Contrabando no Sul

Reportagem de DAVID NASSER - Foto de JEAN MANZON

Os argentinos abrem os braços aos pneus saídos clandestinamente do Brasil, enquanto nossos guardas de fronteira, mal pagos, mal armados, são mais raros que os pneus na Argentina.

O CAPITÃO que dirigia a censura no período ditatorial vetou uma reportagem que Jean Manzon e eu tínhamos feito, semanas antes, na fronteira do Rio Grande do Sul. Ante nossa indignação por aquilo que enfàticamente o francês, meu companheiro e amigo, descrevia como se fôra um crime bárbaro, o Sr. Amilcar Dutra de Menezes, que sempre me inspirou profunda piedade, decidiu levar o texto e as fotografias de nossa história na fronteira à apreciação pessoal do Sr. Getúlio Vargas. Desejo abrir um parêntesis para falar sôbre o que certo articulista como ódio particular do Sr. David Nasser ao Senador Getúlio Vargas por alguma entrevista que o presidente lhe negou. Não, senhores, jamais pedi entrevistas ao Sr. Getúlio Vargas, mas isso não quer dizer que guardo do velho leão destronado ódio pessoal. Considero-o, apenas, inimigo das liberdades democráticas, presidente incapaz, ditador implacável, ébrio do poder, nada mais. Certo, assim, de que não existia qualquer motivo naquela época, para que a Voz Suprema (Vargas reinou no Brasil com mais poderes que Maomé no apogeu do Islam) me condenasse, sumàriamente, qual a razão que determinara o tremendo Círculo de Ferro que esmagava nossas produções jornalísticas? Para que se tenha uma idéia pálida da feroz e impressionante censura que, de maneira direta nos era feita, basta citar algumas reportagens examinadas durante algumas semanas no D.I.P. pelo Sr. Sampaio Mitke, a mando do diretor geral, por instruções vindas do Palácio do Catete: - A batalha das girls, história das bailarinas de cassinos na luta pela vida. Vida de cachorro, notícias sôbre um pobre cão eletrocutado por não ter matrícula. O cavalo milionário, referências a um valente animal (sem duplo sentido) que vencera o grande prêmio. O caçador de crânios humanos (dissertação sôbre a mania de colecionar cabeças de gente, velho hábito de um professor do Colégio Pedro II. Assuntos como êsses - dizia, por certo, o diretor da censura podem conter insinuações. As girls podem ser amantes de grandes e rotundos ministros. O cachorro, quem sabe? Quem sabe a entidade que êle oculta? E o cavalo? Ah, não, amigo, não podemos cochilar sôbre o que você escreve nas entrelinhas. Quer saber o que penso sôbre o caçador de cabeças? Uma insinuação para que entre elas haja o crânio ilustre de um presidente.

Era assim, a censura. Dez, vinte dias depois, quando o assunto perdia o interêsse, liberavam as nossas reportagens. Durante um ano e meio NÃO PUBLICAMOS UMA PALAVRA ESCRITA POR MIM, UMA FOTO DE JEAN MANZON SEM O VISTO DO D.I.P., mas o mêdo do futuro era tanto que não carimbavam a autorização, mas davam ordens telefônicas para que as reportagens pudessem ou não pudessem sair.



No instante em que o diretor do D.I.P. se prontificou, excepcionalmente, a levar a história do contrabando de pneus do Rio Grande do Sul para a Argentina, considerei o assunto perdido.

De fato, houve surprêsa quando o texto voltou das mãos do Sr. Getúlio Vargas, aprovado com restrições. Revelarei agora quais foram as restrições, os cortes, feitos sem o mínimo de pudor, às nossas acusações. NADA SÔBRE PNEUS! - foi a ordem - FALEM SÔBRE CONTRABANDO SEM FALAR EM PNEUS. O motivo, para nós jornalistas, era fácil de se descortinar, mas permanecia ignorado pela maior parte dos brasileiros: o contrabando no Rio Grande do Sul jamais sofreu repressão eficiente em todo o longo período governamental que acabou a 29 de outubro. Simplesmente porque ilustres cavalheiros da entourage estavam afundados até o pescoço na remessa clandestina de pneus para a Argentina e o escândalo viria à tona. Não era interessante ao ditador ferir de maneira tão violenta os interêsses de seus amigos, zelando pelos interêsses do Brasil. Por isso, deixava que os pneus rolassem livremente para a outra margem do rio-fronteira onde estivemos durante semanas e semanas, sem encontrar um guarda brasileiro.

Atravessamos a fronteira em Uruguaiana. Para que pudéssemos realizar trabalho de observação sem despertar suspeita das autoridades argentinas, passamos como engenheiros da Ponte Internacional, nesse tempo inacabada. A vigilância parecia impecável. Tôdas as bôlsas, todos os embrulhos que entravam ou saíam eram examinados. - Se dentro do embrulho estiver uma câmara de ar - explicou-me o cicerone - o guarda argentino fechará os olhos. A Argentina precisa de borracha. O Brasil lhe nega borracha. É uma medida de defesa, o contrabando de cautcho para a Argentina. As taxas aduaneiras que se perdem não se comparam aos benefícios dêsse fluxo clandestino de artigos manufaturados ou mesmo latex em bruto.

À noite, ao longo do rio da fronteira, tudo é escuro. Do lado brasileiro, o silêncio é de cemitério de aldeia. Não se vê um guarda numa faixa de muitos quilômetros. Do lado argentino, a vigilância sòmente se revela eficiente quando não se trata de borracha. Os pneus são jogados ao rio, amarrados a pedras, com cordas que o prendem e que, atiradas para a outra margem, permitem que os argentinos os recodam fàcilmente.

Perguntamos, numa fazenda que acompanha a fronteira durante vários quilômetros:
- Aqui não se planta?
- Claro, moço! - respondeu o gaúcho - Planta-se pneus!


Contam que na fronteira existia uma agência funerária que realizava entêrros de argentinos residentes no teritório brasileiro e que desejavam ter seus restos em sólo pátrio. Havia sempre uma viúva em lágrimas. Cavalheiros de aspecto tristonho. Um grande caixão ornamentado. O tamanho do caixão era detalhe importante, pois geralmente o defunto devia ter sido um cidadão volumoso. O acompanhamento se compunha de automóveis com pneus sempre novos.

À tarde os carros do funeral voltavam. Vinham se arrastando nos pneus mulambentos, furados, em petição de miséria. Certo dia, não sei por quê, talvez por terem mudado o delegado, o policial mandou parar o entêrro e abrir o caixão. Câmaras de ar ocupavam o lugar do morto. E soube-se então, que a viúva era alugada, como alugados eram todos os cavalheiros tristonhos, de ar compungido.


Atualmente o contrabando de pneus para a Argentina faz-se com a mesma intensidade de outros tempos. A vigilância é nula como outrora. Por que, talvez, sejam os mesmos os senhores dos pampas que mandam na fronteira do invicto, nobre e altivo Rio Grande do Sul.

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