Mistinguette vai casar

Reportagem de JEAN MANZON

JEAN MANZON enviou de Paris uma reportagem sôbre Mistinguette. Assunto velho, dirá o leitor. Todos assuntos são novos, eternamente novos, sempre que tratados de maneiras novas, tais as formas de verdadeiro jornalismo de ação que o jovem repórter-fotográfico francês trouxe para o Brasil. Não há nada de mais pitoresco, entrementes, que o cartão de visita levado por Manzon para a Europa: um francês correspondente de uma revista brasileira na própria França. Seja como fôr, êle se houve muito bem na Conferência da Paz, na reportagem sôbre o vôo transoceânico do aparelho da Panair, e agora ei-lo, de câmera em punho, descobrindo outras intimidades da vida da impressionante e quase centenária Mistinguette. Uma ruína humana, poderá dizer alguém de coração de pedra. Ruína humana, mas admirável temperamento artístico lutando contra a marcha implacável do tempo, contra o fantasma da velhice, e vivendo ainda para as ridículas, porém comoventes histórias de amor, em que ela, Mistinguette, sabe representar ainda o seu papel. Contemporânea de Pedro II, de Victor Hugo, de Graham Bell, quase tão velha quanto a República Francesa, essa mulher tem a alma jovem. Que importa o resto? Acompanhemos Jean Manzon no boudoir perfumado de Mistinguette.

NO meu terceiro dia em Paris resolvi fazer algumas coisas que nunca fizera antes: visitar os lugares tão falados no estrangeiro e tão desconhecidos dos próprios parisienses. Fui à Tôrre Eiffel, entrei em Notre Dame, demorei-me no Louvre e, por fim, depois de carregar minha máquina fotográfica, tomei o rumo do apartamento de Mistinguette. Preciso dizer quem é Mistinguette? Aos leitores adolescentes, talvez. A mais famosa vedeta do século, a dona das mais belas pernas do mundo, a que deixou corações em petição de miséria, cuja beleza iluminou os cabarés de Paris desde antes da primeira grande guerra, está agora do outro lado da porta. Insisto na campainha. A cara de um porteiro engalanado aparece, misteriosamente:
- Com quem deseja falar, monsieur?
- Mistinguette.
- Madame não recebe.
Era um porteiro negro do Senegal.
Como dera ali, não posso dizer. Já ia fechando a porta, quando a travei com o pé.
- Diga-lhe que venho do Brasil.
- Não recebe.
- Recebo sim! - gritou lá do fundo a própria Mistinguette. - Do Brasil, recebo, sim!

Veio, tôda num sorriso, explicando que seu tempo era todo tomado pelos compromissos artísticos, mas que do Brasil vinha a mensagem saudosa de um filho que ela possui em terras da América.

Logo que Mistinguette transpôs a fronteira de sombra e luz que existe em seu luxuosíssimo apartamento, compreendi a grande tragédia dessa incomparável e alegre mulher. Nunca a velhice poderia ser mais dramática, nunca um corpo lutou tanto contra o poder arrasador dos anos. A marcha do tempo em cada ruga, em cada pedaço, na côr artificial dos cabelos, e na agonia lenta, inexorável, impiedosa daquelas pernas que por triz não foram cantadas pela musa de Alfred Musset.

Enfrentando a velhice, Mistinguette o faz com uma triste dignidade, tornando mais heroica a jornada de volta, pelo outro lado da colina. Nascida em 1870, ela conheceu a glória antes de chegar ao fim do século. Quando o Brasil proclamou sua República, Mistinguette, linda aos 19 anos, arrebatava Paris, - Mulher assim não é humana, diziam os críticos teatrais. - É um anjo, gritavam os espectadores. Victor Hugo a admirava? A História não diz. D. Pedro II viu Mistinguette dançar? Não posso responder. Cinqüenta milhões de pessoas, cinqüenta milhões de olhos sedentos passaram pelas bilheterias em busca de Mistinguette, a quase divina Mistinguette. Por seu amor, reis dariam tronos, plebeus dariam a vida. Ela foi a inspiração de poetas, a paixão de humildes operários, a alucinação de honrados burgueses de Paris e além de suas fronteiras.

Ei-la agora, diante de mim. Aos 76 anos, Mistinguette é um prodígio de bom humor, de bondade, de ternura para com o gênero humano, que tão bem soube tratá-la em tôda sua longa e prodigiosa existência. Sente-se que ela procura se agarrar à vida que lhe foge pelos dedos, hoje encurvados e sêcos, pela pele macilenta. Agarra-se à vida no amor de um jovem, o italiano Cozenso, que com ela se casou ou vai se casar. Êle está no apartamento de Mistinguette neste instante.
- Conhaque? Gin? Rum?
Prefiro um brandi, enquanto o rapaz, com uma cara melancólica, vai para o piano e se arrasta num dolente blue.
Mistinguette me diz:
- Todos pensam que êsse rapaz se casará comigo pelo dinheiro que possuo. Não é verdade.
Numa longa baforada, explica:
- Nunca lhe dei um franco.
- Êle a ama?
- Não.
- Então...
- Sei o que estás pensando, amigo.
Sou velha e sem atrativos e um jovem como êsse vil Cosenzo não poderia apaixonar-se por mim. Não é isso? Negas? Sei que é a verdade. Tantos anos de experiência ajudaram-me a conhecer profundamente o coração dos homens.
Mistinguette troca o cigarro por um copo de leite.
- Leite?
- É o segrêdo da longa vida.
Sorve o líquido branco e, colocando a taça sôbre a mesa, recomeça:
- Se Cozenso não me ama, se não leva meu dinheiro, por que está aqui? Por um motivo simples: o homem quer cartaz. Aliás, todos os homens querem cartaz. Avalie quanto vale para Cozenso a publicidade gratuita: - Fulano de tal vai se casar com Mistinguette. Êle é um compositor de músicas populares. Está ouvindo êsse fox horrível? É dêle. Depois que se espalhou a notícia, os diretores aceitam suas drogas e êle é um camarada feliz. Apenas tem por obrigação portar-se condignamente para não manchar minha reputação nem lançar-me ao ridículo.
- Um bom moço, êle deve ser.


- Precisamente.
Mistinguette levanta os olhos e fita Cozenso, que está embebido numa passagem de sua própria melodia.
- Pobrezinho, eu poderia ser sua avó.
Volta-se para mim e pede:
-Diga que tenho 38 anos...


Velha e querida Mistinguette, alma e temperamento de minha cidade, sempre jovem, sempre eterna: eu desejaria que você não morresse nunca. Isto é supérfluo, Mistinguette, porque realmente você não morrerá nunca, enquanto existir Paris, enquanto houver música nos cabarés, enquanto pernas lindas deslocarem nossos olhos. Mistinguette, você é um bairro de Paris.

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