| Vitalinas
“E
tira o pó, Vitalina,
Bota o pó, Vitalina,
Môça velha não sai mais do caritó”
(cantiga
popular)
Da Bahia para o Sul, pouca gente saberá o que é vitalina
e o que é caritó. Caritó é a pequena
prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde
as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel
de linha, o pente, o pedaçõ de fumo, o cachimbo. Vitalina,
conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a môça-velha
que se enfeita - bota pó e tira pó - mas não
encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó
é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida,
guardada intacta.
As
cidades grandes já hoje quase desconhecem essa relíquia
da civilização cristã, que é a solteirona,
a donzela profissional. Porque, se hoje como sempre, continuam a
exisitir as mulheres que não casam, elas agora vão
para tôda a parte, menos para o caritó. Para as repartições
e os escritórios e os balcões de loja, para as bancas
de professôra, e até mesmo, Deus que me perdoe, para
êsses amôres melancólicos e irregulares com um
home que tem outros compromissos, e que não lhes pode dar
senão algumas poucas horas, de espaço a espaço,
e assim mesmo fugitivas e escondidas.
De
qualquer forma, elas já não se sentem nem são
consideradas um refugo, uma excrecência, aquelas a quem ninguém
quis e que não têm um lugar seu em parte nenhuma.
Pela
província, contudo, é diferente. Na próvíncia
os preconceitos ainda são poderosos, ainda mantêm presa
a mulher que não tem homem de seu (o “homem
de uso”,
como se chama às vezes ao marido...) e assim, na província
a instituição da titia ainda funciona com bastante
esplendor. E o curioso é que raramente são as môças
feias, as imprestáveis, as geniosas, que ficam no caritó.
Às vezes elas são bonitas e prendadas, e até
mesmo arranjadas, com alguma renda ou propriedade, e contudo o alusivo
marido não apareceu. Talvez porque elas se revelaram menos
agressivas, ou mais ineptas, ou menos ajudadas da família
na caçada matrimonial?
A
gente as conhece mocinhas, botões de flor cheios de esperança
e de graça adolescente. Que pele, que dentes, que cabelos,
que cintura! Por uns anos se deixa de vê-las, e então
quase não se as conhece mais - ressequidas ou obesas, azêdas,
beatas. Fazendo crochê ou se especializando em outras coisas
igualmente inúteis, ressentidas, solitárias, queixando-se
de imaginários achaques, e tão semelhantes ao tipo
caricatural da solteirona pintado nos livros e nos palcos, que até
parece escolheram o modêlo e o copiam com exemplar fidelidade.
Falta
de homem? Bem, é um dos motivos. Na próvíncia
os homens emigram muito. E para onde emigram, casam. Depois, também
contribuiu para a existência das solteironas a reclusão
mourisca que muito pai ainda costuma impor às filhas môças.
Cobra que não anda não engole sapo. Aí, por
estas províncias além ainda existe muito pai carrança
que só deixa a filha sair para ver a Deus ou aos parentes,
e assim mesmo muito bem acompanhada. Reclusas, as meninas vão
ficando tímidas, e dentro de um pouco, já são
elas próprias que se escondem com cerimônia dos estranhos.
Depois,
- parece incrível - mas o egoísmo das mães
também contribui. Uma filha môça, no interior,
não é, como na China, uma praga dos deuses. É,
ao contrário, uma auxiliar barata e preciosa, a ama-sêca
dos irmãos menores, a professôra, a costureira, o “descanso
da mãe”.
E então as mães, para não perderem a ajudante
insubstituível, se associam aos pais no zelo exagerado, traindo
a solidariedade do sexo por outra mais imperiosa, a solidariedade
na exploração.
Menina
de cidade, passeando de lambreta, morando nos cinemas, mal sabe
como é dura a sorte da mocinha de interior. Nas famílias
mais pobres, então! De pequenina, sete a oito anos, já
recebe um irmão menor para criar, e o uso é que o
crie completamente, assumindo tôda a responsabilidade, como
se a própria mãe o fôra. Fazer mingau, banhar
o menino, balançá-lo para dormir, atendê-lo
à noite (inclusive nas doenças), carregá-lo.
Às vezes são tão pequeninas que não
podem com o irmão nos braços e por isso inventaram
o uso de o carregar no quadril, e têm delas que ficam tortas,
só do pêso permanente que levam do lado direito durante
tôda a infância. Também das meninas é
a obrigação de trazer água para casa; e, quando
os irmãos crescem, são elas que lhes lavam e engomam
a roupa e cozinham a comida. Nas famílias mais pobres elas
também vão para o roçado, junto com os homens
de casa, limpar de enxada. E o sinal de que uma família tem
môça muito mimosa e de bom trato, é dizer-lhe
que ela não sabe o que é enxada. Mas apanhar feijão
e algodão tôdas apanham, mesmo as de luxo.
E,
enquanto isso, que faz a mãe? A mãe dá conta
da obrigação de Eva, e bota filhos no mundo, regularmente,
um por ano. Doze, quinze, dezesseis, vinte. Escangalhadas por tanta
maternidade, pelos partos mal assisitidos, aos trinta anos já
são umas megeras, sem carnes e sem dentes, e passam a vida
acocoradas no batente da porta ou à beira do fogo, fumando
cachimbo, enquanto o feto lhe cresce nas entranhas, e as meninas
trabalham.
*
* *
Aliás,
me desviei das vitalinas. Porque essas meninas muito pobres quase
sempre acham marido. As titias proliferam com abundância é
na classe dos remediados e dos meio-ricos. Não que a môça
nestes grupos esteja sujeita a uma escravidão menor. Apenas
o trabalho é menos duro nas casdas onde se pode pagar uma
empregada, ou onde se tem aquela outra mártir doméstica,
- a menina que de garôta se tomou para “criar”.
A que chama os patrões de “padrinhos”,
pequena escrava para quem a Princesa Isabel nunca exisitiu. A primeira
que acorda, a última que dorme, não há serviço,
por pior, que não lhe imponham, nem direito, por menor, que
lhe reconheçam. Para dormir tem uma rêde armada a um
canto, come às pressas na cozinha o resto das panelas, veste
a roupa velha das meninas da casa e lá um vestido de chita
nova, nas festas. Essas, contudo, embora raramente se casem, (ou
fujam e “se
percam”),
pois as madrinhas desviam qualquer pretendente no susto de perderam
a cativa, depois de mulheres feitas quase nunca realizam a figura
da vitalina guardada no caritó. De escravas que foram quase
sempre se transformam em tiranas, assumem a direção
da casa quando a senhora envelhece e as môças indolentes
não a disputam. Viram-se na Dindinha, na Mãe-Titó,
na Tia-Bá, eminência negra ou parda em cujas mãos
capazes fica pràticamente entregue o govêrno da família.
*
* *
Não
sei o que dirá disso a moral tradicional, mas creio que,
felizmente, a existência da vitalina, mesmo na província,
já anda perto do fim. A instituição da “môça
livre” ou
da “mulher
de carreira”,
segundo os modelos da América e da Europa, já tão
bem copiada no Rio e em São Paulo, é uma tentação
muito grande. Qual a môça que tendo possibilidade de
viver do seu emprêgo, no seu próprio apartamento, onde,
se lhe falta o aconchego do marido, restam sempre os consolos da
liberdade, qual a môça que escolherá viver de
favor em casa do irmão, sob a tirania da cunhada?
Será um mal a substituir
outro, dirão. Pois bem nenhum sairá dessa nova liberdade.
A isso não respondo, que não sei: o que posso dizer
é que será, de qualquer jeito, um mal muito menos
melancólico. |