empolga. Colocada a cana numa esteira de aço, por meio de guindastes, o produto é levado em toneladas para as moendas tendo, antes, passado pelo desfibrador, cujas facas dão um corte especial, a fim de aumentar a capacidade da extração da sacarose. Em seguida, jorra o caldo e o bagaço vai para as caldeiras servir de combustível. Os tubos condutores e as rampas têm grandes comprimentos e em certas partes, quase atingem a cumieira da casa. O caldo sofre vários processos de tratamento, começando pelo aquecimento, decantação, concentração, evaporação, cristalização, turbinação, secagem e, por fim a ensacagem.

As máquinas, pelo seu tamanho, tornam o homem um pigmeu, sendo de destacar as turbinas onde da massa cozida saem o açúcar cristal e o mel que, em parte, volta ao mesmo processo para ser extraído um produto de segunda qualidade. E o restante é levado à fermentação, para fabricação do álcool.

Neste mundo moderno de máquinas, dentro da relatividade, o salário do chamado trabalhador de indústria, é quase o mesmo do elemento nativo, no começo do século XVII, nos velhos banguês de Pernambuco. Um homem, a despeito do elevado custo de vida, ganha, nas usinas brasileiras de açúcar, em média, Cr$ 18,00 por dia.

Só no Estado do Rio de Janeiro existem 29 usinas, sendo que 17 estão localizadas no município de Campos. A sua produção é de 3.700.00 de sacas. E a do Brasil é de 23.800.000,

Agora, o leitor tenha um pouco de boa vontade com as cifras. De cada 1.500 quilos de cana, (por cujo corte o trabalhador recebe Cr$ 15,00) as usinas, de modo geral, produzem 90 quilos de açúcar e 12 de álcool. Pela tabela nova, a fim de regular a safra de 1946-1947, numa média do rendimento industrial de cada usina, que varia de 77,22 a 115,70, uma tonelada de cana custa 98 cruzeiros. O cálculo do preço para cada saco de 60 quilos de açúcar cristal, dentro do vagão, pagando todos os impostos, inclusive as taxas e selos adicionais, é de Cr$ 130,00. Cada saco, das usinas de Campos para o Rio, transporte até a estação de Alfredo Maia, paga aproximadamente Cr$ 14,00 de fretes e outras despesas. E assim, o quilo de açúcar chega à Capital Federal por Cr$ 2,40.

O leitor, como todo cidadão civilizado, vive às voltas com as filas de leite, carne, pão, banha, fósforo, açúcar e deve ter um cupom de racionamento, pelo qual tem direito de comer um quilo de açúcar, em cada 15 dias. Saiba, então, que só em Campos, às portas da Capital Federal, por falta de transportes, estão armazenados mais de um milhão de sacas de açúcar, pois o único meio de condução viável é o ferroviário e a Leopoldina Railway, êste ano, principalmente, não tem podido atender as necessidades da exportação. Não havendo estrada de rodagem direta à Capital Federal, o caminhão não é o meio indicado para transportar açúcar, pois a sua capacidade sendo, apenas, para 80 sacos, ainda depende da travessia da Guanabara, pela barca da Cantareira, sempre muito difícil. Parte reduzida da atual safra está sendo escoada pelo pôrto precário de São João da Barra, através de veleiros. O problema do escoamento da safra depende exclusivamente de transportes.

A penicilina para êste mal crônico brasileiro é sem dúvida a ligação por Magé, da estrada Campos-Niterói, por uma derivante para a Capital Federal, pela qual os caminhões possam correr diretamente para o Rio, fazendo a entrega do produto nos próprios centros consumidores. O ideal, sem dúvida, seria o reequipamento da Leopoldina Railway, pois alguns dos seus vagões podem transportar 500 sacos.

Mas, êste negócio de reaparelhar estradas de ferro, no Brasil, quer do govêrno, que é de particulares, é conversa prá boi dormir. E o carioca, com um milhão de sacas de açúcar às portas da Capital Federal, pode esperar nas filas, sentadinho num banco, para não ficar muito cansado, a solução do problema número um da Nação: transportes!

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